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Cracolândia deixou de ser problema de segurança e se tornou questão política, diz especialista em PCC

Marcio Sergio Christino, procurador de Justiça Criminal do MPSP, defende 'intervenção de choque' para combater o crime no país

Entrevista|Pedro Marques, do R7

Crime organizado se tornou Estado paralelo imune às ações das autoridades, diz o procurador Márcio
Christino
Crime organizado se tornou Estado paralelo imune às ações das autoridades, diz o procurador Márcio Christino Crime organizado se tornou Estado paralelo imune às ações das autoridades, diz o procurador Márcio Christino

Os três médicos assassinados no Rio de Janeiro nesta semana e a onda de violência que atinge a Bahia são apenas sintomas de um problema muito maior, afirma Marcio Sergio Christino, procurador de Justiça Criminal do MPSP (Ministério Público de São Paulo) que por mais de uma década foi o responsável pelas investigações sobre o PCC (Primeiro Comando da Capital), maior facção criminosa do país.

Autor do livro Laços de Sangue — A História Secreta do PCC ao lado do jornalista Claudio Tongnolli, Christino avalia que o tráfico de drogas se tornou um Estado paralelo que, "até agora, está imune às ações das autoridades". Para o procurador, a solução seria uma “intervenção de choque”. 

O maior exemplo, diz Christino, é a Cracolândia, em São Paulo. “A Cracolândia deixou de ser um problema de segurança pública e passou a ser um problema social e político. Na minha visão, precisa de uma intervenção, mas existe uma resistência muito grande por parte dos movimentos sociais, por parte de outras instituições, que questionam essa necessidade, e fazem com que a força política se afaste. A questão é quem vai assumir a responsabilidade", diz. Christino acredita que uma solução será tomada, mas apenas quando algo ainda mais grave acontecer. A seguir, veja o que diz o especialista em crime organizado.

As mortes recentes no Rio de Janeiro%2C na Bahia%2C os crimes na Cracolândia%2C em São Paulo não são fenômenos isolados

(Marcio Christino)

R7 Entrevista — Qual a relação entre as mortes no Rio de Janeiro com o crime organizado?

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Marcio Christino — O crime organizado no Brasil, que tem em sua raiz o tráfico de drogas, evoluiu e se tornou um Estado criminoso paralelo. Uma coisa que está fugindo da percepção das pessoas é que as mortes recentes no Rio de Janeiro, na Bahia, os crimes na Cracolândia, em São Paulo, não são fenômenos isolados. Eles estão interligados. No caso das mortes dos médicos no Rio, os assassinos não tiveram o menor pudor em ir a um dos lugares mais conhecidos do Rio de Janeiro, supostamente policiado, e matar aquelas pessoas. Quando não existe Estado, os bandidos acreditam que estão seguros. A mesma coisa acontece em outros lugares, como a Bahia, onde você tem vários mortos. Lá existe um núcleo criminoso que consegue se opor ao Estado. Mas, como nós temos um território muito grande no Brasil, essas coisas são vistas isoladamente. 

Qual a diferença entre o crime organizado e um Estado criminoso?

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Vou usar como exemplo o Rio de Janeiro, porque lá isso se manifesta de forma mais intensa. Quando o crime vai para dentro dos morros, ele encontra uma situação privilegiada passa a controlar tudo dentro da comunidade. O crime controla os Correios, o [fornecimento de] gás, de energia. Até as construções. Recentemente, nós tivemos desabamentos de prédios no Rio e se descobriu que quem autorizava as obras eram as milícias. Quando isso acontece, a milícia substitui o Estado e se torna um governo paralelo, com regras próprias, inclusive um 'tribunal do crime', que executou os supostos assassinos dos médicos no Rio de Janeiro. Ao que tudo indica, aquelas pessoas foram mortas por engano, pois teriam sido confundidas por milicianos. Aí Esse governo criminoso falou: 'Olha, você errou, você tem que morrer'. Aí ele vai lá e pune aquelas pessoas. Mas punir criminosos é papel do Estado. O crime chegou a tal pontos que tomou esse papel do Estado.

Os dependentes não vão sair da Cracolândia sem que o governo faça uma intervenção

(Marcio Christino)

Como é isso em São Paulo?

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Cada lugar tem uma situação. Em São Paulo, tem a Cracolândia, que é um sintoma desse Estado paralelo que nasce no tráfico de drogas. Existe há anos e o Estado não consegue resolver. Quando digo Estado não é o governo estadual, é o Estado como um todo, incluindo a prefeitura e o governo federal. 

Vários prefeitos e governadores tentaram agir contra a Cracolândia. Por que nunca deu certo?

Porque a Cracolândia deixou de ser um problema de segurança pública e passou a ser um problema social e político. Veja a condição das pessoas que estão lá. Essas pessoas precisam ser acolhidas, elas estão precisando de cuidado imediato, precisando de tratamento. Agora, não adianta deixar elas lá consumindo cocaína e esperar que essas pessoas saiam de lá por boa vontade. Os traficantes estão lá exercendo sua influência, então os dependentes não vão sair de lá sem que o governo faça uma intervenção. Mas existe uma resistência muito grande por parte dos movimentos sociais, por parte de outras instituições, que questionam essa necessidade de intervenção, e fazem com que a força política se afaste, porque ninguém quer correr o risco político.

