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Como fraudadores sofisticados tentaram roubar Graceland, a casa de Elvis

Golpistas misteriosos afirmaram que emprestaram dinheiro para falecida filha do astro com o imóvel como garantia

Internacional|Matt Stevens, do The New York Times

Golpistas tentaram arrematar a casa de Elvis com um esquema envolvendo execução hipotecária e brechas judiciais (ROLLIN RIGGS/Rollin Riggs/The New York Times)

Em uma mensagem enviada por email, o remetente se declarava um ladrão de identidade, um líder dentro da dark web, com uma rede espalhada pelos Estados Unidos repleta de “worms” (um tipo de software mal-intencionado).

Em e-mail ao “The New York Times”, disse que sua rede ataca os mortos, os desavisados e os idosos, especialmente os da Flórida e os da Califórnia, usando certidões de nascimento e outros documentos para descobrir informações pessoais para montar seus estratagemas. “Descobrimos como roubar e isso é o que fazemos”, revelou.

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Recentemente, sugeriu no e-mail, seu grupo deu atenção a um alvo importante: o espólio de Lisa Marie Presley (única filha do cantor Elvis Presley, falecida em 13 de julho de 2023, aos 54 anos). Na semana passada, a ameaça de que Graceland, a famosa casa de Elvis, estava prestes a ser executada e vendida por uma empresa misteriosa de empréstimos privados, a Naussany Investments & Private Lending, sacudiu o noticiário.

Os meios de comunicação recebem frequentemente e-mails não solicitados de pessoas que fazem afirmações bizarras. Mas esse chegou na sexta-feira em resposta a uma mensagem enviada pelo “Times” a um endereço de e-mail que a Naussany listou no processo legal aberto em um tribunal do Tennessee, justamente o que analisa o caso da execução hipotecária.

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O e-mail que o “Times” enviara se referia à alegação de que a filha de Presley tinha tomado emprestados US$ 3,8 milhões da empresa, oferecendo Graceland como garantia. Nas respostas, que vieram do endereço de e-mail para o qual o “Times” havia escrito, a pessoa descreveu a execução hipotecária como uma fraude e não como uma tentativa legítima de cobrar uma dívida.

“Eu me diverti fazendo isso, mas não deu muito certo”, disse o redator do e-mail. Depois, confessou que sua base estava na Nigéria e que seu e-mail fora escrito em luganda, língua bantu falada em Uganda. Mas o arquivo com o endereço de e-mail foi enviado por fax de um número gratuito direcionado para atender a América do Norte; o número constava em documentos enviados ao Tribunal da Chancelaria no Condado de Shelby, no Tennessee, onde o caso de execução hipotecária ainda está pendente.

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Desde que surgiu a notícia, na semana passada, de que uma companhia estava tentando vender Graceland – a antiga casa de Elvis, atração turística adorada em Memphis –, a Naussany tem se mostrado um enigma persistente. É difícil encontrar registros públicos que comprovem a existência dessa empresa. Os números de telefone que ela apresentou nos documentos judiciais não estão em serviço, e os endereços listados pela empresa pertencem aos correios.

Em setembro, oito meses depois da morte de Lisa Marie Presley, a Naussany Investments apresentou documentos no tribunal de sucessões da Califórnia, postando o que dizia ser a dívida de Presley contraída em 2018. Incluía uma escritura de confiança, com uma assinatura representada como de Presley, que apresentava Graceland como garantia.

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Mas Clint Anderson, vice-administrador do Registro de Ações do Condado de Shelby, disse que seu escritório não tem em arquivo uma escritura de confiança ou qualquer outro documento da Naussany Investments “que legitime a execução hipotecária em favor dessa empresa em qualquer outra propriedade no condado de Shelby”.

Em seu pedido, apresentado em setembro, a Naussany Investments afirmou que concordaria em liquidar o que descreveu como sendo uma dívida por um desconto de US$ 2,85 milhões, que seria pago pelo fundo fiduciário da família Presley. Mas o fundo, agora liderado pela filha de Lisa Marie Presley, a atriz Riley Keough, não acreditava na legitimidade da dívida.

A Naussany Investments publicou um anúncio em resposta no “The Commercial Appeal”, de Memphis, avisando que planejava leiloar Graceland em uma venda hipotecária na semana passada.

Isso levou Keough ao tribunal na mesma semana, onde lutou contra a execução hipotecária, declarando, em um processo judicial, que o empréstimo era uma ficção, que a empresa era “uma entidade falsa” e que o esforço para vender Graceland era uma fraude. As assinaturas de Presley e de um tabelião em alguns dos documentos foram falsificadas, disseram os advogados de Keough.

