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Falta de recursos na polícia trava buscas por desaparecida há 6 meses

Investigador do caso relatou detalhadamente situação vivida pelos policiais de Itariri-SP, que, segundo ele, passam por dificuldades para cumprirem função

São Paulo|Guilherme Padin e Kaique Dalapola, do R7

Maria Aparecida desapareceu em fevereiro de 2019
Maria Aparecida desapareceu em fevereiro de 2019 Maria Aparecida desapareceu em fevereiro de 2019

A família de Maria Aparecida Souza Lopes, 52 anos, ainda não encontrou a resposta que procura desde 10 de fevereiro. A dona de casa havia saído de casa em Itariri, pequeno município próximo do litoral paulista, e, há mais de seis meses, está desaparecida.

As perspectivas para a descoberta do paradeiro dela não são boas. Claudio Cobiaco, investigador responsável pelo caso, afirmou ao R7 que “a falta de efetivo e demais expedientes de ordem burocrática concorrem para que as investigações emperrem de certo modo”.

Ao ser questionado do que exatamente se tratariam os problemas relatados, ele explicou com detalhes: “O número de policiais é insuficiente. São dois policiais por dia, que têm dentre suas atribuições entregar intimações, cumprir ordens de serviço, entregar ofícios, levar e/ou buscar objetos e laudos nos institutos de criminalística, que ficam longe (Itanhaém, Santos, São Paulo).”

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Claudio prosseguiu e relatou que “ainda somos responsáveis pela escolta de presos e condução até a cadeia pública de Peruíbe (homens) e São Vicente (mulheres). Temos que ir buscá-los nas respectivas cadeias, apresentá-los no fórum e permanecermos à disposição até que a audiência seja finalizada”.

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De acordo com o investigador, “as ocorrências não param de ser registradas. São 15.000 habitantes, a maioria residindo em área rural, com acesso extremamente difícil, morando em chácaras e sítios onde inexiste uma numeração, nome de rua ou outro tipo de referência”.

Os problemas relatados por Claudio não se restringem aos recursos humanos. “Em média, demoramos uma hora para percorrer 12 km, por exemplo, porque as estradas são ruins e não há um veículo apropriado. Percorremos os caminhos com um Corsa Sedan 2007, e muitos lugares não conseguimos acessar. No decorrer das diligências, não temos como pedir socorro, pois a viatura não dispõe de rádio e não há sinal de celular”, disse ele, que concluiu: “Tudo isso nos toma tempo. Infelizmente, por isso, deixamos de realizar nossa atividade, que é investigar”.

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Sem falar sobre o caso de Aparecida, a delegada de polícia e presidente do Sindicato dos Delegados de São Paulo, Raquel Kobashi Gallinati, afirmou que a situação é muito comum e avaliou o atual panorama de recursos da Polícia.

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“Obviamente [isso é muito comum]. Temos um contingente com déficit que chega a quase 14 mil [profissionais]. Nessas situações a polícia não consegue trabalhar com total potencialidade por falta de investimento do Estado. Os policiais chegam a exercer a função de quatro ou cinco policiais”, disse Raquel.

O panorama, avaliou a delegada, é muito abaixo do esperado pelo sindicato: “Há um acúmulo exacerbado de funções, casos e inquéritos. É humanamente impossível ele corresponder a esta demanda. Há muitos casos de burnout, de afastamento por problemas psiquiátricos e por estresse”.

Para Raquel, “a situação e o descaso do governo, há mais de 20 anos, refletem numa população que está insegura e na sensação de impunidade daquele que comete o crime. Quando a situação é essa, a criminalidade agradece”.

Filha de Aparecida relata ameaça do padrasto, mas polícia não confia em versão

A filha Sandra Lopes afirmou ao R7 que o marido de Aparecida, seu padrasto, ameaçou a esposa de morte três meses antes do sumiço. O motivo, de acordo com Sandra, era a possibilidade de Beatriz, filha de cinco anos do casal, falecer. A garota sofria com microcefalia (malformação do cérebro).

Segundo Sandra, o feirante havia dito a Aparecida que, se Beatriz não sobrevivesse à deficiência – o óbito da menina se confirmou semanas depois –, ele mataria a esposa.

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Sandra relatou também que o casal brigava com frequência. "Eu já peguei ela chorando", disse. Ela contou que, desde o desaparecimento, o padrasto a procurou em diversos momentos a fim de saber se a esposa havia sido encontrada.

Sobre o marido de Aparecida, Claudio Cobiaco disse que encontrou algumas contradições no depoimento de Sandra, e que foi a irmã mais nova quem teria visto a ameaça, mas preferiu não relatar o caso durante a realização do boletim de ocorrência. Mesmo assim, o investigador contou que fez um primeiro contato. “Fizemos uma busca na chácara dele, mas foi numa época em que ele estava se mudando. Depois tentamos localizá-lo novamente, mas não obtivemos êxito".

O investigador disse ainda que "assim que possível", vai atrás do marido de Aparecida novamente, para tentar formalizar as declarações da filha.

A reportagem procurou pelo marido de Aparecida. Por telefone, perguntado sobre o desaparecimento, ele falou pouco: ‘Nem eu sei o que aconteceu [no dia do desaparecimento]. Eu não sei de nada’. Já a respeito da suposta ameaça relatada por Sandra, ele se defendeu dizendo que “isso tudo é conversa. A gente estava se separando, mas na amizade. Aliás, três dias antes dela desaparecer, ela foi em casa para me procurar para conversar, mas eu não estava lá na hora”.

Posicionamento da polícia de Itariri-SP sobre o caso de Aparecida

A Delegacia de Polícia Sede de Itariri, por meio desta nota, informa a este veículo de comunicação no que se refere ao desparecimento da vítima MARIA APARECIDA SOUZA LOPES, foi registrado por esta unidade o boletim de ocorrência nº 133/2019, bem como foi instaurado o P.I.D. nº 04/19 (Procedimento de Investigação de Desaparecimento) cujas diligências seguem encampadas pelo Setor de Investigação desta unidade policial. Esclareço que até o momento foram procedidas buscas na região, bem como entrevistadas os parentes da vítima e até o momento nenhuma informação concreta foi constatada.

A reportagem do R7 também procurou pela SSP (Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo) e solicitou um posicionamento sobre a falta de recursos das investigações da Polícia de Itariri-SP. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.

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