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A morte dos inocentes em nossas escolas

Autoridades precisam sair da inoperância e agir de fato contra o grave problema que se instalou nas instituições de ensino

Arquivo Vivo|Por Percival de Souza, da Record TV

Escola Thomázia Monteiro, em São Paulo, sofreu em março ataque de adolescente
Escola Thomázia Monteiro, em São Paulo, sofreu em março ataque de adolescente Escola Thomázia Monteiro, em São Paulo, sofreu em março ataque de adolescente

Os ataques violentos a escolas deixou um saldo de vítimas e um clima de terror assustadores. É mais do que óbvio que providências urgentes precisam ser tomadas. Mas numa avaliação minimamente rigorosa, a nota a ser dada para os responsáveis por isso seria muito baixa. Não fazem a lição de casa. Estão reprovados.

E reprovados porque se discute sobre tudo, e nesse tudo não se inclui o que realmente interessa: a fragilidade até aqui demonstrada. Na prática factual, predomina a inoperância. Nada justifica o sangue derramado.

As questões pedagógicas, indispensáveis, fazem parte do cenário, principalmente porque uma sensação de medo tomou conta de quem precisa ir às escolas e aqueles, geralmente os pais, que as levam. Estão tranquilos os estudantes e os responsáveis?

Você responde. Predomina, como sabemos, um estado de desrespeito às normas e regras, a anomia, situação sociológica que remete à escola questões de origem, familiares inclusive. Quem faz o que não deveria na própria casa, replica o comportamento na escola. O resultado é o que vemos, em proporções que gradativamente vão aumentando. O individual pode ser contaminante e se tornar potencialmente coletivo e e perigoso.

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Como vimos, além das escolas nem uma creche escapou dos ataques selvagens. Inútil buscar, como se faz, sinônimos enternecedores ou que tentativas de justificar.

A violência, em estado bruto, vem a seguir da escala do ódio. Antes de se tornar violento, alguém precisa aprender a odiar. O medo, como consequência, surge depois dos atos praticados e não antes.

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É instigante o fato de o alvo desses ataques ser a escola. De forma genérica, até. A raiva contra um colega. Um bullyng considerado intolerável. A vontade de destruir tudo aquilo que magoou, mesmo atingindo brutalmente a quem nada tem a ver com isso.

Há vários elementos a serem levados em conta. Nos Estados Unidos, por exemplo, grande parte das escolas possui equipes de segurança. Aqui, por razões inexplicáveis, rejeita-se a presença interna da Polícia, embora caiba a ela agir com destreza e firmeza em momentos críticos das invasões. Os efeitos vão adquirindo casos ascendentes — lembremo-nos de Columbine, EUA, em 1996, Realengo em 2012, Suzano em 2019 e a recentíssima Blumenau.

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Oportuno lembrar que, no caso de Columbine, um dos matadores escreveu em seu diário: “nos vingaremos e então poderemos existir num lugar atemporal, num lugar cheio de alegria e felicidade”. Bons sonhos, estes. Mas se vingariam de quem? Da sociedade, fica explícito. Aqui, o tema fica complexo. Ele se sentiria como um excluído da sociedade? Esse tipo de crueldade se materializaria entre adolescentes? Que motivação haveria para que os assassinos, numa madrugada de 2004, saíssem pelo centro de São Paulo desferindo golpes na cabeça de moradores de rua, dormindo enrolados em cobertores?

O detalhe desse desejo oculto registrado em diário íntimo, não generaliza todos os casos dessa natureza, que em nosso país transformou a muitos em súbitos professores de comunicação social, que aliás em momento algum foram consultados a respeito, do mesmo modo como antropólogos e sociólogos, a não ser em artigos pessoais, isolados.

