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R7 Entrevista
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Susano Correia: "é honroso ajudar a atrair gente de todas as classes ao mundo elitizado das artes plásticas"

Conheça o artista plástico que ficou popular nas redes sociais ao combinar suas pinturas, esculturas, gravuras, desenhos e estampas com mensagens de cunho existencial rápidas e originais em frases

Entrevista|Eduardo Marini, do R7

Imagens das obras de Susano Correia são compartilhadas em massa na internet
Imagens das obras de Susano Correia são compartilhadas em massa na internet Imagens das obras de Susano Correia são compartilhadas em massa na internet

O catarinense Susano Correia tem conquistas na carreira dignas de serem consideradas feitos no mundinho elitizado das artes plásticas brasileiras. Nascido e criado em Florianópolis, 34 anos, o artista tem mais um milhão de seguidores somados nas redes sociais. Sua mais recente exposição, À Melancolia, em São Paulo, onde vive atualmente, atraiu mais de 15 mil pessoas, boa parte na primeira visita da vida a uma galeria de arte. Uma façanha nesta atividade.

Admirador do filósofo nascido na Prússia (atual Alemanha) Friedrich Nietzsche, do escritor russo Fiódor Dostoiévski, do educador brasileiro Paulo Freire, do perfeccionismo do cantor João Gilberto e do som dos Novos Baianos, Susano Correia é, hoje, um dos pouquíssimos artistas plásticos do país com trabalhos compartilhados e exibidos em massa, grande quantidade, nas redes sociais e na internet. Além de repassar as imagens, seus fãs as estampam em livros, cadernos, paredes, camisas, roupas, tecidos e qualquer outro espaço possível e imaginável. Muito desse sucesso nas redes se deve a uma técnica que mistura a beleza plástica e estética de seus trabalhos – pinturas originais a óleo, esculturas, gravuras, desenhos, prints e estampas – com mensagens de texto curtas, rápidas e originais, de cunho existencial.

“As frases criam outra camada de interpretação além do contemplado na peça de artes plásticas, e isso atrai as pessoas”, resume ele. “O mais bacana é quando alguém repassa um trabalho incluindo textos próprios”, acrescenta. Essa linguagem contemporânea atrai muitos estreantes no consumo de artes plásticas para seu rebanho de admiradores.

Nesta conversa com R7 ENTREVISTA, Susano Correia explica como atua na internet, fala sobre a montagem de dois ateliês em São Paulo e anuncia sua entrada no universo dos Tokens não-fungíveis, os NFTs, na sigla em inglês de non-fungible tokens.

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NFT é um símbolo eletrônico, um atestado de autenticidade desenvolvido em uma plataforma blockchain, para representar e garantir, no plano digital, a originalidade de alguma coisa única, exclusiva, singular. Pode ser uma obra de arte, um objeto raro, um bem de coleção e até mesmo um imóvel virtual, como um vendido recentemente por US$ 2 milhões, ou cerca de R$10,43 milhões, numa dessas plataformas.

Um bem fungível pode ser trocado por outro do mesmo tipo, quantidade e qualidade. Bons exemplos são as notas e moedas. Um bem não-fungível é singular, exclusivo, único, e, por isso, não pode trocado ou confundido com outro. Peças originais de obras de arte entram neste caso. Feita a explicação, foi uma pintura de papo. Acompanhe:

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Somados os seguidores do Instagram, Facebook, YouTube e Twitter, o total passa de um milhão. Para um artista plástico que trabalha com escultura, gravura e pintura a óleo no Brasil, é uma façanha.

Susano Correia – Pois é, um orgulho supremo. No caso dos artistas plásticos, a quase totalidade com um bom número de seguidores nas redes sociais é composta de músicos, cantores e atores. No meu grupo, os únicos que conseguem grandes públicos na internet são os da turma da street art, a arte de rua, como Eduardo Kobra e OsgemeOS. Para os que trabalham com pintura a óleo, desenho e escultura, como eu, é realmente difícil por aqui. Por isso valorizo tanto esses seguidores em meus canais. Convido todos a me buscarem nessas redes sociais e também na minha página, susanocorreia.com.br, que abriga uma galeria com meus quadros, esculturas, pinturas originais, gravuras em metal, xilogravuras, prints e outros trabalhos, além dos dois livros que publiquei, com os caminhos para quem quiser adquirir algo.

