Caçador de nascentes faz mapa e afirma: "Há muita água limpa em São Paulo"

Desemboque de córregos na capital paulista ganham portais artísticos

Ter um lago no quintal era o sonho de criança do administrador de empresas Adriano Oliveira Sampaio, 43 anos. O antigo desejo só foi concretizado anos mais tarde, já adulto, ao ajudar a construir o lago da praça Homero Silva, na Pompeia, zona oeste da capital paulista. O lugar foi revitalizado pelo coletivo Ocupe & Abrace, do qual Sampaio faz parte. A praça do bairro onde ele cresceu e morou grande parte da vida era praticamente a extensão de sua casa.

Empolgado com o resultado, ele passou a se dedicar nas horas vagas, junto com o coletivo Rios e Ruas, à recuperação de outras nascentes na cidade. Sampaio, que atua na área de seguros, aos poucos, foi dando vazão ao lado de ativista ambiental. Chegou à conclusão de que poderia fazer mais e resolveu mapear nascentes de São Paulo, filmá-las e colocar as imagens na página Existe água em SP, que criou no Facebook. Em tempos de crise hídrica no Estado, o recado não poderia ser mais direto.

Em dois meses, fez o levantamento de aproximadamente 20 nascentes nas zonas oeste, norte e região central. Ao R7, ele explica como montou o mapa.

— Um amigo meu pegou um mapa de 1930 do percurso original dos rios e colocou com um mapa atual do Google. Sobrepôs com os nomes das ruas.

Para ele, "caçar" nascentes pela cidade é "uma aventura". Questionado sobre o que pretende com a ação, responde sem titubear.

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— Sensibilizar as autoridades para que preservem os nossos rios. Há alguns que ainda não foram canalizados e que podem ser recuperados. Para limpar o Tietê, por exemplo,  é preciso limpar, primeiro, esses rios que despejam poluição nele. Acho que tem que começar por aí. A culpa não é só da Sabesp [Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo], do governo. A culpa maior é deles. Mas também tem a população que ainda suja.

O ativista entende que captar essas águas e recuperar os mananciais que ainda preservam vida ajudariam a minimizar os efeitos da crise hídrica.

— Tanto os governantes quanto a população em geral  não dão o devido valor para esse potencial natural que ainda existe dentro da cidade, que é uma grande bacia hidrográfica com mais de 300 rios[...] Há muita água limpa em São Paulo e é possível recuperar alguns rios, inclusive, para abastecimento, para a captação dessa água.

Associação demarca foz de córregos

A Associação Águas Claras do Rio Pinheiros instalou portais artísticos na foz dos córregos Uberaba e Jaguaré, que desembocam no rio Pinheiros.

A ação faz parte de uma série de intervenções realizadas pelo artista plástico Srur para conscientizar sobre a importância da recuperação do rio e de cada um de seus afluentes.

Portais artíticos criados para demarcar a foz de córregos da capital
Portais artíticos criados para demarcar a foz de córregos da capital Eduardo Baum e Emiliano Capozoli/Divulgação

 

A obra, chamada de Portal, foi feita com material usado no último desfile da escola de samba paulistana Rosas de Ouro. A visitação das estruturas é feita pela ciclovia da marginal Pinheiros e pela linha Esmeralda da CPTM, na margem direita do rio.

Além dessas obras, o paulistano também pode contemplar os manequins realistas sobre trampolins azuis nas pontes Morumbi, Engenheiro Roberto Rossi Zuccolo, Eusébio Matoso e Cidade Universitária, e as duas onças gigantes infláveis "bebendo" água em uma das margens do rio Pinheiros.