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Perdeu-se o respeito pela vida — e pela dignidade diante da morte 

Seja numa lotérica, seja em um mercado, a morte de um cliente ou trabalhador não interrompe o comércio: normal, vida que segue

Brasil|Marco Antonio Araujo, do R7

Em 2020, no Recife, esconderam o corpo do vendedor Moises, e supermercado continuou funcionando
Em 2020, no Recife, esconderam o corpo do vendedor Moises, e supermercado continuou funcionando Em 2020, no Recife, esconderam o corpo do vendedor Moises, e supermercado continuou funcionando

Há um poema belíssimo do poeta e pastor inglês John Donne, escrito no século 17, que afirma: “A morte de cada homem me diminui, porque faço parte do gênero humano”. Ao fim, uma pergunta e uma afirmação: “Por quem os sinos dobram? Eles dobram por ti”. Outras eras. A morte nunca foi tão banalizada como em nossos tempos.

Perdemos a mais ínfima capacidade de respeitar os mortos, inclusive seus corpos pertenceram à esfera do sagrado, do universal, até mesmo em guerras entre povos considerados bárbaros. No fim das batalhas, era feito um armistício para que cada lado pudesse resgatar os seus, que seriam velados.

Por isso, chama atenção, pela mistura de desprezo e revolta que despertou, o fato de um homem ter morrido nesta segunda-feira (5), em São José dos Campos (SP), numa lotérica. Foi um mal súbito, fatal. Pois não só o estabelecimento continuou a funcionar normalmente como os clientes entravam e saíam para fazer suas apostas ou pagar seus boletos com o corpo lá, estendido no chão, à espera da chegada piedosa da viatura do IML.

Em agosto de 2020, algo muito parecido aconteceu. Um representante de vendas, de 59 anos, sofreu um infarto fulminante quando estava a trabalho em uma loja do hipermercado Carrefour, no Recife. Esconderam o corpo do pai de família Moisés Santos atrás de guarda-sóis e engradados de cerveja. O comércio permaneceu funcionando normalmente, como se nada houvesse acontecido. Vida que segue?

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Muitos, pelo visto, devem pensar assim: não há por que interromper, mesmo que momentaneamente, o funcionamento de um comércio, deixar de faturar os trocados, “tocar a vida” em vez de aguardar a chegada de um familiar para velar o falecido ou esperar que o cadáver seja retirado, com dignidade. Afinal, quanto vale a vida?

E se fosse você, seu pai, sua mãe? Se for um estranho, tudo bem? Afinal, por quem os sinos dobram? Por ninguém...

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