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Em novo disco, Nasi passeia por vários ritmos e detona músicas para TikTok: 'Não estou nem aí!'

Álbum do vocalista do Ira! reúne canções de compositores importantes como Zé Rodrix, Tim Maia e Martinho da Vila

Entrevista|Odair Braz Junior, do R7

Nasi chega a seu nono disco solo com RockSoulBlues
Nasi chega a seu nono disco solo com RockSoulBlues Nasi chega a seu nono disco solo com RockSoulBlues (Divulgação/Ana Karina Zaratin)

O Ira! tem muita sorte de ter Nasi como um de seus integrantes. Um músico inquieto, fuçador, com influências diversas que, ao lado do guitarrista Edgard Scandurra, torna a banda um dos grandes nomes do rock brasileiro. Só que o cantor não guarda tudo o que tem de legal só para o Ira! e, frequentemente, lança trabalhos solo para mergulhar fundo em ritmos que ama, como o blues, rock’n’roll, country e o que mais vier pela frente. E Nasi abre agora seu leque musical com um novo álbum individual — o nono de sua carreira —, o RockSoulBlues, que já está nas plataformas digitais e que, em breve, sairá também em vinil.

Todo mundo sabe que o cantor é fissurado por blues, ritmo que adora desde a adolescência. Já lançou alguns álbuns onde explorou a fundo o som característico da população negra do sul dos Estados Unidos. Mas agora, com este disco, a coisa é um pouco diferente. E o nome — RockSoulBlues — entrega os ritmos pelos quais Nasi passeia, já deixando claro que os fãs não vão ouvir apenas o velho e bom blues, mas também rock, country, eletrônica e até um tantinho de samba.

Neste disco, o vocalista do Ira! resgata canções não muito conhecidas de compositores brasileiros importantes como Martinho da Vila, Zé Rodrix, Tim Maia, entre outros. Tem ainda Blues do Gato Preto, única composta pelo próprio cantor e ainda recebe a blueswoman Nanda Moura para uma participação. No processo de gravação, Nasi dá atenção especial a cada uma das faixas, gravando-as com feras em seus ritmos. O resultado é um álbum com sons variados, mas muito orgânico e com momentos muito inspirados.

O R7 conversou com Nasi, que faz nesta quinta-feira (4), no Sesc 14 Bis, show de lançamento de RockSoulBlues. E ele explicou tudo sobre o disco, suas influências, a escolha do repertório e por que não está nem aí para o TikTok. Acompanhe:

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R7: Este disco não é só de blues, mas também passeia muito pelo universo que cerca este gênero. Queria que você falasse dessa sua ligação com o blues tradicional, das antigas. Quando é que isso começou?

Cara, eu comecei ouvindo blues muito cedo, na adolescência. Apesar de já ser roqueiro e apaixonado pelo som punk e ter montado uma banda como o Ira!, muito influenciada pelo punk inglês da época. Eu já ouvia blues a partir de um guitarrista chamado Johnny Winter. Era um guitarrista albino. Ele fazia uma ligação muito legal entre o blues e o rock. E a partir dele fui descobrir os mestres do blues. Isso ainda no final da minha adolescência. Ele produziu o último disco do Muddy Waters, que se chama Hard Again (de 1977). Aí, fui atrás do Howlin' Wolf, Screamin' Jay Hawkins, B.B. King, Albert King... mas só como curtidor nessa época.

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R7: E quando é que você passa a trabalhar com blues?

No início da década de 90 eu fiz uma pequena excursão com o Ira! pelos Estados Unidos e fui a um pub onde uns caras estavam tocando blues. Eu me apaixonei. Falei ‘cara, eu quero fazer isso’. E aí eu voltei pra São Paulo e o antigo Aeroanta [famosa casa noturna paulistana] promovia nas noites de segunda-feira o AeroJam. Aí tinham bandas cover tocando, jam sessions e eu fiz uma jam de blues. E como eu estava chamando amigos para tocar junto comigo, dei o nome de Nasi e os Irmãos do Blues. Um pouco é referência ao John Belushi no filme Os Irmãos Cara-de-Pau (de 1980), mas mais no sentido de que eram os meus amigos e meus irmãos que tocavam blues comigo. E isso fez um certo sucesso na época, nos pubs e tal, e veio a proposta do [produtor musical] Pena Schmidt, que foi meu produtor na Warner com o Ira! e que depois abriu um selo chamado Tinitus.

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A capa do novo disco solo de Nasi, que também terá versão em vinil
A capa do novo disco solo de Nasi, que também terá versão em vinil A capa do novo disco solo de Nasi, que também terá versão em vinil (Divulgação)

R7: E com o Pena Schmidt sai o seu primeiro disco solo?

Sim, aí eu gravo os meus primeiros discos de blues. E aí a coisa foi. Participei praticamente de todos os festivais internacionais de blues, abri para artistas gringos.