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Por que a avaliação das reações a essa epidemia sanguinária teria nota baixa? Porque se perdeu o foco. Exemplos: o diagnóstico sobre cada personagem agressor, que em tese poderia ser doente criminoso ou criminoso doente (há, assim, diferenças entre eles). Quem é? Aguardamos as respostas, em evidente forma de diagnósticos, laudos, e suas recomendações consequentes. O que fazer diante da eventualidade de um ataque? Dispor de um mecanismo de contensão para intervenção rápida. Mas, de maneira incongruente, há uma recusa nesse sentido, tratando-se o policial sempre, menos é claro na hora h, como uma figura estranha ao ambiente, indesejável e estranha. Fora da escola, tudo bem. Dentro, nunca. É o que dizem.

É ridículo isso, porque entre outras coisas, a Polícia Militar desenvolve nas escolas, há muitos anos, um programa de prevenção sobre drogas. E faz isso por que? Porque ninguém mais faz. Havia uma lacuna a ser preenchida. Os loquazes críticos são assim: nada fazem, mas são contra quem faz.

SEGURANÇA PREVENTIVA

Aqui entra um aspecto muito prático: por segurança, a entrada na escola deveria ser controlada. Sabendo-se quem é quem. Alunos uniformizados, para poderem ser identificados. Nada de entrar e sair na hora quem bem entende. Saber quem vai buscar o aluno. Saber quem é suficientemente crescido para sair sozinho da escola, previamente, com aval do responsável.

Temos, nesse ponto, mais uma vez, a ojeriza dos contrários. Nada de uniforme, seria “constrangedor”, e assim entra e sai da escola quem bem entende e a hora que quiser. Um perigo. Pode isso? Não.

Homenagens às crianças mortas no ataque de um homem a creche em Blumenau (SC)
Homenagens às crianças mortas no ataque de um homem a creche em Blumenau (SC) Homenagens às crianças mortas no ataque de um homem a creche em Blumenau (SC)

O professor possui a plenitude do conhecimento e o aluno fica bem longe do saber? Sabemos pedagogicamente que não é assim. Já foi, não é mais. O decoreba tornou-se burocracia e se exige do professor compreender que em sua classe há alunos completamente diferenciados, de origens (sociais, principalmente) diversificadas.

Esse sistema transforma aluno em mera “coisa”. Ensinar e educar andam de mãos dadas, ou deveriam andar. Do jeito burocratizado, fazer de conta que ensina ou fazer de conta que estuda, chega-se à formatura no vácuo, que impossibilita a inserção no mercado de trabalho.

Vivemos extremismos, antagonismos e polarizações. Quando se fala em segurança efetiva nas escolas, há quem diga que ela não poderia ser como um presídio de segurança máxima. Na hora de lidar com os traumas inevitáveis, fala-se em acionar um “exército de psicólogos”, como se Freud a tudo pudesse explicar. Nada se diz sobre a hipótese: onde e como seriam atendidos os professores e alunos, muitos, e que tipo de terapia poderia ser desenvolvida?

Há mais, ainda. Professores que fazem avaliação baixa de alunos correm o risco de encontrar seus carros depredados ou riscados no estacionamento, quando se preparam para encerrar a jornada de trabalho. Mães indignadas com as admoestações disciplinares vão reclamar de professores, aos berros, desrespeito e ameaças, na defesa intransigente dos filhos rebeldes. Alunos desafiam professores, dizendo a eles, ameaçadores, que são filhos de traficantes que dominam naquela região. Em várias comunidades, a escola que beneficia os moradores, é atacada por vândalos e ladrões, que roubam equipamentos e destroem instalações.

O cenário, sem tirar nem por, é exatamente este. Sob tapetes, podem ficar ocultas graves e variadas situações. Nas discussões, tantas vezes bizantinas, são buscados bodes expiatórios, isentando os atores principais de qualquer responsabilidade. Existem causas, nunca fatores.

Registro final para as últimas palavras ditas por um menino, Bernardo, ao sair de casa para ser levado à creche onde seria massacrado em Blumenau. Ele disse: “a gente não pode bater no coleguinha porque o papai do céu fica triste”.

Ficamos entristecidos, todos, porque essas agressões e mortes ferem o nosso coração, produzem feridas nas nossas almas que nunca irão cicatrizar. Nossos Bernardos partiram, de maneira brutal e precoce, que nos mergulharam no mais profundo dos silêncios.

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