“Estamos mais próximos da vacina contra a Aids”, diz pesquisador de vacina brasileira 

Após bom resultado em primatas, vacina da USP pode ser testada em humanos daqui a três anos

Promissora, a vacina poderá ser testada em humanos em três anos

Promissora, a vacina poderá ser testada em humanos em três anos

Getty Images

Nesta terça-feira (18), pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) divulgaram resultados positivos em relação à vacina anti-HIV que está sendo testada na universidade. Os testes realizados em quatro macacos foram considerados extremamente bem sucedidos. Segundo Edécio Cunha Neto, professor de imunologia clínica da Faculdade de Medicina da USP e pesquisador do Incor (Instituto do Coração), a resposta do sistema imunológico dos animais foi melhor do que os cientistas esperavam.

Em conversa com o R7, o especialista falou sobre os próximos passos do estudo, a importância da pesquisa para a possível cura e os testes que ainda serão realizados em humanos.

Pesquisadores da USP têm êxito em testes iniciais de vacina contra vírus da Aids

Segundo o pesquisador, a vacina tem uma premissa de funcionamento diferente de todas as pesquisas conduzidas hoje. "Estamos mais próximos de uma cura funcional do HIV do que estávamos há dez, 15 anos atrás. A diferença dessa vacina é que ela foi a primeira a ser criada e desenvolvida aqui no Brasil", afirma Cunha Neto.

Leia a entrevista na íntegra:

R7 — Como surgiu a pesquisa?

Edécio Cunha Neto — Há 12 anos começamos um trabalho em que queríamos juntar um conjunto de fragmentos do HIV que pudesse avaliar a intensidade da resposta imune em paciente com HIV.  Após escolhermos a região em que o estudo seria realizado, sintetizamos pequenos fragmentos das proteínas do HIV, de um total de 18, e fomos ver a capacidade das células do sangue de responderem a esses fragmentos.

R7 – Como foi a primeira etapa?

Edécio Cunha Neto – Fizemos testes com camundongos. Nossa impressão com os testes foi que as cobaias tiveram uma resposta forte, 10 % das células do camundongo eram capazes de identificar componentes da vacina. Então esse número grande nos estimulou para continuarmos a pesquisa.

R7 – Logo depois, o que aconteceu?

Edécio Cunha Neto – Começamos a fazer testes em primatas, onde os resultados foram muito melhores do que os em camundongos. Injetamos o DNA com a parte que decodificava os fragmentos do HIV. Depois de três imunizações houve uma resposta muito potente, de quatro a dez vezes maior que nos camundongos. O macaco rhesus, que usamos na pesquisa, tem um sistema mais semelhante ao humano do que um camundongo. Nós esperávamos uma resposta mais fraca ou de magnitude semelhante ao que achamos no camundongo, mas essa resposta foi mais forte foi surpreendente.

R7 — Quais são as próximas etapas da pesquisa?

Edécio Cunha Neto - A próxima etapa é fazer o teste com 28 animais onde teremos grupos que receberão vacinas com fragmentos variados do HIV. Basicamente são vacinas virais em que você coloca o fragmento do HIV e a partir daí começa administrar a variação dos vírus para saber qual a melhor combinação que podemos utilizar na imunização dos macacos.

R7 – Haverá teste em humanos?

Edécio Cunha Neto — Os testes em humanos serão feitos depois de três anos, pois é o tempo que levaríamos para fazer as adequações físicas. Cogito que levaremos três anos até ter todos os resultados dos vetores virais.

R7 - Quanto ao teste em humanos, os primeiros testados serão portadores da doença?

Edécio Cunha Neto - O primeiro teste será com pessoas não infectadas para vermos a resposta. Então, vamos analisar se a imunização é segura. Só então faremos os testes com pessoas já infectadas.

R7 - Essa vacina poderá atender a todos os infectados?

Edécio Cunha Neto - Como toda vacina, ela não protege todos os pacientes. Nosso objetivo é proteger o maior número possível de pacientes.

R7 – Quais são as opções de tratamento para portadores do HIV? Eles são suficientes para controlar a doença?

Edécio Cunha Neto - Os pacientes ainda precisam usar muitas drogas, mas existe um grupo de pesquisadores que estava tentando, com tratamentos muito fortes, prover uma cura funcional da doença.

O problema do vírus da Aids é que ele se esconde em células que não são alvos do coquetel e essas células se modificam. Se você dá um coquetel muito forte para uma pessoa, ele vai matar todas as células que vão replicar o vírus, mas não vai matar o vírus dentro das células que chamamos de reservatório.

R7- Comparado ao passado em que HIV era visto como “o passaporte para a morte”, como o senhor avalia o panorama de pesquisas hoje em dia?

Edécio Cunha Neto - Existem outras vacinas em estágios avançados, inclusive com testes em humanos, que têm chances de dar bons resultados mais cedo. Existe outro grupo de cientistas que quer produzir uma vacina que induza a produção de neutralizantes. Esse tipo de anticorpo seria capaz de bloquear qualquer tipo de HIV impedindo que ele se conecte à célula, mas isso ainda é uma possibilidade muito remota.

*Colaborou: Luiz Guilherme Sanfins, estagiário do R7