Tecnologia e Ciência Atraso tecnológico deixa Brasil vulnerável e fora de missões para Marte

Atraso tecnológico deixa Brasil vulnerável e fora de missões para Marte

Pesquisa e infraestrutura espacial pode fornecer soluções para proteger o País de espionagem

Atraso tecnológico deixa Brasil vulnerável e fora de missões para Marte

Satélites para defesa do Brasil e preparação de profissionais são prioridades do programa espacial brasileiro

Satélites para defesa do Brasil e preparação de profissionais são prioridades do programa espacial brasileiro

Divulgação/Nasa

A queda do satélite CBRS-3 passou despercebida por boa parte dos brasileiros nas últimas semanas, porém o aparelho construído e lançado em parceria com a China teria função essencial para vigilância do território nacional. O equipamento possuía modernas câmeras de vigilância remota, capazes de melhorar de forma significativa a observação do desmatamento da Amazônia, por exemplo.

Com uma defasagem em relação às grandes potências, o Brasil fica distante de missões "fantásticas", como: o envio da sonda-robôs Curiosity para Marte, o lançamento do robô chinês Yutu para exploração da Lua ou a busca de vida fora do planeta. De acordo com o presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), José Raimundo Braga Coelho, o programa espacial brasileiro está mais voltado para usar o espaço como posto de vigilância do território e fronteiras nacionais do que interessado na vida em Marte ou na futura divisão geopolítica do planeta vermelho.

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— Nossos cientistas utilizam acordos de cooperação que fazemos com a Nasa e com todas as agências espaciais do mundo para utilizar os dados e fazer parte do conjunto internacional de pesquisadores que buscam maior conhecimento sobre o Universo. Agora, nós não temos condições de participar e ser parceiros nas missões propriamente ditas, de desenvolver hardware, participar do desenvolvimento dos satélites e outros instrumentos que são utilizados para essas missões mais fantásticas.

Para Coelho, enquanto o Brasil tiver questões relacionadas com seu território de cerca de 8,5 milhões de km², não há motivo para direcionar esforços para missões como o envio de astronautas brasileiros para o espaço, por exemplo. Há cerca de três anos o País não consegue gerar imagens próprias do planeta.

— Enquanto não tivermos uma sensação de monitoramento e segurança total com relação a esses 8,5 milhões de km² a gente tem que continuar trabalhando nessa área.  É claro que, do ponto de vista científico, é importante também não deixar de lado essas grandes missões de observação do universo. Mas a gente pode fazer isso acompanhando e fazendo acordos para a utilização desses dados. Nós ainda temos muitos desafios pela frente: cuidar e terminar o nosso Centro de Lançamento de Alcântara (Maranhão), que é o mais bem localizado do mundo. Nós temos o desafio de terminar o projeto de lançadores, melhor nossa performance na área de satélites. E também melhorar nosso nível de formação de recursos humanos especializados nessas áreas.

Defesa contra espionagem

Apesar de não terem necessariamente uma ligação direta, o espaço e a internet compartilham uma visão idealizada por grande parte das pessoas. Entretanto, como já foi indicado pelas denúncias do ex-analista da NSA, Edward Snowden, os governos podem tirar proveito da superioridade tecnológica para vigilância e espionagem.

Nesse sentido, o atraso espacial do Brasil pode deixar o País vulnerável a espionagem e até mesmo desprevenido no caso de um conflito espacial. Longe do cenário de produções famosas, como as franquias Star Wars e Star Trek, uma guerra espacial seria um conflito onde as nações combatentes fizessem uso de recursos espaciais como satélites e armas com poder de disparo vindo do espaço ou direcionado para atingir aparelhos no espaço.

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A falta de um acordo espacial que regule os equipamentos espaciais e o seu caráter duplo (podem ser usados tanto para fins científicos e comerciais quanto para fins militares) são fatores que podem contribuir para a militarização do espaço - que pode já estar acontecendo, comenta o doutor em Estudos Internacionais pela Old Dominion University Alessandro Shimabukuro.

— Desde o início da era espacial há este imaginário do espaço como um ambiente pacífico onde a humanidade poderia superar conflitos e conjuntamente explorar o cosmos e se beneficiar da tecnologia espacial, cientifica e economicamente. Mas como qualquer tecnologia, há um "lado negro". Tecnologias sempre podem ser utilizadas para fins agressivos ou criminosos.

A conquista do espaço e sua influência na manutenção da posição dos Estados Unidos como principal ator no planeta é um dos temas pesquisados por Shimabukuro. O pesquisador afirma que a vantagem tecnológica influencia a indisposição dos EUA em aceitar acordos que protejam o espaço do excesso de satélites. A rejeição a tratados não armamentistas no espaço seria uma forma de proteger os satélites norte-americanos.


O presidente da AEB não concorda com a tese de que há uma militarização do espaço, mas concorda que a transferência tecnológica de um programa espacial ativo e a construção de satélites de comunicação nacionais, como o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação Estratégica (SGDC), que será o primeiro satélite brasileiro que vai ocupar a órbita geoestacionária e deve prover serviços de comunicação estratégica do governo são importantes para reduzir o risco de espionagem.

 — Não existe essa história de militarização, o espaço é muito grande. A única maneira de dominar o espaço é desenvolver tecnologia que lhe permita fazer tudo que for necessário. Mas, se nós tivermos os nossos próprios satélites de comunicação, teremos um instrumento para mitigar esse grande perigo de invasão do nosso território, invasão das nossas consciências e até da nossa intimidade. É óbvio que os satélites e servidores nacionais não vão resolver de todas as maneiras isso, porque os dados de comunicação não são transportados apenas por satélites. A internet funciona de várias maneiras. Então, nós estaríamos melhorando o nosso sistema de defesa nessa área.

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