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Ex-embaixador brasileiro fala sobre controle de lobistas nos Estados Unidos: "Trump considera o governo corrupto"

Equipe quer que lobistas sejam afastados por um prazo de cinco anos

Internacional|Eugenio Goussinsky, do R7

Trump fez outro discurso radical na campanha: contra lobistas
Trump fez outro discurso radical na campanha: contra lobistas Trump fez outro discurso radical na campanha: contra lobistas

Nem muro, nem proibição de imigrantes ilegais. Uma das primeiras medidas que Donald Trump irá tomar assim que assumir a presidência dos Estados Unidos tem como alvo uma atividade legalizada no país: o lobby. Em sua campanha, ele prometeu regulamentar essa função para que, segundo o que disse, interesses privados não se misturem aos do governo.

Nesta quinta-feira (17), o diretor de comunicação da equipe de Trump, Jason Miller, e o porta-voz do Comitê Nacional Republicano, Sean Spicer, segundo a imprensa local, já adiantaram que o estafe presidencial está preparando uma regulamentação, na qual o lobista que se transferir para o governo terá de rescindir seu registro como lobista. E só voltar num prazo mínimo de cinco anos após sair do governo.

Um dos maiores especialistas na política de Washington, o ex-embaixador brasileiro nos Estados Unidos, entre 1999 e 2004, Rubens Barbosa, disse ao R7 que a iniciativa de Trump decorre de sua visão de empresário sobre falta de transparência desta relação (público/privado) em algumas situações governamentais.

— Trump como empresário vê Washington como um governo (em termos gerais) corrupto, que cede à pressão de empresários e sobretudo do setor financeiro. Lá também estarão marcando as atividades de Wall Street (centro de finanças). Então ele está querendo pegar essas pessoas, é uma questão de visão do empresário em relação ao funcionamento do governo. Ele acha que o governo é corrupto, que se vende aos interesses dos grandes grupos, lá chamados de "special interest", que são as grandes companhias e Wall Street. Esse é o objetivo dessa nova legislação.

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O atual presidente, Barack Obama, já vinha tomando iniciativas neste sentido, com a obrigatoriedade de o funcionário governamental ficar pelo menos dois anos longe da atuação como lobista assim que deixar sua função pública. Trump e seu discurso truculento querem "radicalizar" ainda mais, pelo menos na teoria. Mesmo com o lobby sendo legalizado nos Estados Unidos, estabelecendo todos os limites para a prática, inclusive com os lobistas tendo de apresentar relatórios trimestrais, Barbosa considera que, caso a lei realmente seja implementada, será benéfica para a administração.

— Não é ilegal, por isso ele está colocando esse período (cinco anos), está fazendo uma regulamentação do legal. O lobby ficou uma prática abusiva, o sujeito entra no governo, passa a saber de informações, depois vai para empresa de consultoria e chega sabendo mais do que outros (concorrentes). É o chamado "revolving door" (porta giratória). Acho que estabelecer a regulamentação desse prazo é muito salutar, não se pode ficar passando do setor privado para o governo e vice-versa.

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Em seu período como embaixador em Washington, Barbosa conta que era comum ele ser procurado por lobistas. E afirma que os recebia como diplomata, sem no entanto atender aos seus pedidos.

— Claro (éramos procurados). A gente recebia empresas que queriam prestar serviços para o Brasil, queriam receber uma autorização formal para defender interesses brasileiros nos Estados Unidos. Nós nunca aceitamos isso porque a embaixada é paga para isso, justamente para fazer esse trabalho. Eles ofereciam facilitar encontros nossos com o governo, com o Congresso. Era o trabalho diplomático que a gente teria de fazer e o governo brasileiro nunca aceitou essas ofertas.

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Nem almoço

Tendo vivido a rotina de Washington, Barbosa, que atualmente tem uma consultoria de negócios em São Paulo, revela alguns conceitos da administração norte-americana. E dá a entender que, apesar de haver níveis de corrupção entre a iniciativa privada e o governo, estes são em muito menor grau do que no Brasil, onde políticos são presos por receberem pedágios de empresas. Inclusive porque a prática de lobby não é legalizada no País.

— No Brasil, o lobby é um tema muito discutido Congresso, mas que nunca foi aprovado. Nos Estados Unidos o lobista tem uma carteirinha, não pode nem oferecer almoço, até almoço não se pode pagar para congressita, membros do executivo. Tudo o que pode ou não ser feito está especificado. Há uma diferença entre lobby e consultoria, que também tem uma legislação. O lobista até pode entrar em certos locais, como no Congresso e em sedes nos Estados, mas é tudo regulamentado.

O lobby nos Estados Unidos surgiu com força nas décadas de 30 e 40 passadas, quando o potencial industrial do país o colocava na condição de principal potência mundial. Alguns escândalos com a participação de políticos já foram revelados, apesar da rigidez do Lobby Act (lei referente ao lobby), implementado em 1946.

Qual é a origem da fortuna de Trump?

Barbosa conta que o termo surgiu porque os interessados ficavam esperando as autoridades que estavam hospedadas em um lobby de um importante hotel em Washington. E foi lá, além de na Inglaterra, que a prática se expandiu a ponto de movimentar, em 2013, US$ 3,3 bilhões (R$ 11,2 bilhões) no país, segundo a CRP (Center for Responsive Politics). A atividade alcança inúmeros setores, como sindicatos, defensores de armas, países, empresas e organizações filantrópicas.

— Regulamentações como as prometidas por Trump desde a campanha prejudicam empresas que usam pessoas para indiretamente defender seus interesses. Fomentam com isso a renovação de pessoas, a busca por gente competente. Mas não há efeito sobre economia, é basicamente para evitar a corrupção.

Trump com isso, acima de tudo, dá indícios de que quer administrar sem pressão. Justamente ele que, por ironia, com seu discurso inflamado, fez um excelente lobby junto ao eleitorado carente. Bem longe dos luxuosos saguões dos hotéis.

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