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ARTIGO | A partida desigual entre mulheres e homens

Do total de pessoas que compõem a população em idade ativa, apenas 41,8% das mulheres conseguem se inserir no mercado de trabalho (...

Folha Vitória

Folha Vitória|Do R7

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A celebração do 8 de Março em todo o mundo estimula diversas reflexões socioeconômicas, entre elas discussões a respeito da participação da mulher no mercado de trabalho. 

Apesar dos avanços já estabelecidos nessa área, as mulheres ainda são minoria entre os cargos de liderança e maior remuneração ocupam 38% destes cargos no Brasil, segundo a consultoria Grant Thornton – e cargos políticos – segundo o TSE, apenas 17,7% das vagas disputadas nas eleições de 2022 foram ocupadas por mulheres.

Segundo o IBGE, as mulheres são maioria da população do país (51,1%) e chegam melhor preparadas ao mercado de trabalho (20,5% alcançam nível superior, contra 17% de homens). 

No entanto, do total de pessoas que compõem a população em idade ativa, apenas 41,8% das mulheres conseguem se inserir no mercado de trabalho (contra 63,0% dos homens). Ainda, após contratadas, elas recebem aproximadamente 79,9% do rendimento dos seus pares do gênero masculino.

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A conquista por um emprego formal e com remuneração justa é considerada por muitos como uma linha de chegada após uma longa corrida por formação educacional e qualificação profissional ao longo da vida. 

No entanto, o debate sobre igualdade entre mulheres e homens no mercado de trabalho precisa ser analisado desde a linha de partida. Isso ocorre, pois, as condições de acesso da mulher a este mercado não estão restritas ao número de vagas de emprego ou ao currículo necessário para a ocupação de determinados cargos. 

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Falar sobre igualdade entre gêneros no mercado de trabalho é refletir, sobretudo, a respeito da estrutura social que antecede a conquista de um emprego formal. No Brasil, isso significa considerar recortes sociais, raciais e de gênero de forma indissociada.

A partir dessa lente, observa-se como a linha de partida de homens, em geral, apresenta vantagem significativa. 

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Os papéis de gênero consolidados na sociedade brasileira resultam amplamente na formação de mulheres direcionadas ao cuidado em seus diversos aspectos – cuidado da casa, dos filhos, dos idosos. Em 2019, as mulheres dedicaram quase duas vezes mais horas que os homens aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas (21,4 horas contra 11 horas).

Como consequência, a chamada tripla jornada (trabalho fora de casa / com a casa / com os filhos) reduz a competitividade das mulheres no mercado de trabalho, recuando suas linhas de partida na corrida por ocupação. 

Enquanto que 89,2% dos homens que vivem em lares com crianças de até três anos de idade estavam ocupados em 2019, a taxa de mulheres ocupadas na mesma situação foi de apenas 54,4%. Para mulheres pretas e pardas especificamente, esta taxa cai para 49,7% (contra 62,6% para mulheres brancas).

Ao adicionar recortes sociais e raciais ao debate, a linha de partida das mulheres se afasta ainda mais. 

Mulheres pretas e pardas dedicaram 22 horas semanais às atividades domésticas (contra 20,7 de mulheres brancas); e mulheres na base da pirâmide de renda (formada pelos 20% com menor rendimento domiciliar per capita) dispenderam 24,1 horas com trabalho doméstico. Importante notar ainda que a população mais pobre do país é majoritariamente feminina (52,4%) e, deste total, 71,3% é composto por mulheres pretas e pardas, ressaltando, novamente, que as interseções entre os aspectos sociais, raciais e de gênero devem ser consideradas na análise.

Assim, aproximar as linhas de partida de mulheres e homens nessa corrida implica em nivelar as diferenças existentes entre os dois grupos, mas não só isso. 

Ampliar a inserção da mulher no mercado de trabalho e garantir maior igualdade de cargos e salários entre os gêneros passa por políticas públicas e privadas mais amplas, como garantia de vagas em creches; educação de meninos e meninas que busque a igualdade entre os gêneros; revisão de práticas de gestão para que não beneficiem, ainda que sem intenção, homens em relação às mulheres; ampliação da licença paternidade, entre outras. 

Dessa forma, dar maior condições para a mulher ser inserida e permanecer neste mercado significa implementar ações que não percam de vista as amplas desigualdades que estruturam nossa condição na sociedade.

*Artigo escrito por Marília Silva, economista-chefe e gerente executiva do Observatório da indústria da Findes

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