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Assaltos e violência: andar com o telefone celular nas mãos tornou-se um risco de vida

'Fiquei cara a cara com uma vítima aterrorizada, sentindo as suas reações, o seu pânico e a minha impotência' 

Arquivo Vivo|Percival de Souza, da Record TV

A violência, cada vez mais incorporada em nosso cotidiano, reveste-se de episódios sem fim de extrema brutalidade. Posso observar que as vítimas, em geral, vivem em estado profundo de medo, insegurança, revolta e total inconformismo. Conhecendo o mapa criminal há muitos anos, chego a pensar que nada mais poderia me surpreender, dada a estupidez em grau máximo que podemos observar todos os dias.

Mea culpa, mea maxima culpa. Minha culpa, minha máxima culpa. Acabo de penitenciar-me. Fiquei cara a cara com uma vítima aterrorizada, sentindo as suas reações, o seu pânico e a minha impotência. A minha única escolha, naquele triste momento, foi resignar-me ou ficar indignado, revoltado mesmo.

Foi exatamente o que pensei. Estava saindo da cantina do Piero, nos Jardins, onde jantei com os amigos Rafael e Paulo, quando deparei com a cena. Sentado à entrada estava um homem inquieto, abatido, trêmulo. Ao seu lado, um policial militar, que faz ronda pela região, conversava com ele para obter informações, e saiu rapidamente em seguida.

O homem, mergulhado na sua tenebrosa solidão, tremia. Tremia mesmo. Tremia e chorava. Parecia fora de si, sem perceber nada nem ninguém ao seu lado. Conversei com um amigo próximo. Fiquei sabendo, então, o que tinha acontecido. O homem, que não parava de tremer, tentava balbuciar alguma coisa. Tinha acabado de ser assaltado.

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Subia, a pé, pela calçada da rua Haddock Lobo quando uma moto, com dois ocupantes, parou ao seu lado. O garupa desceu, com arma em punho, e deu a ordem: “Passa tudo”. Passar tudo, no caso, era entregar passivamente aparelho celular, relógio, pochete com dinheiro e uma pequena corrente de ouro. O assaltante voltou para a garupa da moto e, antes que ela arrancasse, fez dois disparos de revólver contra a sua mais recente vítima.

Por sorte, ou melhor, proteção divina, como eu iria lhe dizer mais tarde. O homem caminhou alguns poucos passos, chegou à entrada da cantina e sentou-se. Foi assim que eu o vi. Tremia, tremia, olhos arregalados, pavor estampado no rosto, sem nenhuma reação. Não seria para menos: dois tiros, que não o acertaram, mas poderiam ter acertado, e, naquele rápido instante, poderia estar estirado no chão, morto.

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Ninguém mais parou para ver ou saber. Continuei segurando as mãos dele. Acariciei sua cabeça. Apesar de tudo, foi aí que ficou contente: ele parou de tremer. Sorriu e disse, olhando fixamente para mim: “Obrigado, muito obrigado”.

A banalização

Esse relato descreve apenas uma cena comum na cidade grande. Mas, nesse mea culpa, faço, porque aprendi diante de tantos casos semelhantes, perguntando a mim mesmo: por que esses tiros? Por que atirar para matar mesmo tendo à mercê uma vítima indefesa, subjugada, que já lhe havia dado de valor tudo o que trazia?

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Daí a lição que reaprendo, depois de tantos anos navegando nessa nau dos insensatos, que leva a bordo todas as misérias humanas. Seria muito importante, aprendi de novo, olhar para o rosto, os olhos das vítimas. São tantas...

Olho no olho. É bem diferente. Os olhos das vítimas são penetrantes, perturbadores, fica até difícil encará-los. É por isso que, nessa hora, um conforto, um afago faz bem, muito bem. Funciona como um bálsamo.

