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‘Saí ligeiro para não morrer. Se eu fico, eu morro’, diz sobrevivente da enchente no RS

Vítima da inundação em Cruzeiro do Sul vai consertar a casa arrasada pelas águas por não ter para onde ir

Cidades|Tony Chastinet, da Record

Antonio José Caye volta para limpar a casa (Tony Chastinet/Record)

É muito difícil descrever a destruição causada pelas enchentes no Rio Grande do Sul. Quando chegamos a Cruzeiro do Sul, no Vale do Taquari, nos deparamos com um cenário devastador.

Seguimos para um bairro que margeia o Rio Taquari chamado Beira-Rio. Os escombros lembravam as imagens dos estragos provocados por furacões, terremotos ou bombardeios.

Aposentado lamenta ter perdido tudo (Tony Chastinet/Record)

Casas em ruínas, pedaços de ferro, madeira e concreto por todos os lados. Sofás, colchões e eletrodomésticos cobertos de lama, amontoados nas ruas, conferiam um ar ainda mais triste à atmosfera do lugar.

É muito difícil traduzir em palavras o sentimento das vítimas da tragédia.

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Eu caminhava pela avenida, quando vi um senhor empurrando um carrinho de mão com alguns sacos plásticos e vassouras. Fui conversar com ele. “É o que sobrou. É a minha casa.”

Árvore foi parar no telhado da casa (Tony Chastinet/Record)

Antonio José Caye tem 63 anos. É pedreiro. Está aposentado. Ele mora há 40 anos no bairro. Chegou lá jovem. Construiu duas casas. Uma foi completamente arrasada pela enchente. A outra foi bem danificada. Tinha uma grande árvore que foi parar no telhado. Está coberta de lama. Antonio conta que perdeu tudo.

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Sigo caminhando ao lado dele. De repente, ele para, aponta para o carrinho e diz: “Ganhei um cobertorzinho. Não tinha mais.”

O aposentado conta que andou cerca de cinco quilômetros, da casa da filha, onde está abrigado, para começar a limpar e consertar a casa que sobrou.

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À esquerda, Antonio mostra onde ficava a cozinha; ao lado, captura de tela do Google Maps da casa em janeiro (Tony Chastinet/Record)

“Eu estou limpando para ter um lugarzinho para morar. Vou morar onde? Em Cruzeiro não se acha nada.”

Pergunto onde Antonio morava. Ele me leva até um terreno repleto de destroços e conta que no dia em que as águas subiram, teve que sair às pressas. “Saí ligeiro para não morrer. Se eu fico, eu morro.”

Com um olhar triste, Antonio me mostra onde ficava a sala, a garagem e os outros cômodos da casa. “Lá era a cozinha. O fogão está lá ainda.”

Com um olhar triste, Antonio Caye diz que não tem para onde ir (Tony Chastinet/Record)

Chegamos na casa onde Antonio disse que irá morar. A frente do imóvel estava obstruído por uma pequena montanha de lama e entulhos. Só era possível entrar pela lateral, onde antes havia um pequeno e arrumado jardim.

Uma árvore grande foi parar no telhado. Por dentro, a casa estava inteira tomada de lama. Os cômodos já estavam vazios. Tudo havia sido perdido.

Ele me leva até o quarto do casal. Ele mostrou emocionado um armário, onde ainda estavam algumas roupas enlameadas penduradas nos cabides.

“Aqui era o armário, o que sobrou dele. As roupas todas já colocamos para fora. Tudo que eu tenho hoje é um cobertor e três mudas de roupa que peguei antes de fugir.”

A prefeitura de Cruzeiro do Sul estuda o remanejamento de algumas áreas afetadas pelas cheias.

Antonio diz que não tem para onde ir. Ele pretende continuar no bairro. Vai limpar e consertar a casa.

“Quero ficar no meu cantinho. Vou voltar para cá. Assim que eles colocarem a luz e a água, vou voltar para cá. Meus impostos estão todos certinhos. Não vou sair. Já não tenho mais idade para fazer serviço pesado, mas estou fazendo. Não podemos parar. Todos perderam tudo. Era uma vila. Agora ficou só uma meia dúzia de casas.”

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