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Trabalhos combinam rigor estético e humor refinado
Trabalhos combinam rigor estético e humor refinado Trabalhos combinam rigor estético e humor refinado

Qual é a faixa de preço de seus trabalhos?

Há desde conjunto de seis prints a R$ 40 até pinturas a óleo originais, peças únicas, quase sempre grandes, entre R$ 40 mil e R$ 60 mil, passando por lotes de gravuras e esculturas a partir de R$ 800. Os livros de arte estão por R$ 108.

As pessoas colocam as imagens e desenhos em camisas%2C cadernos%2C livros%2C espaços da casa%2C em todos imagináveis. Há coisas curiosas. O primeiro trabalho da série%2C Cante Para Mim%2C que mostra um homem numa cadeira de rodas com um pássaro engaiolado%2C é também um dos mais compartilhados. Isso me despertou para o fato de que grande parte do meu público gosta dos trabalhos mesmo quando não se identifica com a personagem

(SUSANO CORREIA)

Fale pouco sobre sua trajetória.

Tenho 34 anos. Nasci e fui criado em Florianópolis. Aprendi a desenhar muito cedo. O desenho foi, para mim, uma plataforma de relacionamento desde criança. Trocava de colégio, de ambiente, e o desenho sempre me ajudando a conviver com as pessoas. Em em meados da década de 2010, aos 16 anos, consegui meu primeiro emprego, como ilustrador, em um jornal. Depois, passei por editoras e entrei na universidade para fazer licenciatura em Artes Visuais. Acredito, desde o surgimento, na força das redes sociais, que são democráticas e dão acesso a gente de todas as classes sociais, econômicas e culturais, algo fundamental no caso das artes plásticas, algo historicamente tratado de forma elitizada no Brasil. Meu trabalho de conclusão de curso destaca esse ponto e também a ideia de acrescentar uma frase ou ideia nos trabalhos. Essa combinação de imagem e texto, estética e ideia, trouxe uma outra camada de interpretação e foi decisiva para ampliar meu público nas redes. Sempre apostei na força do meme, de uma coisa crescer e viralizar por conta própria. E o meme, na internet, é formado por imagem e palavra, além do som. Então a combinação de ideia e estética certamente contribuiu para o aumento do interesse do público nas redes sociais.

As pessoas devem mesmo gostar muito de seus trabalhos, porque você hoje é um dos poucos artistas plásticos com obras compartilhados em grande quantidade, no Brasil, pelas redes sociais e a internet.

Felizmente tudo indica que sim. As pessoas colocam em camisas, cadernos, livros, espaços da casa, em todos imagináveis, até no corpo. Há coisas curiosas. O primeiro trabalho da série, Cante Para Mim, que mostra um homem numa cadeira de rodas com um pássaro engaiolado, é também um dos mais compartilhados. Isso me despertou para o fato de que grande parte do meu público gosta dos trabalhos mesmo quando não se identifica com a personagem.

Você disse que a psicanálise o ajudou muito. Como?

Em 2015, comecei também a fazer psicanálise. Fui para o divã. A análise me ajudou muito a aumentar o repertório, o que foi fundamental para colocar as ideias em palavras nos mais de cem trabalhos que fiz para a série. Essa combinação da imagem artística com palavras é o que faço até hoje. Esse conjunto, acredito, produz nas pessoas um efeito terapêutico. Muita gente não consegue dizer tudo o que sente e se identifica com a imagem e a mensagem. Vários compartilham os trabalhos incluindo textos próprios. Isso é a minha maior recompensa e principal motivação.

Como foi seu caminho na internet?

Na primeira fase da explosão das redes sociais criei um blog e uma página no Facebook. No início, eram apenas desenhos feitos em papel com uma lapiseira. Levava esse material para todos os lugares, como se fosse um ateliê portátil. Desenhava no carro, nos intervalos do trabalho na editora, em todos os lugares quando havia tempo. Postava nas redes e depois, em casa, normalmente à noite, aprimorava essas ideias. Em seguida rumei para o Instagram, o Twitter e YouTube, incorporei tinta a óleo e outros materiais aos trabalhos, e aí percebi que o tamanho e o interesse do público aumentaram sensivelmente, em alguns casos se multiplicaram. Mas sempre combinando pintura, escultura e os outros trabalhos de artes plásticas com uma ideia em palavras.

E os livros que você lançou com seus trabalhos?

