Uma casa, um lar, um abrigo 

A exclusão de camadas da população a um direito fundamental como morar dignamente machuca o que chamamos de sociedade

Milhões de brasileiros vivem em sub-residências

Milhões de brasileiros vivem em sub-residências

JF Diorio/Estadão Conteúdo - 18/12/2017

Muito provavelmente, quem está começando a ler agora este texto deve estar fazendo isso de um lugar que pode ser naquele banco de praça, ou no ‘conforto’ de um assento de trem, metrô ou ônibus. Da cama de um hospital se recuperando - espero, não da praga do momento - ou na fila de um banco esperando atendimento. Também pode estar em qualquer espaço minimamente iluminado, seguro e protegido como uma casa. Pouquíssimas são as chances desta coluna estar sendo consumida por alguém que não se encontre numa situação descrita anteriormente ou próxima.

Na citada exceção, refiro-me aos milhões de brasileiros (não, não são milhões que leem meus escritos, opa!) que passam e vivem suas vidas em sub-residências ou algo que possa ser chamado de moradia mas que, sabemos, em nada chega perto a um local digno para abrigar um lar - seja ele formado por um indivíduo ou mais – que ofereça segurança física, psíquica e proteja os humanos das variáveis climáticas.

O drama da falta de uma habitação com algum nível de civilidade deveria ser um exercício diário que deveríamos experimentar. Morar em condições desumanas é não morar. Ninguém deve considerar normal a situação na qual pessoas como nós, de carne, ossos, coração, cérebro, olhos, ouvidos, narizes, boca para alimentar e pele para cuidar, não possam ter um mínimo de dignidade que é morar uma construção em alvenaria, provida de cômodos como cozinha, banheiro, sala e quarto, um quintal (comum ou particular), uma lavanderia, conectada às redes de eletricidade e saneamento.

Não dá para imaginar que se vive a plenitude da vida ombreado por ‘madeirite’, telha pré-fabricada, lona ou chapa de zinco cobrindo as cabeças e chão de terra batida sobre os pés, e ainda com cano de PVC saindo da privada e das pias pelos buracos da ‘residência’ seguindo para qualquer direção que não um coletor de esgoto oficial. Ou equilibrando-se em tocos de madeira enfiados nas águas que beiram mangues, rios ou mesmo mares...com os mesmos canos de PVC saindo pela ‘edificação’.

Os dados relativos à falta de moradia que prefeituras, estados e o Ministério do Desenvolvimento Regional levantam em pesquisas próprias ou das feitas pelo IBGE e outras instituições (a maioria públicas, como universidades federais, por exemplo) ajudam a mapear o tamanho da desgraça social.

Também não é de hoje que políticas governamentais e de estado buscam atacar o problema com programas de moradia popular focando cidades de alta e médias densidades populacionais, procurando minimizar este grave buraco enraizado no Brasil há mais de um século. Aliás, o uso e ocupação do solo, bem como distribuição e acesso a terras para fins habitacionais no país, é papo para outro dia e pauta, assim como a corrupção no sistema financeiro que envolve o financiamento em empreendimentos habitacionais desde há muito tempo.

Só não me esqueço nunca, quando paro e penso -  e isso acontece numa cadência quase que frenética e diária-, no quanto é cruel submeter a carne, ossos, coração, cérebro, olhos, ouvidos, narizes e boca ao frio, ao mau cheiro, ao vento, à umidade, aos insetos e ratos, à insegurança, ao barulho, à água ruim para beber, cozinhar ou lavar roupa. Pior, se é que são coisas comparáveis, é passar dias a fio perambulando atrás de um metro quadrado para deitar o corpo sedento de nutrientes, banho, roupas e atenção do Estado.

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