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Transporte de animais de criação na pecuária aumenta risco de espalhar doenças no gado

Uma das ameaças tem sido o vírus da gripe aviária, o H5N1, que tem os bovinos como hospedeiros

Agronegócios|Emily Anthes e Linda Qiu, do The New York Times

Caminhão em uma granja de Wildersville, Tennessee, nos EUA (Rory Doyle/The New York Times - 02.11.2023)

A disseminação do vírus da gripe aviária pelas vacas leiteiras norte-americanas pode ser atribuída a um único evento de relevância. Cientistas acreditam que, no fim do ano passado, o vírus passou das aves selvagens para o gado na região do Texas. Nesta primavera setentrional, o vírus, conhecido como H5N1, já tinha viajado centenas de quilômetros ou mais, aparecendo em fazendas em Idaho, na Carolina do Norte e no Michigan.

Mas o vírus não percorreu essas distâncias sozinho. Pegou carona com seus hospedeiros, as vacas, mudando-se para novos estados à medida que o gado era transportado do epicentro do surto para fazendas agrícolas em todo o país.

O transporte de animais vivos é essencial para a pecuária industrial, que se tornou cada vez mais especializada. Muitas instalações se concentram em apenas uma etapa do processo de produção — por exemplo, produzir novos filhotes ou engordar adultos para abate — e, depois, os animais são enviados para outros lugares.

O número exato de galinhas, vacas e porcos transportados em caminhões, navios, aviões e trens dentro dos Estados Unidos é difícil de determinar, uma vez que não existe um sistema nacional universal para rastrear todo esse movimento.

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Mas estimativas vindas de fontes oficiais e de entidades defensoras de animais dão uma noção da escala: em 2022, cerca de 21 milhões de bovinos e 62 milhões de suínos foram enviados de um estado para outro para reprodução ou alimentação, de acordo com o Departamento de Agricultura. Esses números não incluem dados sobre aves, movimentação dentro de um mesmo estado ou viagens para abate. De acordo com o Animal Welfare Institute, grupo sem fins lucrativos, nesse mesmo ano mais de 500 mil bezerros leiteiros jovens, alguns com poucos dias de vida, foram transportados através de seis estados. Alguns viajaram mais de 2.400 km.

Colleen Webb, especialista em epidemiologia pecuária da Universidade Estadual do Colorado, acredita que “esse movimento pode contribuir para o transporte de patógenos a longa distância e tornar tanto os surtos quanto a gestão de surtos um desafio”.

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Muitos patógenos pecuários, incluindo a gripe aviária, são zoonóticos, o que significa que podem passar de animais para humanos. Surtos pecuários maiores e mais duradouros têm potencial para aumentar as probabilidades de as pessoas entrarem em contato com animais infectados ou produtos alimentares contaminados e, assim, criar mais oportunidades para a evolução dos agentes patogênicos.

Desde março, a gripe aviária foi confirmada em 51 rebanhos leiteiros em nove estados e infectou pelo menos um trabalhador no campo. No mês passado, em um esforço para conter o surto, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos passou a exigir testes de gripe A para vacas lactantes que cruzam fronteiras estaduais.

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“Isso é só uma pequena fração do problema”, disse Ann Linder, diretora associada do programa de direito e política animal da Faculdade de Direito de Harvard. Os Estados Unidos impõem poucas restrições ao transporte de animais de criação, o que representa uma ameaça muitas vezes ignorada à saúde animal e humana, afirmam especialistas. A movimentação do gado apresenta o que Linder chamou de “uma combinação perfeita de fatores que podem facilitar a transmissão de doenças”.

Febre do transporte

Não há sistema de rastreamento de animais de criação nos EUA (Rory Doyle/The New York Times)

Cada etapa do processo de transporte oferece oportunidades para a propagação de patógenos.

Os caminhões e as instalações de parada podem amontoar animais de diversas fazendas em espaços pequenos e mal ventilados. Em um estudo aleatório, investigadores descobriram que 12% dos frangos abatidos em fazendas possuíam a bactéria Campylobacter que, comumente, causa intoxicação alimentar. Esta, depois do transporte, foi encontrada em 56% das aves.

As condições de transporte também provocam impacto físico. Os animais podem estar sujeitos a calor e frio extremos, transportados por centenas de quilômetros sem descanso e privados de comida, água e cuidados veterinários, de acordo com os especialistas. Praticamente, não há dados sobre quantos adoecem ou morrem em viagens.

Segundo Ben Williamson, da organização sem fins lucrativos para o bem-estar animal Compassion in World Farming (algo como Compaixão pela Agropecuária Mundial), essas condições estressantes “comprometem a saúde e o bem-estar do animal e também enfraquecem seu sistema imunológico, e isso, obviamente, aumenta o risco de transmissão de doenças”. Numerosos estudos sugerem que o transporte pode suprimir o sistema de imunodefesa das vacas, deixando-as vulneráveis à “doença respiratória bovina”, muitas vezes conhecida como “febre do transporte.”