Cracolândia surgiu na década de 1990; problema só será solucionado com por vontade dos governantes
Cracolândia surgiu na década de 1990; problema só será solucionado com por vontade dos governantes Cracolândia surgiu na década de 1990; problema só será solucionado com por vontade dos governantes

Mas já se tentou isso antes e os dependentes químicos voltaram a se reagrupar em outros lugares.

Eu acho que, nesses casos, o erro não foi ter espalhado [a Cracolândia], o erro foi não continuar espalhando, até que aquilo se diluísse. Se tivesse continuado, aquilo iria se fragmentar até que não restasse nada. Na minha visão, precisa de uma intervenção de choque para ocupar aquele espaço de maneira permanente e impedir que haja o reagrupamento. A rigor, o Estado tem que empregar forças, só que o custo político e o custo social é muito grande. A questão é quem vai assumir a responsabilidade e executar esse tipo de medida.

Ainda mais que as eleições municipais estão chegando. Se uma intervenção na Cracolândia der errado, o resultado se volta contra o candidato.

Sim, mas uma hora esse enfrentamento vai ter que acontecer. Nós vamos ter que esperar até a situação chegar a um nível crítico em que a saída seja forçada. E aí sabe o que nós vamos ver? Nós vamos ver algum homicídio, alguma questão dramática, e toda a discussão sobre a Cracolândia vai ser refeita. Enquanto isso, a Cracolândia fica pior a cada dia.

As políticas prisionais só vão surtir efeito depois de cinco anos%2C quando o preso sair da cadeia. E precisamos de uma resposta agora

Por que é tão difícil enfrentar esse Estado paralelo?

Porque os crimes são tratados isoladamente. As mortes no Rio e a violência na Bahia, por exemplo, são crimes que precisam ser investigados e esclarecidos. Só que esses são só os sintomas de uma doença maior. Você trata o sintoma com um paliativo, mas a causa, que é o tráfico de drogas, continua. Tem que levar em consideração que, hoje, existe uma estrutura profissional, com organograma e poder centralizado. O PCC é a maior organização criminosa do Brasil e a que mais cresce no mundo. A facção controla todo o tráfico no Brasil, com exceção do Rio de Janeiro e da região norte, onde o Comando Vermelho atua.

É possível enfrentar essas organizações criminosas?

O Brasil tem que tomar uma decisão com relação ao tráfico e repensar como vai agir para recuperar a soberania nos locais onde, hoje, ele foi expulso ou, pelo menos, afastado. Estamos vivendo um momento crítico. Eu vejo essas políticas sociais, políticas prisionais, essas podem funcionar, mas a longuíssimo prazo. Por exemplo, as políticas prisionais. Olha, existe uma lenda há muito tempo dizendo que, quando a pessoa cai no sistema prisional, ela acaba sendo influenciada pelas facções. Isso acontecia em um tempo em que o crime era romantizado. Hoje, ninguém é traficante sem autorização do PCC ou do Comando Vermelho. Se você, como indivíduo, tentar traficar, você vai ser morto. O cara que chega na prisão hoje já tem ligação com o crime organizado. O que precisa fazer é cortar o laço com a organização. É falar para o detento: 'Olha, essa ligação que você tem, se você continuar com ela, só vai piorar para você. Vai acabar mal, porque bandido não vive muito." Mas não é uma coisa que vai resolver agora, vai surtir efeito só depois de cinco anos, quando o cara sair da cadeia. Não sou contra essas políticas, só que essas medidas só vão funcionar a longuíssimo prazo. E nós precisamos de uma resposta hoje.

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Qual seria essa resposta?

A meu ver, uma terapia de choque, uma coisa imediata, uma resposta forte do Estado. Tem que admitir que existe um Estado criminoso paralelo funcionando e que ele, até agora, está imune às medidas que foram adotadas para combatê-lo. Algumas coisas poderiam ser pensadas. Neste momento, é inegável que precisamos de uma força de segurança nacional profissionalizada. O governo federal não tem uma ferramenta de intervenção realmente forte e com os recursos necessários para dar uma resposta rápida. Hoje, você tem as políciais estaduais, que não estão dando conta do crime, e a Polícia Federal, que tem outra função.

E precisamos também repensar a legislação. A questão do crime organizado hoje só tem um fundamento, que é o tráfico de drogas. Tudo depende do tráfico de drogas e gira em torno do tráfico. Tudo. Então é o caso de rever essas leis. Se isso não acontecer, essas facções vão continar chamando a atenção com incidentes pontuais, como a morte dos médicos, as mortes na Bahia, a Cracolândia... Os crimes vão ser investigados, os culpados vão ser presos e vão ser condenados. Mas o conjunto da obra permanece. Até que esse entendimento seja predominante, eu não vejo solução.

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