Ali, nos Jardins, a nossa versão de Nova York, a Manhattan paulista, região onde se instala o alto poder aquisitivo, representado por lojas chiques, restaurantes elegantes, vitrines sedutoras e tentadoras, transeuntes caminhando por um dos cartões-postais da cidade, luzes coloridas e deslumbrantes.

Se exibe poder aquisitivo, o lugar atrai turistas, moradores de outros bairros e... os ladrões. Entre esses, não só mal-aventurados, que se contentam com os furtos, mas também os impiedosos, cruéis, bárbaros, que atiram como naquele homem que tentei consolar.

É muito importante, hoje, perceber que a cena que presenciei e me deixou emocionado está invertendo um lugar-comum no mundo do crime. É definir como latrocínio o roubo seguido de morte.

Acontece que, muitas vezes, a situação fica completamente invertida: mata-se primeiro para roubar depois. Isso mesmo: assassinato seguido de roubo. É ao que estamos assistindo: para roubar o carro, mata-se o motorista. Para surpreender o morador, atira-se primeiro, antes de invadir a sua casa, quando a vítima está chegando ou saindo. Nas ruas, quem caminha é alvejado primeiro para ser roubado depois.

Não pense que isso não passa de elucubração. Não, gira em torno do real. Prova: antes, os casos interpretados como sendo de latrocínio eram investigados pelo Departamento de Homicídios. Mas, quando a polícia toma conhecimento desse roubar primeiro e matar depois (prática habitual de assaltantes — portanto, crime contra o patrimônio), essas investigações passam a ser feitas pelo Departamento de Investigações Criminais (Deic), especializado nesse tipo de apuração.

Saiba-se, desse modo, que andar distraidamente com celular nas mãos se tornou um risco de vida. Muita gente já se tornou vítima assim.

Um pouco mais de atenção para as vítimas: uma marca registrada do Cidade Alerta, do qual sou comentarista, é investir e cobrar reações em casos com os quais quase ninguém se importa, que são os das vítimas de camadas sociais obscuras, desaparecidos, transformados em assassinados, roubos com violência, pessoas atacadas e internadas em estado grave nos hospitais, a dor de amigos e familiares, o pranto inconsolável por causa dos criminosos trogloditas das trevas medievais.

Carrega-se uma ferida na alma que nunca é cicatrizada. Por essa simples razão, contar o que está acontecendo sem pílulas douradas, muitos apedeutas — os que se recusam a aprender — no assunto gostam de rotular a divulgação de tais informações de “policialescas”.

Mas é só a polícia que investiga as infrações penais (determinação da Constituição Federal, artigo 144, inciso 4º), e os meios de comunicação divulgam. Não criam os fatos. Portanto, nada de “policialesco” — quem se aciona na hora de necessidade?

Exatamente essa é a culpa, digna de uma contrição. Um ótimo primeiro passo seria dar apoio às vítimas, familiares e amigos. Lembrar que elas são humanas também, possuem seus direitos, prioritários, por evidência, em relação oposta aos que violam esses mesmos direitos.

Cemitério de teses

Não existem duas categorias de humanos. Por que as vítimas da violência não merecem contemplação, não são dignas de assistência social e psicológica? Por que as leis não se ajustam à realidade das ruas, sendo mais rigorosas em outros casos, mas não com aqueles demonstrativos de violência sanguinária, estúpida, onde muito o que acontece é consequência da impunidade dominante?

Teses. Teorias fracassadas e inúteis. Distância abissal entre o que a sociedade precisa e a lei não prevê. A criminalidade contemporânea exige conhecimentos que possam ser relevantes e não girar em torno de formatos incapazes de serem entendidos, deixando de lado falsas interpretações, embustes, sofismas e mitos.

Tais seres, que abundam, são coveiros sociais: não param de cavar cemitérios poéticos (no mau sentido) ondem jazem para sempre, na vala comum do esquecimento, suas teorias estapafúrdias.

Termino a minha catarse, após testemunhar ao vivo uma situação de desespero. Espero que você pense comigo e seja solidariamente realista.

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