Ana Rule, especialista em bioaerossóis da Escola de Saúde Pública Bloomberg, da Universidade Johns Hopkins, apontou em um estudo que, enquanto viajam, os animais oriundos das fazendas deixam patógenos em seu rastro. Ela descobriu que bactérias causadoras de doenças, incluindo algumas resistentes a antibióticos, fluíam dos caminhões de aves em movimento nas estradas para os carros atrás deles. “Os caminhões estavam, simplesmente, disseminando essas bactérias”, afirmou ela.

Sabe-se também que veículos de transporte contaminados espalham patógenos muito tempo depois de os animais infectados terem desembarcado e, por isso, provavelmente desempenham um papel importante na cadeia geradora de surtos de doenças em vacas leiteiras, explicaram especialistas.

Os animais infectados podem então desencadear surtos nos seus destinos, incluindo leilões de gado, que, muitas vezes, utilizam animais muito velhos, doentes ou pequenos, que já não servem para o abastecimento comercial de alimentos. “Esses leilões são um ótimo lugar para o H5N1 passar dos bovinos para os suínos”, disse Linder.

Lacunas e lacunas

O Departamento de Agricultura tem autoridade para restringir o movimento interestadual de gado, mas, na prática, existem poucas barreiras a esse tipo de transporte através do país. “Acho que boa parte do Departamento de Agricultura quer tornar o transporte dessa carga viva o mais ininterrupta possível”, disse Linder.

De acordo com uma lei federal aprovada pela primeira vez em 1873, o gado transportado por mais de 28 horas consecutivas deve ser descarregado durante pelo menos cinco horas para alimentação, água e descanso. Mas os críticos dizem que essa lei, promulgada há 150 anos, é mais flexível do que as regulamentações comparáveis em outros países e é raramente aplicada. O Instituto do Bem-Estar Animal encontrou apenas 12 investigações federais de possíveis violações nos últimos 15 anos.

A lei também isenta remessas por via marítima ou aérea. A Compassion in World Farming documentou o uso de “cowtainers” (junção das palavras cow, vaca, e contêiner) para transportar bezerros do Havaí para o território continental dos Estados Unidos, em viagens marítimas que podem durar cinco dias ou mais.

O gado que viaja entre estados deve portar um certificado de inspeção veterinária, emitido pelas Secretarias Estaduais de Agricultura ou por um veterinário credenciado, declarando que são animais saudáveis. Mas essas inspeções superficiais não detectam os infectados quando observam animais assintomáticos. É mais uma forma de propagar a gripe aviária para novos rebanhos leiteiros.

Muitos países da Europa têm agora um sistema obrigatório de identificação e rastreamento de gado que registra os movimentos de animais individuais ao longo de toda a sua vida. “É algo óbvio no mundo moderno em que estamos tão conectados”, comentou o dr. Dirk Pfeiffer, pesquisador veterinário de saúde pública da Universidade da Cidade de Hong Kong.

Embora alguns estados, incluindo o Michigan, tenham criado um sistema semelhante, não existe nenhum que funcione em nível nacional. Um porta-voz do Departamento de Agricultura defendeu o sistema americano em um e-mail enviado, observando que a indústria pecuária dos EUA é muito maior do que a de qualquer nação europeia.

Se existisse um sistema nacional de rastreamento, ele permitiria às autoridades determinar rapidamente os caminhos das vacas leiteiras infectadas pela gripe aviária, identificar as fazendas atingidas e, talvez, conter o surto, disseram cientistas. “Quanto mais rapidamente tivermos os dados sobre onde animais infectados podem estar, mais depressa vamos poder pôr os controles em prática. Controlar um surto é uma corrida contra o tempo”, observou Webb.

Defensores do bem-estar animal pedem a aprovação de novas regulamentações para o transporte de gado. Um projeto de lei, proposto pelo senador Cory Booker, do estado de Nova Jersey, reduziria a lei que determina parar a viagem depois de 28 horas consecutivas (quando o gado, então, deve ser descarregado e alimentado) para oito horas. E também exigiria uma manutenção de registros mais rigorosa. A deputada Dina Titus, democrata de Nevada, planeja apresentar outro projeto de lei que fortalece a fiscalização e exige a adesão aos padrões internacionais de transporte.

“Os norte-americanos e os consumidores em geral deveriam se preocupar com a forma como os animais de criação são transportados. São seres sencientes, capazes de sofrer. Mas também porque seu bem-estar tem impacto na segurança dos nossos alimentos e da nossa saúde”, declarou Dena Jones, do Animal Welfare Institute.

c. 2024 The New York Times Company



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