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R7: E aí não parou mais com o blues, certo?

É. Hoje, por exemplo, já estou no terceiro ano do meu programa de blues na rádio Kiss FM... então, é algo que para mim é uma paixão que não morre.

R7: Depois dos trabalhos iniciais do Nasi e os Irmãos do Blues você deu uma mudadinha na rota. Por quê?

Depois de um tempo eu abandonei essa grife, Nasi e Os Irmãos do Blues, porque resolvi colocar outros elementos. Eu me sentia satisfeito com os três discos puristas de blues que fiz. As pessoas têm de entender que Nasi e os Irmãos do Blues é minha carreira solo. Este é o nome da banda que me acompanhava. Aí, depois de 2006, eu começo a assinar apenas Nasi, porque não queria ficar limitado. Achei que já tinha explorado todas as vertentes do blues nos meus três primeiros álbuns. Então, hoje, na minha carreira solo, o blues vai sempre estar nos meus discos, mas não somente o blues.

R7: Então, contando os discos do Nasi e os Irmãos do Blues, você já tem quantos trabalhos solo?

Cara, este que está saindo agora é o meu nono disco solo.

R7: Já é um bom número, né?

É... daqui a pouco eu passo o Ira! [risos].

R7: Neste novo álbum você grava canções de vários compositores importantes, como Martinho da Vila, Zé Rodrix, Erasmo Carlos. Como foi escolher este repertório e por que estas músicas especificamente?

Algumas músicas fazem parte da minha memória afetiva, são coisas que sempre ouvi. Por exemplo, O Caveira, do Martinho da Vila. Eu adoro, eu gosto de samba, só não vou me atrever a cantar samba. Tem que ser alguma coisa que seja plausível na minha voz. O Zé Rodrix é um compositor que sempre vou visitar. Ele era meu amigo. Talvez ele seja o compositor que eu mais gravei. Fui buscar esta — Devolve Meus LPs — no disco dele Quando Será? (de 1977). Essa, na verdade, eu não conhecia. Fui atrás de coisas do Zé Rodrix, porque eu sempre gosto de gravar ele.

R7: E esta música é legal porque tem um certo humor, né?

Sim, sim. Ele era muito bom. O Tim Maia é outro cara que eu adoro. Não parece, mas O que Você Quer Apostar? já é a terceira música do Tim que eu gravo. No primeiro disco do Nasi e os Irmãos do Blues eu gravei Sofre. Depois, com o Ira!, gravei O Que Me Importa — no álbum Isso É Amor — e agora vim com esta música que sempre ouvi e que cantava junto com o disco.

Johnny Cash é meu herói, cara! Me inspiro nele até como cantor.

(Nasi)

R7: E o Erasmo?

O Erasmo, cara... essa música, Não Te Quero Santa, nem é do Erasmo. É do Vitor Martins junto com o letrista Sergio Fayne. Mas ela é de um disco do Erasmo que eu queria gravar todas as músicas. Esta já é a terceira canção deste álbum que eu gravo, que é o Carlos, Erasmo. Não Te Quero Santa eu acho muito legal a letra, é muito atual. Tem essa coisa de apoiar o empoderamento feminino e também fala da hipocrisia que existe na sociedade em relação à mulher.

R7: No que este disco é diferente dos seus anteriores?

Ele é diferente porque não é um disco de band leader. Não sou eu com uma banda fixa me acompanhando, porque esse formato também é limitador. Eu fui faixa a faixa. É um disco mais de intérprete. Cada faixa, para mergulhar num universo musical, eu fui procurar especialistas. Quando fiz a versão de O Caveira em country, fui procurar o engenheiro de som e produtor que é o Jeff Berg, que tem uma banda de country tradicional. Foi para mergulhar num som raiz mesmo! Quando fui fazer uma coisa que queria com mais eletrônica e elementos de hip hop, como na versão de Rollin’ and Tumblin’, fui procurar o Apollo 9, que é muito ligado à eletrônica, e chamei também o DJ Hum. As coisas que eu queria o arranjo mais próximo do original, fui gravar com o Marcelo Sussekind. E assim foi.

R7: Você regravou também Dias de Luta neste álbum, um clássico do Ira!.

Sim, pensei em Dias de Luta quando fui fazer a versão de uma música do Ira! em blues. Pensei nela porque é uma canção em tom menor e também tem uma letra, na minha opinião, meio melancólica. E aí procurei o guitarrista Igor Prado, que já tinha gravado comigo em outros discos, que tem um projeto que mistura blues e soul music. Então, é um disco onde eu mergulho com especialistas em cada gênero musical que é para ser o mais original possível.

R7: E como foi transformar um samba em country, como no caso de O Caveira? Você se sentiu meio desafiado, ficou com receio?