O primeiro, Notas Visuais, publicado em 2017 graças a um financiamento coletivo pela internet, me deu autonomia, porque vendi muitos exemplares e ela ajudou a impulsionar a procura pelas obras, permitindo-me deixar empregos e viver exclusivamente do meu processo autoral. Em 2018 lancei o segundo, Face a Face com o Abismo, a rigor uma continuação do primeiro.

Questões existenciais são marcas comuns em todas as obras do artista plástico
Questões existenciais são marcas comuns em todas as obras do artista plástico Questões existenciais são marcas comuns em todas as obras do artista plástico

Em 2019 você criou outro financiamento coletivo para montar um ateliê na Rua Augusta, em São Paulo, quase na esquina com Avenida Paulista, na região central de São Paulo…

Isso. Trabalhava, exibia meus trabalhos e morava neste ateliê. Paulistanos, paulistas e pessoas de vários pontos do país, que gostam do meu trabalho, muitas delas colaboradoras dos dois financiamentos coletivos até então, visitavam-me, compravam meus livros, prints e desenhos originais, e de noite eu adaptava parte do espaço para dormir. Era muito agradável. E o que eu queria: encontrar com o público, e não só ter contato pela internet, e morar em São Paulo, o maior polo cultural da América do Sul. De la para cá muitas coisas aconteceram. Lancei um novo livro, Diário de Um Pintor, em 2020, também por financiamento coletivo, e veio a pandemia. Pensei: ferrou, né? Como vou continuar a vender livros e trabalhos se as pessoas deixarão de vir ao ateliê me visitar por causa do isolamento? Como irei me sustentar? Terei que voltar para Santa Catarina? Fiquei isolado.

Em 2022%2C com novos artistas parceiros e marchand%2C fiz a exposição À Melancolia%2C muito bem recebida%2C na galeria Objecto do Olhar%2C na Rua Augusta%2C em São Paulo. Foi muito bacana%2C no espírito que eu queria%3A uma galeria pé na calçada%2C sem constrangimentos pomposos. Tivemos 15 mil visitantes%2C de vários cantos do país%2C muita coisa para uma exposição de artes plásticas. Atraímos críticos%2C amantes de arte%2C artistas%2C como o ator Mateus Solano%2C e muita gente que não tem por costume ir a exposições e outros que jamais tinham visitado uma galeria

(SUSANO CORREIA)

E aí?

Para minha surpresa, as pessoas que frequentavam o ateliê mergulharam na internet e se somaram ao público razoável que eu já tinha nas redes sociais. Felizmente, para minha salvação, continuaram a comprar meus livros e trabalhos pela internet e a compartilhar meu trabalho com intensidade muito maior do que antes. Esgotei meus estoques, mudei para um apartamento maior e mais barato, no Morumbi, na Zona Sul de São Paulo, mesmo porque morar na Avenida Augusta e não poder sair de casa é claustrofóbico, não faz sentido. Em 2021, com outro projeto de financiamento, reeditei meus dois primeiros livros e o trabalho de conclusão de curso. E em 2022, com novos artistas parceiros e marchand, fiz a exposição À Melancolia, muito bem recebida, na galeria Objecto do Olhar, na Rua Augusta, em São Paulo. Foi muito bacana, no espírito que eu queria: uma galeria pé na calçada, sem constrangimentos pomposos. Tivemos 15 mil visitantes, de vários cantos do país, muita coisa para uma exposição de artes plásticas. Atraímos críticos, amantes de arte, artistas, como o ator Mateus Solano, e muita gente que não tem por costume ir a exposições e outros que jamais tinham visitado uma galeria. Um orgulho, e a boa recepção dos meus trabalhos nas redes sociais foi decisiva para isso.

Você vai fazer NFT com seus trabalhos na internet?

Recebi muitos convites para entrar no universo das NFTs e elas fazem todo sentido no meu trabalho, eu que venho da internet. É vender uma imagem original, só que digital. A gente coloca a obra em uma plataforma, que gera um token e o trabalho vai valorizando, é vendido e revendido como peça única, exclusiva, singular, original. É uma coisa relacionada ao mundo das criptomoedas. Acabamos de colocar nosso primeiro trabalho, uma peça única. Lançaremos uma por mês em NFT. O próximo trabalho será um lote de gravura com 20 unidades, e apenas 20 pessoas poderão comprar.

Boa sorte e muito obrigado.

O agradecimento é todo meu.

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