Em uma audiência, na quarta-feira, o juiz bloqueou qualquer execução hipotecária imediata de Graceland, dizendo que precisava analisar mais provas.

Nenhum representante da empresa Naussany compareceu à audiência. Mas, pouco antes que esta começasse, o tribunal recebeu uma petição de uma pessoa que se identificava como representante da empresa; chamava-se Gregory E. Naussany. O processo contestava as alegações de Keough, pedia tempo para apresentar uma defesa e incluía um endereço de e-mail, gregoryenaussanyniplflorida@hotmail.com, para contato adicional.

Mas, no fim do dia, a Naussany Investments parecia ter desistido. O “The Commercial Appeal” e a Associated Press relataram ter recebido e-mails da empresa retirando suas reivindicações. A Elvis Presley Enterprises, que opera Graceland como atração turística, disse ao “Times” que um advogado que cuida dos fundos da família também recebeu um e-mail de uma pessoa que dizia ser Gregory Naussany, informando que a Naussany Investments não pretendia avançar com a venda.

Os autos do tribunal, no entanto, ainda não listam nenhuma moção da Naussany Investments em que desiste da reclamação.

O advogado de Keough se recusou a fazer comentários para esta matéria na terça-feira.

Golpe bizarro

Trata-se de um caso bizarro, com muitas perguntas sem respostas. É difícil determinar que peso atribuir às comunicações recentes enviadas ao “Times” a partir do endereço de e-mail associado à Naussany Investments. Embora quem o escreveu tenha dito que mora na Nigéria, não é fácil descobrir sua localização.

A língua bantu usada nos dois e-mails enviados ao “Times” é desajeitada em alguns pontos, de acordo com um tradutor que analisou os e-mails, enquanto o inglês dos documentos judiciais que a empresa apresentou é fluente.

A NBC News figura entre os vários meios de comunicação que receberam outros e-mails de pessoas que sugeriram ter ligações com a empresa, mas não parece que essas mensagens expressem algum tipo de má conduta.

A Naussany Investments listou vários endereços de e-mail em seus processos judiciais. Os dois e-mails recebidos pelo “Times” nos últimos dias vieram do endereço associado a Gregory Naussany listado no processo judicial da empresa. Em cada um deles, quem os escreveu se dizia parte de uma sofisticada operação de fraude de identidade que tinha como alvo principalmente americanos, descritos na mensagem como crédulos.

Quando o “Times” pediu mais esclarecimentos sobre questões específicas, o redator respondeu: “Você não precisa entender.” Também não explicitou nenhum motivo para ser tão franco nos e-mails, além de receber o crédito pelo que descreveu como sendo o sucesso da aliança em outros casos. “Sou eu quem cria problemas”, disse ele ao iniciar seu primeiro e-mail na sexta-feira.

Na quinta-feira, o procurador-geral do Tennessee, Jonathan Skrmetti, revelou que seu escritório analisaria a Naussany Investments e investigaria a tentativa de execução hipotecária daquela que é considerada “a casa mais amada do estado”, segundo ele mesmo disse. Na terça-feira, um porta-voz de seu gabinete informou que as autoridades estavam cientes da correspondência enviada ao “Times” e que “continuariam investigando o assunto”.

Na sexta-feira, mesmo antes de os recentes e-mails da empresa terem sido enviados, Darrell Castle, advogado de Memphis que trabalha frequentemente em execuções hipotecárias há mais de 40 anos, classificou toda a situação como “extremamente incomum a ponto de ser inacreditável”.

Mark A. Sunderman, professor imobiliário da Universidade de Memphis, ficou impressionado com a audácia da empresa, mas também observou como o sistema judicial pode ser vulnerável. “Eles escolheram a propriedade errada. Se não se tratasse de uma casa tão importante, poderiam ter escapado impunes”, comentou.

Nesse caso, a pessoa que assumiu o crédito pelo esquema nos e-mails admitiu, em uma mistura de luganda e inglês, que tinha sido enganada. “Seu cliente precisa não preocupar, ganhe pa ela”, escreveu. Em seguida, acrescentou: “Ela me venceu no meu jogo.”

(Musinguzi Blanshe contribuiu para a reportagem, de Kampala, em Uganda; Abdi Latif Dahir, de Nairobi, no Quênia; Ruth Maclean, de Dakar, no Senegal; Jessica Jaglois, de Memphis, no Tennessee; e Aaron Krolik, de Nova York. Kitty Bennett e Kirsten Noyes colaboraram na pesquisa.)

c. 2024 The New York Times Company

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