Originalmente pensei em transformar O Caveira num blues, tá? Mas aí, fazendo os testes, vi que não tava legal. Tava meio forçado. E aí conversei com meus colegas, meus parceiros e o Johnny Boy (baixista do Ira!) me chamou a atenção para o fato de que a divisão rítmica do samba, por incrível que pareça, é bem próxima da divisão rítmica do country. Eu nunca tinha pensado nisso. E aí, fomos para este universo. Me senti desafiado porque achei que talvez pudesse receber algumas críticas por pegar um samba tão clássico de um sambista tão politizado como o Martinho da Vila e transformá-lo num gênero branco como o country... fiquei meio assim ‘porra, será?’. Mas fui em frente porque acho que artista tem que fazer isso. Não tem que entrar nessa vibe do politicamente correto. É uma outra versão! Eu vou conseguir levar essa música para pessoas que não ouvem samba. E, se gostarem, vão querer conhecer a versão do Martinho da Vila. Então, pra mim, foi um desafio.

R7: E você chegou a mostrar a sua versão para o Martinho?

[risos] Não tive a oportunidade, cara. Eu passei a seguir ele... mas essa é uma boa ideia. Acho que chegou a hora de eu passar uma mensagem pra ele.

R7: Nesse disco, além de artistas de blues, você também grava material de artistas americanos de country & western. Você gosta deste gênero, acompanha?

Adoro, cara! Johnny Cash é meu ídolo. Willie Nelson... mas eu gosto mesmo é do Johnny Cash. Tenho o máximo de coisas dele. Ele é meu herói, cara! Me inspiro nele até como cantor. E eu já tinha gravado algumas coisas em discos solo passados que beiravam o country. Teve a música Perigoso (do álbum de mesmo nome, de 2012). Desequilíbrio (do disco Vivo na Cena, de 2010) é também uma espécie de country & western.

Nasi faz show de lançamento de seu disco nesta quinta (4), em SP
Nasi faz show de lançamento de seu disco nesta quinta (4), em SP Nasi faz show de lançamento de seu disco nesta quinta (4), em SP (DIVULGAÇÃO/ANA KARINA ZARATIN)

R7: E Elvis, que também está nesse cenário do blues e do country & western. Você gosta dele, gravaria algo que ele gravou?

Olha, pode ser sim, viu. Eu acho que o Elvis foi meio injustiçado. Pelo menos no filme, a cinebiografia dele que saiu recentemente, a gente vê a intimidade que ele tinha com os músicos de blues. Ele era amigo do B.B. King. E, na verdade, o rock’n’rol foi uma mistura do rhythm and blues dançante com a country music. E o Elvis é muito maneiro, eu adoro o Elvis, cara! A fase dele soul, a fase mais country e rock’n’roll... eu gravaria, sim. Não sei se seria fácil conseguir a autorização para gravar, porque o Elvis é o Elvis [risos].

R7: Este seu novo disco é composto quase todo por versões de outros artistas. Queria saber se você tem composições próprias voltadas para o blues e se você pretende soltar um álbum autoral com canções deste gênero.

Eu, como intérprete, tão importante quanto escrever uma música é escutar uma música e falar ‘quero dizer isso’. Não fico preso a estas amarras de ser autor. Porque a interpretação também dá a autoria ao intérprete.

E esse disco fala muito sobre amor, né?

Sim, isso é intencional. Não é 100% sobre amor, mas foi tudo muito intencional. Eu queria falar sobre várias formas de amor. Um amor mais decepcionado, um amor mais selvagem, um amor mais brincalhão... não é necessariamente um disco romântico, mas é um disco que fala sobre amor.

Você está lançando um álbum inteiro, formato que muita gente diz que está em desuso, que ninguém mais ouve. Você acredita ainda na força de um disco?

Eu gosto, cara. Uns dois anos atrás até lancei um single, mas posso falar em meu nome e no nome do Edgard [Scandurra] e de outras figuras da minha geração: a gente cresceu tendo tesão no formato álbum, ou seja, músicas que conversam entre si, Lado A e Lado B. E eu gosto de fazer assim, não gosto de lançar uma coisa solta. Gosto de ter um conceito. Por exemplo, esse disco vai sair em vinil também e terá uns extras.

R7: E como você vê a "tiktokzação" da música?

Cara, as pessoas falam que hoje tem que ser música pra TikTok, música de um minuto. Meu, eu tô me lixando pra isso, cara! [risos] Eu faço disco, basicamente, pra mim. Primeiramente pra mim, pra manter minha sanidade e me sentir um artista produtivo. Pra não ficar deitado sobre os louros do sucesso do passado. O disco tem que me agradar. Como eu sei que tem muita gente que me segue e que gosta do meu gosto musical, que são os fãs, sei que se eu agradar a minha pessoa, vou agradar outras pessoas também. Eu não quero fazer coisas no formato TikTok... imagina! Nesse disco tem música com quase cinco minutos! É completamente fora de moda, entendeu? F***-se, cara! Não tô nem aí! [risos]

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