Luiz Fara Monteiro Especialista pede instalação de sistema de segurança no Santos Dumont

Especialista pede instalação de sistema de segurança no Santos Dumont

Governo espera concessão do terminal para que o administrador escolha entre duas tecnologias a serem aplicadas na pista. Administradora do Galeão poderá disputar licitação.

Terminal do Santos Dumont, no centro do Rio de Janeiro

Terminal do Santos Dumont, no centro do Rio de Janeiro

Diego Baravelli

Especialista em prevenção de acidentes,  comandante Paulo Licati analisa a funcionalidade dos dois terminais do Rio de Janeiro e destaca a importância de se instalar um sistema de segurança na cabeceira de uma das pistas mais desafiadoras entre os aeroportos da América do Sul. 

Eis o artigo: 

A aproximação da 7ª Rodada de Concessões Aeroportuárias tornou o aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, alvo de discussões e polêmicas.

O terminal foi inaugurado em 30 de novembro de 1936 e hoje conta com 8 pontes de embarque e 13 posições remotas que atendem a aviação de médio porte.

Ainda no Rio, o suntuoso aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim – Galeão, inaugurado em 01 de fevereiro de 1952, tem disponível 58 pontes de embarque e 91 posições remotas que podem atender aeronaves de médio e grande porte, somando um grande terminal de cargas, possui também a maior pista de pousos e decolagens, com 4.000 metros de comprimento.

A pergunta que muitos se fazem quando desembarcam no "Internacional" é: o que faz o gigante aeroporto do Galeão perder movimento para o minúsculo Santos Dumont?

O Galeão há muitos anos está ocioso, com falta de passageiros e operações. O leilão de privatização do Santos Dumont, previsto para o ano que vem,  gerou interesse da Changi, empresa de Cingapura que opera o Aeroporto Antônio Carlos Jobim, o Galeão. Com o controle dos dois terminais, a empresa poderia coordenadar as operações entre os dois aeroportos. 

Caso o controle de Santos Dumont caia em mãos de uma concorrente, a possibilidade do terminal aumentar suas operações, inclsuive com voos internacionais, e agravar a crise de movimento no Galeão é bem considerável. 

Numericamente o Galeão registra maior número de passageiros anualmente. Mas ao se comparar as dimensões e estruturas, o Santos Dumont ganha uma operação notável. 

Em 2019, último ano antes da crise pandêmica, o Aeroporto Internacional Tom Jobim registrou 13 518 783 passageiros pagos. No mesmo período, o Santos Dumont viu 8 933 77 passageiros pagos. 

Paulo Licati é especialista em prevenção de acidentes

Paulo Licati é especialista em prevenção de acidentes

Arquivo pessoal

Ao se comparar o Galeão com o Internacional de São Paulo - Guarulhos - a diferença é gigantesca. Foram 42 248 207 passageiros pagos no ano de 2019.

Normalmente as principais metrópoles ao redor do mundo têm no mínimo dois aeroportos:  um que atende voos domésticos e outro para voos internacionais/domésticos.

No caso do Rio, percebe-se um desequilíbrio operacional entre os dois terminais.

Com uma localização privilegiada, o Santos Dummont situa-se próximo ao centro da cidade e ao Aterro do Flamengo. É agraciado com vista para o Pão de Açúcar, ponto turístico da cidade. Em 2019 era o quarto aeroporto mais movimentado do Brasil. 

O Galeão oferece uma boa infraestrutura e serviços. Está localizado na Ilha do Governador, a cerca de 20 quilômetros do centro do Rio de Janeiro. O acesso se dá pelas vias conhecidas como linhas amarela e vermelha.

Ambos os aeroportos são servidos com transporte coletivo, o que difere é a facilidade. O Santos Dumont tem a vantagem de ter em suas proximidades o Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT Carioca). Ele está na porta do desembarque e leva o usuário ao centro da cidade, metrô e rodoviária, enquanto o Galeão conta com o sistema BRT,  ônibus com duas composições e que circula em corredores exclusivos, que levam o usuário até uma estação do metrô.

No estudo ficou claro que o problema de mobilidade urbana está presente e impacta na decisão entre escolher um ou outro aeroporto. Em cidades desenvolvidas, é muito comum o passageiro desembarcar de um voo, seja internacional ou nacional e entrar em um metro ou trem.

