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Professora com Down ensina o respeito às diferenças

No Dia Internacional da síndrome de Down, Débora Seabra, que rebateu crítica de desembargadora, ressalta a luta contra o preconceito 

Saúde|Gabriela Lisbôa, do R7

A professora Débora decidiu enfrentar o preconceito e a falta de informação
A professora Débora decidiu enfrentar o preconceito e a falta de informação A professora Débora decidiu enfrentar o preconceito e a falta de informação

Os últimos dias têm sido corridos para a professora Débora Seabra, 36, que vive em Natal, no Rio Grande do Norte. São dezenas de entrevistas todos os dias. Jornais, rádios, televisão, jornalistas do Brasil inteiro querem falar com a mulher que enfrentou o preconceito e a desembargadora Marília de Castro Neves Vieira, da 20ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

A magistrada divulgou notícias falsas sobre a vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada no dia 14 de março junto com o seu motorista, Anderson Gomese postou comentários preconceituosos contra a professsora.

No Facebook, ela contou que ouviu no rádio que o Brasil é o primeiro país a ter uma professora com síndrome de Down e concluiu:

"Aí me perguntei: o que será que essa professora ensina a quem???? Esperem um momento que fui ali me matar e já volto, tá?"

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A professora Débora afirma que, assim que soube do comentário, ficou chateada e decidiu fazer algo respeito. Ela diz que considerou importante se manifestar porque é preciso acabar com o preconceito. "Preconceito é crime e quem discrimina é criminoso”.

A resposta foi publicada na mesma rede social, no dia 19 de março. Em uma carta escrita à mão, Débora fala que ensina muitas coisas para as crianças. "A principal é que elas sejam educadas, tenham respeito pelas outras, aceitem as diferenças de cada uma, ajudem a quem precisa mais".

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O meu recado para a juíza Marília

Posted by Debora Seabra de Moura on Monday, March 19, 2018

A luta contra o preconceito

Débora com a família no dia em que recebeu o Prêmio Darci Ribeiro de Educação
Débora com a família no dia em que recebeu o Prêmio Darci Ribeiro de Educação Débora com a família no dia em que recebeu o Prêmio Darci Ribeiro de Educação

Esta não é a primeira vez que Débora chama a atenção ao falar sobre preconceito. Em 2014, foi convidada a falar sobre o assunto em uma reunião da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York.

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No ano seguinte, foi a vencedora do Prêmio Darci Ribeiro de Educação. A isso se somam participações em simpósios e congressos no Brasil e em outros países, como Argentina e Portugal.

Construir esta história de sucesso não foi fácil. A professora precisou lutar por espaço desde muito nova. Na escola, sofreu com a falta de aceitação e o preconceito dos colegas. Durante o curso de magistério, chegou a sair da sala quando percebeu que não seria bem recebida em nenhum dos grupos formados para a realização de uma atividade.

“Foi no segundo ano do curso. Eu tive que sair da sala e dizer que iria fazer greve, só voltaria se fosse aceita. Eu precisava voltar para terminar o curso, mas também precisava ser respeitada”, lembra Débora.

Foi assim, com coragem e determinação, que ela fez com que os colegas percebessem que ela era igual e capaz de estar ali.

Foi durante um estágio em escola particular de Natal que ela se apaixonou pelas crianças e decidiu se dedicar à educação infantil. Hoje, é professora auxiliar e ajuda a ensinar crianças entre 3 e 4 anos.

Entre os conteúdos e as brincadeiras, ela sabe bem qual é a lição que quer passar para os alunos: “O mais importante é ensinar que o preconceito está errado”.

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O papel da família

Quando fala dos pais e do irmão, Débora faz questão de reconhecer o papel da família. "É meu porto seguro”, diz.

Quando Débora nasceu não existiam especialistas no Rio grande do Norte
Quando Débora nasceu não existiam especialistas no Rio grande do Norte Quando Débora nasceu não existiam especialistas no Rio grande do Norte

Mas a sua mãe, a advogada Margarida Seabra, lembra bem como foi difícil receber a notícia de que a filha tinha síndrome de Down. Ela afirma que, no início da década de 1980, não existiam especialistas em Down no Rio Grande do Norte.

“Há 36 anos, quando a Débora nasceu, foi uma hecatombe. Ninguém tinha uma Débora para a gente se espelhar, para ver o que fazer. Ela sabe disso, eu cheguei a desejar que ela morresse, mas tudo mudou quando eu vi quanta vida ela tinha pela frente. A gente decidiu oportunizar para ela tudo o que se oportuniza para uma filha. Eu decidi que ela era a minha filha e teria tudo o que qualquer filha teria. Ela cresceu e o amor se sobrepôs à deficiência”, conta a mãe, emocionada.

Depois da turbulência, a família decidiu tratar a menina como uma criança tão capaz quanto todas as outras. Durante toda a vida escolar, frequentou uma escola regular, o ensino especial nunca foi cogitado. Em casa, ela era tão cobrada quanto o irmão um ano mais velho.

“Nós nunca tivemos preconceito. Tivemos, sim, a dor de ter um filho diferente, que não sabíamos como educar, mas com amor fomos descobrindo o caminho e, hoje, ela devolve todo o nosso esforço com amor e sucesso. Ela é uma mulher que faz a história”, fala, orgulhosa, dona Margarida.

Em 2016, Débora foi a responsável por acender a tocha paralímpica
Em 2016, Débora foi a responsável por acender a tocha paralímpica Em 2016, Débora foi a responsável por acender a tocha paralímpica

O que é a síndrome de Down

A síndrome de Down é uma alteração genética, um cromossomo a mais no par de número 21, por isso o problema também é conhecido como trissomia 21.

Essa alteração genética afeta o desenvolvimento da pessoa e determina algumas características físicas e cognitivas como orelhas mais baixas, língua mais grossa e pesada, olhos puxados, fraqueza muscular e atraso no desenvolvimento motor.

Tanto o desenvolvimento físico quanto o desenvolvimento cognitivo e intelectual são mais lentos em uma criança com síndrome de Down do que nas outras crianças, mas isso não significa que uma criança com a síndrome não consiga aprender a ler, escrever e não seja capaz de estudar e ter uma profissão.

A pediatra Ana Cláudia Brandão, do Centro de Especialidades Pediátricas, do Hospital Israelita Albert Einstein, explica que o papel da família nessa evolução é fundamental.

"A familia tem uma importância absurda para qualquer criança, uma criança sem afetividade, sem o amor da família, não se desenvolve bem. Falando em criança com deficiência, certamente, esse apoio faz um pouco mais de diferença. A gente ainda vive em uma sociedade onde a insistência dos familiares é fundamental para a criança ocupar seu espaço", explica a médica.

A pediatra também lembra que a legislação brasileira garante a educação inclusiva, mas lamenta: "Na prática isso não acontece de forma espontanea, é preciso que a família reconheça a importância da criança crescer incluída nos espaços, nos clubes, igrejas, grupos, tem que reconhecer, acreditar que isso é possível e dar a ela as oportunidades de inclusão".

O processo de educação de uma criança com down pode ser desgastante, a família precisa ter forças para lutar contra a falta de informação. Educação inclusiva não é uma novidade, o Brasil discute o assunto há 20 anos, segunda a pediatra, mesmo assim algumas escolas ainda recusam alunos com o argumento de que não estão preparadas para receber uma criança com a síndrome. "As escolas já deveriam ser pcapazer de receber e fazer um bom trabalho, já deveriam estar preparadas para isso", afirma Ana Cláudia Brandão.

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