Os interesses por trás do incentivo ao uso medicinal da maconha

Mercado mundial da droga angariou US$ 21,3 bilhões em 2020

Muitas pessoas talvez não saibam, mas em junho, a Câmara dos Deputados aprovou o texto-base do Projeto de Lei 399/15 que propõe a legalização do cultivo da cannabis para fins medicinais, veterinários, científicos e industriais.

Um grupo de deputados se posicionou contra essa decisão e conseguiu fazer com que o texto seja analisado pelo plenário da casa para, depois, ser analisado pelo Senado e encaminhado para sanção, ou veto, do Presidente da República.

No entanto, a discussão sobre os efeitos medicinais da cannabis tem ganhado cada vez mais espaço e, diante deste cenário, muitos especialistas têm manifestado seus pensamentos sobre o tema, afinal, tal decisão pode abrir um caminho negativo para o futuro do país.

Diversos projetos visam legalizar o uso da maconha, seja para fins medicinais ou recreativos

Diversos projetos visam legalizar o uso da maconha, seja para fins medicinais ou recreativos

Divulgação / PCMG

O primeiro ponto que precisa ser considerado é que das 480 moléculas presentes na planta Cannabis apenas uma teria efeito terapêutico, o Canabidiol CBD. O que é polêmico, porque a ciência mostra e comprova que há muito mais THC presente (responsável pelos efeitos negativos da droga no organismo) do que CBD.

Outra crítica é que ao liberar o cultivo se abre um leque de oportunidades para a comercialização e há o risco da droga disseminar - ainda mais - pelo país, das mais diversas maneiras e para os mais diferentes públicos. O que nos faz pensar se defender tanto o uso medicinal dessa substância não seria uma estratégia para, num futuro breve, permitir o uso para "fins recreativos".

Isso sem falar de como as pessoas estão enriquecendo com a maconha. A consultoria especializada BDSA publicou um relatório este ano que revela que o mercado mundial da droga angariou US$ 21,3 bilhões (um aumento de 48% em comparação com 2019). Além disso, a perspectiva é que haja um aumento anual de 17%, podendo levar em cinco anos a um faturamento de US$ 55,9 bilhões.

Essa realidade tem feito com que se consiga investir até mesmo na indústria da maconha. Diversos fundos brasileiros compram ações de empresas estrangeiras que trabalham com maconha. E há quem já esteja sinalizando que esse mercado enxergue no Brasil uma grande oportunidade para produção, já que o país conta com ótimas condições climáticas e solos adequados. 

Consequências

Os jovens e adultos, infelizmente, têm tido, cada vez mais cedo, contato com essa droga. Mais de 16 milhões de brasileiros que já utilizaram maconha, fazendo a droga ser a terceira substância ilícita mais consumida no país, de acordo com o 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira, divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Pesquisas atuais demonstraram que o vício causado pelo cigarro é semelhante ao vício causado por outras drogas. Mas, o tabaco já foi "vendido" como algo que fazia bem para a saúde

Pesquisas atuais demonstraram que o vício causado pelo cigarro é semelhante ao vício causado por outras drogas. Mas, o tabaco já foi "vendido" como algo que fazia bem para a saúde

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De acordo com um estudo realizado por cientistas de sete países que analisaram 1.598 exames de ressonância magnética de 799 adolescentes entre 14 e 19 anos, o uso da cannabis na adolescência interfere no desenvolvimento cerebral, deixando áreas do córtex pré-frontal mais finas. Tal mudança normalmente acontece na velhice, porém, a maconha adianta o efeito, além de colaborar para atitudes impulsivas e ansiosas. 

Outro estudo realizado pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos da América revelou que o uso da maconha está diretamente ligado ao aumento dos casos de suicídio. Os resultados revelaram que pessoas que utilizam maconha tendem a querer se matar mais do que aquelas que não utilizam a droga, independentemente do histórico de depressão.

Recentemente, ficou comprovado que fumantes da erva têm um declínio permanente de três pontos no QI verbal, que é a parte da inteligência relacionada à compreensão de conceitos, raciocínio abstrato e memória. Isso sem falar que os usuários têm 20 vezes mais chances de experimentarem drogas mais pesadas. 

O Procurador da República, Lucas Gualtieri, manifestou em artigo sua revolta pelo direcionamento que esse assunto vem tendo. "A ideia é incutir na sociedade a visão que a maconha é uma droga tão benéfica, que até possui propriedades medicinais! A inofensividade da maconha é um mito, já que seu uso continuado, comprovadamente, leva a diversas doenças, inclusive psiquiátricas, como esquizofrenia e surtos psicóticos".

O mesmo erro

Assim, se a razão não prevalecer, caminharemos para o mesmo erro cometido no que diz respeito à nicotina. Você deve se lembrar que, no passado, o ato de fumar era considerado um charme, glamour. Os comerciais e os filmes incentivavam o consumo e até induziam que fumar fazia bem para a saúde.

Usuários têm um declínio permanente de três pontos no QI verbal, que é a parte da inteligência relacionada à compreensão de conceitos, raciocínio abstrato e memória

Usuários têm um declínio permanente de três pontos no QI verbal, que é a parte da inteligência relacionada à compreensão de conceitos, raciocínio abstrato e memória

Luis Robayo / AFP

Muitos anos depois, essas propagandas foram vetadas por leis que defendiam a preservação da saúde e, assim, fumar saiu de moda. Mas, as consequências estão presentes até os dias de hoje: pessoas viciadas, morrendo por conta dos efeitos do tabaco e as indústrias continuam cada vez mais ricas.

Vale lembrar que um dos cowboys das propagandas da década de 1970, o ator Eric Lawson, morreu vítima de uma enfermidade relacionada ao fumo (doença pulmonar obstrutiva crônica).

Então, imaginemos esse mesmo cenário daqui a alguns anos, só que com a maconha sendo a protagonista. Com certeza, as sequelas virão numa proporção muito maior, já que a droga é considerada um alucinógeno e compromete mais orgãos que o cigarro.

Países que liberaram o consumo sentem os efeitos negativos, como o aumento no número de acidentes, na procura por atendimento médico em função de mal estar, depressão, transtornos psicóticos, entre muitos outros.

Até agora não há nenhuma evidência que a legalização resolva as mazelas mundiais. Não é inteligente pensar que somente assim o tráfico seria combatido, ainda mais no Brasil. As autoridades deveriam direcionar os esforços para implementar ações de prevenção, isso sim seria uma atitude inteligente. Porém, sabemos que, para quem quer dinheiro, a saúde emocional e física do povo pouco importa.

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