Gautrain: metrô no O.R. Tambo,  aeroporto internacional de Johanesburgo

Gautrain: metrô no O.R. Tambo, aeroporto internacional de Johanesburgo

Reprodução

Até mesmo em países em desenvolvimento, como a África do Sul, o usuário conta com serviço eficaz de compartilhamento entre os modais aéreo e ferroviário. Johanesburgo, por exemplo, investiu em uma linha de metrô - em sua maior parte de superfície - para atender os turístas que foram acompanhar a Copa do Mundo da FIFA, de 2010. 

O Serviço ganhou o nome de Gautrain, e liga o aeroporto  O.R. Tambo International à capital política de Pretória, localizada a 50 km, além da área turística e mais desenvolvida de Johanesburgo de Sandton, a cerca de 17 km da famosa Nelson Mandela Square. 

A mobilidade terrestre deve ser harmonizada, colocando à disposição dos usuários transportes que fluam com rapidez e segurança, evitando congestionamentos nos setores de embarque e desembarque, bem como diminuindo a emissão de poluentes.

O investimento em ferramentas que contribuam ainda mais com a segurança de operações aeronáuticas também se faz necessário. 

Tripulantes, há muito tempo reivindicam a instalação da Área de Segurança de Final de Pista (RESA) do Aeroporto Santos Dumont .

Uma das vantagens dessa ação de engenharia é que a área não precisaria ser aterrada.

Em conssonância com as preocupações dos ambientalistas, a instalação para a área de escape pode ser realizada com uma solução de engenharia que atende os requisitos de maneira comprovada e segura para parar uma aeronave em casos de emergências. durante procedimentos de pousos e decolagens.

O método mais utilizado hoje é o Engineered Material Arresting System (EMAS), conforme já mostrado no blog.

Em entrevista exclusiva ao blog, o Secretário de Aviação Civil, Ronei Glanzmann, explicou que a licença para a instalação do EMAS já está em fase adiantada, mas que a decisão final será do concessionário que levar a licitação.

Boeing da Southwest parado pelo 'EMAS': Segurança

Boeing da Southwest parado pelo 'EMAS': Segurança

Reprodução

É um sistema composto, feito com concreto celular espumoso e vidro reciclado (ecológico), com alto poder de absorção de energia.

Quando uma aeronave passa sobre o EMAS, a superfície é esmagada e cria uma resistência contrária, proporcionando forte desaceleração e uma parada segura.

Com objetivo de minimizar os impactos ambientais na Baia de Guanabara, o EMAS pode ser instalado imediatamente após uma área reservada, chamada de setback (recuo), que poderá ser usado como acesso a Escola Naval da Marinha. Com este material é possível adequar o aeroporto mantendo o Nível Equivalente de Segurança Operacional (NESO) de 80 metros, comparado a uma área  recomendada pela Organização de Aviação Civil Internacional (OACI) e pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) de 150 metros.

Como exemplo, as figuras a seguir representam as diferenças entre uma área com o EMAS e outra que atende a recomendação normal da OACI e da ANAC.

RESA

RESA

Reprodução
RESA ANAC

RESA ANAC

Reprodução

Independente de qualquer discussão, as recomendações para que os aeroportos tenham uma área de escape têm origem pela quantidade de incidentes conhecidos como "saídas de pistas" (overrun) e as consequências que estes acidentes podem trazer.

Em 17 de julho de 1997 um Boeing 737-300, da VARIG, matrícula PP-VPC, ultrapassou o ponto de toque e o limite da pista (overrun) ao tentar o puso na pista 20L e ficou preso no quebra mar. Não houve vítimas e após manutenção, a aeronave voltou a operar.

Treze anos mais tarde, em 12 de agosto de 2010 uma aeronave ultrapassou a distância utilizável para pouso (LDA - Landing Distance Available), derrapou guinando à direita e parou nas águas da Baía de Guanabara. A aeronave sofreu graves danos. Todos os ocupantes saíram ilesos.

A maioria dos acidentes da aviação ocorre entre a aproximação final e o pouso. Por isso, é de extrema necessidade a adequação, respeitando a vida e o meio ambiente. A sugestão para o edital de licitação deste aeroporto, é que o EMAS seja um requisito para o próximo concessionário, sem deixar margem para interpretações.

Boeing 737 da Varig: excursão de pista no Santos Dumont

Boeing 737 da Varig: excursão de pista no Santos Dumont

Vanderson Fernandes

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