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Caso das jóias levadas de avião repete final de novela dos anos 80

A cena já está há 30 anos no imaginário popular. Último capítulo de Vale Tudo tinha Reginaldo Faria no papel de personagem que escapa impune, de avião. 

Christina Lemos|Do R7

Corria o ano de 1989, quando os brasileiros assistiram na tv o desfecho entre revoltante e irônico da novela Vale Tudo – que na era pré-internet tornara-se um evento de mobilização nacional. Chocou a audiência ver o corrupto interpretado por Reginaldo Faria decolar do país ao lado de sua esposa, interpretada à altura por Cássia Kiss (ela mesma!), após aplicar grande golpe financeiro. Da cabine do avião, o personagem sobrevoava o Rio e dobrava o antebraço com o punho fechado, dando uma “banana” para o país que ficava para trás, sob os trinados agudos de Gal Costa, na canção de Cazuza: “Brasil, mostra sua cara, quero ver quem paga para gente ficar assim.”

Era a coroação da impunidade que o brasileiro conhecia tão bem, mas que jamais alguém havia ousado estampar na tela com tamanho realismo, como na novela de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères. A cena – quase premonitória - pertence, portanto, ao imaginário popular há 34 anos.

Mais de três décadas depois, foi com espanto semelhante, pontuado por decepção e tristeza, que o país assistiu por longos minutos à decolagem do avião presidencial, faltando 2 dias para o final do mandato de Jair Bolsonaro. A transmissão ao vivo pelas tvs e pela internet levou longos minutos enquanto o jato ganhava as alturas rumo aos Estados Unidos, sob o olhar perplexo de apoiadores e críticos, acampados na chuva e militantes contrários. Mas ninguém sabia o que ía nos porões da aeronave. Nem a ficção poderia imaginar o recheio brilhante e precioso das malas, a julgar pelo que foi apurado até o momento pela polícia federal.

Afinal, o presidente recém-derrotado por uma ridícula diferença de votos, após duríssima campanha, estaria muito deprimido, arrasado mesmo – só chorava, relatavam aliados mais próximos. E merecia o descanso por quanto tempo achasse conveniente, defendiam familiares.

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Enquanto pranteavam todos, de acordo com os investigadores, estaria sendo simultaneamente armado o esquema de transporte e venda dos preciosos presentes, recebidos das arábias, montado porém de forma apressada e amadorística. Apura-se hoje se um general 4 estrelas, que integrou por dois anos o Estado Maior das Forças Armadas, e outros aliados muito próximos, até mais que os familiares, colaboraram na operação. Era hora de esvaziar as gavetas e encher o caminhão baú que sairia do Alvorada.

A intensa troca de mensagens, a abertura da conta em Miami, a triangulação financeira com a ajuda do general, o leilão de jóias milionárias, o diligente advogado investido na tarefa de agente secreto para a recompra das peças – trazidos a público pela polícia, tudo remete a uma trama ficcional que desfila diante dos olhos cada vez mais incrédulos dos que votaram, dos que não votaram, dos crentes, dos descrentes, dos mansos e dos indignados.

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Afinal, o brasileiro está habituado a novelas – inclusive a da realidade. Assiste à casa cair uma vez por dia, às vezes mais. E se senta diante da tv para acompanhar a próxima operação da polícia federal.

Em Brasília se fala em contagem regressiva para o último capítulo. Mas será realmente o último? Pergunta-se também se será possível desafiar os fatos e escapar do tsunami do imaginário popular transformado em fato real. E como reagirá a "grande pátria desimportante”, de Cazuza. De aviões, decolagens, rapinas espetaculares e agentes amadores se fazem novelas, filmes B e a triste política brasileira.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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