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Augusto Nunes
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Ciro nos tempos do cólera

O ex-governador acusou Bolsonaro de ter feito o que fez no Ceará

Augusto Nunes|Do R7 e Augusto Nunes

O documento em que Ciro Gomes, Fernando Haddad e Guilherme Boulos exigem a renúncia de Bolsonaro, que derrotou a trinca nas urnas de 2018, afirma que o presidente da República é mais perigoso que o coronavírus. Entre outros pecados irremissíveis, os signatários acusam Bolsonaro de esconder a verdade sobre a pandemia. “Ele frauda informações, mente e incentiva o caos”, berra o chilique retórico provocado pelo governante qualificado de “irresponsável”.

“Bolsonaro acha que dinheiro vale mais que vidas humanas”, berrou Ciro Gomes no dia mesmo em que inventou o pranto convulsivo sem lágrimas. A versão 2020 de Ciro nada tem a ver com o modelo da primeira metade dos anos 90. É o que governava o Ceará quando lá chegou a epidemia de cólera cujo epicentro foi Fortaleza.

No vídeo abaixo, gravado poucos anos depois, Ciro admite que procurou esconder o desastre sanitário desde a aparição do primeiro caso confirmado, em 1993. Enquanto a doença se alastrava, o governador culpava a imprensa pela difusão de falsidades.

“Eu tinha que fazer isso”, diz Ciro com um leve sorriso. “Você imagina quantos cearenses vivem do turismo?”, pergunta ao entrevistador. “Essa vida de homem de Estado é cruel, às vezes”. Tão cruel que às vezes impôe a um estadista em gestação à luta solitária e silenciosa: “O que eu fiz foi eu mesmo, pessoalmente, combater a epidemia”, gaba-se na entrevista.

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Embora o problema fosse municipal, fantasia o entrevistado, assumiu o comando “porque a prefeitura não estava nem aí”. Nunca se arrependeu da ocultação da identidade do inimigo. “Em vez de dar o adjetivo”, tropeça na discurseira, “tá bom, eu, governador do Estado, faço uma declaração: ‘Fortaleza está debaixo de uma epidemia de cólera’... eu destruía 200 mil empregos... imediatamente. Diferente de eu dizer: Fortaleza tem muitos casos de dengue, sim, mas estamos controlando. Mas não tem esse negócio de epidemia”.

“De cólera”, corrige o entrevistador. “Sim, de cólera”, acorda Ciro, que diz ter vencido a dengue duas vezes. Para tapear a população, desafiou os cuidados requeridos pela ameaça: “Eu mesmo fui pra rua...” Fez, enfim, tudo o que atribui a Bolsonaro agora: até ser obrigado a enxergar os fatos, o governador mentiu, fraudou informações e agiu irresponsavelmente.

Em 1993, a epidemia registrou 22.738 casos no Ceará, com 187 mortes. No ano seguinte, ocorreram 19.997 casos, com 159 mortes. Ninguém pediu a renúncia do governador que trocou a preservação da indústria do turismo por 346 vidas. E não chorou por nenhuma.

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