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Dia a dia na pandemia faz percepção da passagem do tempo mudar

Período desde o primeiro caso de covid-19 no mundo está passando lentamente para uns ou de uma de maneira muito rápida para outros

Saúde|Guilherme Carrara, do R7*

Período de isolamento pode passar devagar ou rápido dependendo da rotina
Período de isolamento pode passar devagar ou rápido dependendo da rotina Período de isolamento pode passar devagar ou rápido dependendo da rotina

Nesta quarta-feira (1°), o mundo chega a marca de seis meses desde o primeiro caso de covid-19, registrado na China. Esse período de tempo em meio à pandemia do novo coronavírus tem sido percebido de forma diferente pelas pessoas. Para alguns, tudo está passa muito rápido e, para outros, muito devagar.

O psicanalista Ronaldo Coelho, que é idealizador e professor do curso Análise do Discurso na Clinica Psicanalítica e professor da Unifesp, explica que o tempo é relativo e a nossa percepção depende da intensidade do que vivemos no momento. 

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Os gregos separavam o tempo em dois. O Chronos é o tempo do relógio e não se altera. Sem pandemia ou com, o dia vai ter a duração de 24 horas. O Kairós é a percepção de tempo e pode mudar conforme a atividade realizadas por cada pessoa.

A professora Mary Okamoto, psicóloga e docente do Departamento de Psicologia Clínica da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, explica como "experiência do tempo é subjetiva", e depende de outros fatores, como a rotina. 

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"Essa velocidade e experiência do tempo depende de como as pessoas está vivendo essa situação de isolamento. Se ela tem muitas tarefas, continua trabalhando, ou teve um mudança completa de rotina, a sensação é de que pode estar passando muito rápido," explica. 

Experiências traumáticas, como a pandemia, problemas econômicos ou a perda de um parente, também fazem com a percepção de tempo se altere. Mary explica que nesses casos a pessoas pode ter a sensação de que o tempo está parada.

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“É desse conceito que vem a máxima: ‘É impressionante como o tempo voa quando a gente se diverte’”, cita Ronaldo sobre o fenômeno de subjetividade. O tempo depende de onde estamos ou o que vivemos. 

Rodolfo Langui, coordenador do instituto de astrofisica da Unesp, explica que o físico alemão Albert Einstein provou com a “Teoria da Relatividade” que a passagem do tempo depende de um referêncial. 

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"O tempo passará mais lentamente para alguém que se movimentar a velocidades cada vez mais altas, em relação a outra pessoa que está em repouso", diz Lagui sobre teoria de Einstein. "A pessoa que estiver viajando a velocidades próximas a da luz, o tempo pode fluir bem devagar, quase parando", conclui. 

O professor da Unesp explica que é praticamente impossível um ser humano atingir velocidades tão alta e que a sensação biológica do tempo não é refinada a ponto de percebermos essas mudanças. Apesar de não podermos atribuir a mudança de percepção de tempo na quarentena a Einstein, é essa teoria que ajuda a entender que o "tempo não é absoluto, mas relativo", diz Langui. 

Falta de marcadores

“Somos eu, meu marido e minha filha. Eu trabalho como atriz e apresentadora e estava cada dia em um local diferente, com diversas pessoas. Me vi em casa com ambos”, explica a atriz Lara Cardoso, que diz que o tempo parece não passar.

Lara, assim como uma parte da população, deixou a rotina agitada, as horas de trânsito e a intensidade do trabalho diário para ficar em casa e se proteger dos riscos de se contaminar com o novo coronavírus.

Atriz tenta criar novas rotinas durante a pandemia, como a culinária
Atriz tenta criar novas rotinas durante a pandemia, como a culinária Atriz tenta criar novas rotinas durante a pandemia, como a culinária

Os acontecimentos do dia a dia, com horários definidos e prazos para execução, moldam a percepção do tempo. Sem horários definidos e atividades diferentes nos momentos de lazer, as pessoas perdem os marcadores que definem o fim e o começo.

“O sono se altera, o trabalho fica improdutivo e a pessoa não consegue relaxar um minuto, mesmo não tendo feito nada o dia inteiro”, explica Ronaldo, sobre as consequências da falta de uma rotina.

“Eu percebo que não tenho mais horário e estou vivendo no automático. Entro às 9h no trabalho, mas acordo 8h30 só para ter tempo de tomar café, lavar o rosto e escovar os dentes. Então sento para trabalhar”, explica Allan Gavioli, estudante, que ao contrário de Lara, diz que tudo passa muito rápido e parece que está vivendo a mesma coisa há mais de três meses.

Como criar a rotina

Essa desorganização e a falta de marcadores do cotidiano pode gerar problemas psicológicos. São as doenças da mente, que tiveram um aumento durante a quarentena, como crises de angústia, pânico, depressão, ideações suicidas ou mesmo alucinações e delírios.

A professora Mary destaca que isso ocorre pois na quarentena algumas experiências e ficaram mais intensas, como a previsão de melhora que não chega, e a quebra total dos planos para 2020. Isso gera a ansiedade de algo que não é resolvido e não tem perspectiva de chegar ao fim tão cedo. 

Ela destaca que o ponto mais importante nesse momento é ter uma compreensão realista do que está acontecendo, sem negacionismo. 

"É preciso calma e paciência e avaliar sempre o que está acontecendo. É necessário cuidar da nossa saúde mental, perceber se está mais agitado, ansioso e procurar ajuda", explica. O próximo passo é tentar resgatar marcadores do cotidiano.

Por esse motivo, Ronaldo cita que “é necessário fazer a pergunta: o que posso fazer que se aproxima da minha vida antes da quarentena?”

Para tentar voltar ao normal, por exemplo, a atriz Lara optou por trazer o teatro para casa e envolver sua família. Além disso, passou a adaptar os conteúdos que produzia fora de casa para a internet. “Não uso mais pijama. Faço uma maquiagem leve para produzir conteúdo pro canal e até para molhar as plantas no quintal."

"O tempo do nosso corpo é Kairós, não Chronos", afirma Ronaldo. Em outras palavras, as atividades regulam o nosso tempo. "Se fico no mesmo ambiente o dia todo o corpo continua agindo da mesma forma".

*Estagiário R7 sob supervisão de Pablo Marques

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