Queda nas vendas puxa onda de demissões nas montadoras de veículos do País

Mais de 18 mil postos de empregos no setor foram fechados desde outubro de 2013

Muitas montadoras já começaram a dar folgas para trabalhadores
Muitas montadoras já começaram a dar folgas para trabalhadores Divulgação/VW

Impactada pela forte recessão nas vendas, a indústria automobilística brasileira já fechou mais de 3.600 postos de trabalho desde o começo do ano. Há mais de uma década o setor não enfrentava um primeiro trimestre com números tão ruins.

Entre janeiro e março, foram vendidos 1.035.042 de veículos, 15,05% a menos do que no mesmo período de 2014. Isso afetou a produtividade das montadoras, que têm estoque para quase 50 dias. Muitas marcas já adotam esquemas de folgas coletivas.

Para o empresário Sergio Habib, dono do grupo SHC e chefão da chinesa JAC Motors, o cenário em 2015 é extremamente preocupante, uma vez que os patamares de vendas caíram drasticamente. Habib explica que o mercado brasileiro neste ano está girando entre 210 mil a 220 mil carros/mês, volume muito inferior aos 300 mil mensais registrados em 2011, ano de recorde histórico.

— Hoje estou até feliz com o atraso das obras da fábrica da JAC Motors na Bahia. Com essa crise, seria prejuízo certo! Acho que o mercado vai cair, e vai cair forte. E pior: talvez a indústria brasileira leve até oito anos para voltar ao patamar de vendas de 2012, quando tivemos nosso recorde histórico. Foi assim depois da crise de 1998, quando o dólar disparou. Levamos quase uma década até os negócios explodirem de novo.

Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, cerca de 13 mil trabalhadores vão entrar em férias forçadas. Em São Paulo, Mercedes-Benz e Volkswagen implantaram tal estratégia. No Paraná, a Volvo colocará os funcionários em banco de horas.

As folgas são uma alternativa para que o setor evite as demissões, na expectativa de uma melhora ao longo do ano. Desde outubro de 2013, quando a atual crise deu os primeiros sinais, foram fechadas 18,7 mil vagas. Os cortes aconteceram gradativamente, durante esses 17 meses.

Mas, se as estimativas do setor se mantiverem, mais cortes poderão ser inevitáveis. Segundo o presidente da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos), Alarico Assumpção Júnior, as vendas devem fechar 2015 com queda de 10%. Em 2014, a redução foi de 6,64%.

Em Jacareí, interior de São Paulo, funcionários da chinesa Chery estão em greve há duas semanas. Sem acordo salarial, a categoria faz uma nova assembleia nesta quarta-feira (15) para definir os rumos da paralisação.

Em janeiro deste ano, a Volkswagen decidiu readmitir 800 funcionários que haviam sido dispensados. Após dez dias de greve, os trabalhadores entraram em um acordo com a montadora para garantir os empregos até 2019. Também no ABC, a Mercedes-Benz demitiu 244 pessoas, no ano passado.

Entre os motivos que mais impactaram para a redução das vendas está o fim do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) para carros novos, em 1º de janeiro deste ano. Com incertezas sobre o emprego e os rumos econômicos, muitos consumidores estão "fugindo" de financiamentos longos. Por outro lado, os bancos também estão mais rigorosos para conceder empréstimos.

A esperança da indústria está nas grandes ações de vendas, como os feirões de fábrica, e no calor das novidades. Apesar de o mercado estar em forte recessão, algumas montadoras — como as asiáticas Honda, Hyundai e Toyota — estão em crescimento, embaladas pela chegada de novos modelos. E apesar do péssimo momento, há segmentos que ganharão volume com maior intensidade, caso dos SUVs compactos, cuja curva de vendas é ascendente.

Dado o momento delicado da economia e do mercado de carros, resta às empresas acreditar numa virada e seguir apostando suas fichas em novos produtos e tendências.