Solidariedade à prova de tudo?

O retrato do que somos e do que seremos no futuro das relações

Seremos mais solidários? O Capitalismo se reinventará como historicamente sempre fez?

Seremos mais solidários? O Capitalismo se reinventará como historicamente sempre fez?

EFE/EPA/ALEX PLAVEVSKI

A solidariedade entre os humanos é sempre colocada à prova quando nos deparamos com situações-limites nas quais o eixo em que roda a vida se desencaixa do resto da estrutura e ameaça a boa condução ou a sobrevivência do dia a dia.

Falar em termos coletivos sobre ações de ajuda feitas em dinheiro, prestação de serviços voluntários ou doação de equipamentos e produtos é também resguardar espaço de análise para números não só puramente humanitários como os colhidos pelos infelizes oportunistas de plantão.

O difícil aqui é saber distinguir limites, principalmente quando operados pelo mundo empresarial. Normal, pois todo o sistema político-econômico planetário está em xeque, e neste sentido é que vimos acompanhando iniciativas empresariais, feitas em plataformas multimercados globais ou segmentadíssimas no seu nicho e local. São firmas se mexendo voluntariamente ou pressionadas por governos e acionistas a contribuírem para o combate ao coronavírus, à mortalidade e à miséria.

A imprensa, a grosso modo, vem informando aqui ou ali tais ações. Empresas multinacionais de alta tecnologia em setores como o da aviação e automotivo orientam seus esforços para consertar, fabricar e reinventar respiradores. Outras da área farmacêutica e de cosmético canalizam sua produção para a fabricação de álcool gel. Da linha têxtil e da alta costura surgem grupos de confecção de máscaras, aventais e demais itens essenciais aos infectados e trabalhadores da saúde.

Não dá para deixar de fora os pequenos comércios e redes de alimentos que, além do delivery, preparam marmitas às pessoas em situação de rua. Igrejas e associações religiosas, sindicatos, associações de classe, ONGs etc, que agem de forma a minimizar a fome, as carências financeira e material de grande parte da população impactada pelo isolamento social. Esta camada forma uma base na pirâmide social cada vez mais alargada em tempos de carestia onde se alojam desempregados, autônomos (sem autonomia financeira como dinheiro em banco ou capital de giro para o pequeno negócio), micros e pequenos produtores rurais (que sentem forte impacto não só pela retração de negócios como quedas de produtividade na terra e consequente rendimentos), ambulantes e outros atores sociais, muitos ainda excluídos do sistema.

E assim vamos percebendo logo que certas práticas solidárias (e de higiene) introduzidas no cotidiano devem permanecer depois da crise. O que há de se ver ainda é como a sociedade global vai voltar à ativa quando sair de casa e retomar o espaço real das relações mútuas. Seremos mais solidários? O Capitalismo se reinventará como historicamente sempre fez? Em que bases isso se daria? Governos investirão mais recursos públicos em saúde preventiva, fornecimento de água potável e coleta e tratamento de esgoto? E em leitos e pessoal de pronto-socorro e UTI? Vamos ser mais religiosos? Estudaremos mais a microbiologia e a psicologia? Reduziremos a emissão de CO2 e o lixo? A ciência feita nas universidades públicas terá mais reconhecimento?

Cumprimentaremos novamente as pessoas com abraços, beijos e apertos de mão?

Com a palavra, o futuro.