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Tecnologia e Ciência
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Estudantes de 17 anos ajudam a Nasa a descobrir dois asteroides

No Dia Internacional das Mulheres e das Meninas na Ciência, conheça a contribuição de duas brasileiras na exploração espacial

Tecnologia e Ciência|Sofia Pilagallo, do R7*

Micaele Gomes (à esquerda) e Laura Dias (à direita)
Micaele Gomes (à esquerda) e Laura Dias (à direita) Micaele Gomes (à esquerda) e Laura Dias (à direita)

Nesta quinta-feira (11), Dia Internacional das Mulheres e das Meninas na Ciência, as estudantes da rede pública Micaele Gomes e Laura Dias, ambas de 17 anos, têm muito a comemorar. Graças ao projeto de ciência cidadã "Caça Asteroides", promovido pelo IASC (International Astronomic Search Collaboration), da Nasa, a agência espacial norte-americana, elas descobriram, juntas, nada mais, nada menos, do que dois asteroides vagando pelo espaço — e o mais impressionante: sem sair de casa.

O feito é fruto de um grupo de estudos monitorado pela estudante do curso de Física da Unesp (Universidade Estadual Paulista), Helena Carrara, 22 anos. Com o isolamento social imposto pela pandemia da covid-19, ela se viu obrigada a interromper seu projeto de iniciação científica, que exigia idas frequentes ao observatório da universidade, e encontrou na iniciativa da Nasa uma oportunidade para complementar sua pesquisa.

"No ano passado, assisti a uma palestra no EPA (Encontro Paulista de Astronomia) e fiquei sabendo do projeto. Decidi, então, criar o 'Astroscopy', formado por três meninas, incluindo a Micaele e a Laura, e dois meninos", afirma Helena.

"O objetivo da Nasa é contar com a cooperação de cidadãos do mundo todo para analisar as imagens capturadas pelos telescópios — algo que os astrônomos profissionais não têm muito tempo para fazer — e, assim, contribuir com novas descobertas sobre o universo", completa.

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Helena Carrara foi a monitora do grupo de estudos que levou às descobertas
Helena Carrara foi a monitora do grupo de estudos que levou às descobertas Helena Carrara foi a monitora do grupo de estudos que levou às descobertas

Para analisar essas imagens, os estudantes contaram única e exclusivamente com a ajuda de um software chamado Astromérica, o que possibilitou que eles fizessem toda a pesquisa de forma integralmente remota.

Os alunos começaram a ser treinados por Helena no início de novembro do ano passado, quando o grupo foi criado, e cerca de um mês depois, receberam da Nasa o primeiro set oficial de imagens.

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Durante os treinamentos, que eram realizados virtualmente uma vez por semana, Helena explicou aos estudantes que eles precisavam ficar atentos a três principais características: forma arredondada, magnitude (brilho aparente) constante e trajetória em linha reta. Se tudo estivesse de acordo, isso era um indicativo de que poderia, de fato, se tratar de um asteroide.

Apesar de algumas dificuldades pontuais, Micaele e Laura avaliam que o processo correu sem grandes problemas. "Dificuldade nós tivemos uma vez ou outra para entender como funcionava o software, mas sempre tinha alguém para ajudar", afirma Micaele. "Nós sempre nos apoiávamos muito — não tinha aquele instinto de competição, mas, sim, de aprender e colaborar um com o outro."

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"No começo, foi um pouco complicado porque me disseram que eu teria que baixar um software e meu computador não é muito bom para isso", diz Laura. "Mas, no final, deu tudo certo."

Uma vez feitas as análises, os relatórios produzidos pelos estudantes eram enviados ao IASC e avaliados por astrônomos profissionais da Nasa. Os resultados demoram alguns dias para serem divulgados.

Micaele foi a primeira a ser informada de que havia realizado a descoberta, logo no primeiro set de imagens analisado pelo grupo. "Eu fiquei algum tempo sem acreditar. Quando saiu o resultado no site do IASC, eu pensei 'será que não digitaram meu nome errado?'. Acho que a ficha só caiu mesmo quando o pessoal começou a me perguntar 'como você se sente por ter descoberto um asteroide?'".

“Nós sabíamos que poderia haver essa possibilidade, mas eu não estava botando tanta fé. Em um primeiro momento, fiquei muito surpresa, mas depois me enchi de felicidade e orgulho”, completa.

Cerca de uma semana depois, foi a vez de Laura. "A Helena falou que haviam saído os resultados e que mais uma integrante do grupo havia descoberto um asteroide. Quando vi meu nome, não acreditei", afirma. "Fui correndo contar para os meus pais, mas eles não entenderam muito bem. Eles disseram: 'Como você descobriu isso se passa o dia todo enfurnada nesse quarto?'", completa.

Asteroide descoberto por Laura
Asteroide descoberto por Laura Asteroide descoberto por Laura

O próximo passo agora está na mão dos astrônomos profissionais da Nasa, que analisarão P11bEV1 e P11bNcu, como foram nomeadas provisoriamente as rochas espaciais, por pelo menos alguns anos. Durante a pesquisa, eles esperam determinar a órbita exata dos astros, onde estão localizados e se podem vir a entrar em rota de colisão com a Terra em um futuro distante.

Uma vez feito isso, as jovens cientistas poderão finalmente escolher um nome para os asteroides. Micaele pretende batizar P11bEV1 com o nome de sua mãe, Sandra. Já Laura, a princípio, queria colocar o seu próprio nome, mas com uma rápida pesquisa no Google, descobriu que já existia um asteroide chamado Laura 467. Com isso, ela também decidiu batizar P11bNcu com o nome de sua mãe, Rosilene.

Trajetória e planos para o futuro

Apesar de a paixão das adolescentes pela astronomia ter surgido aproximadamente na mesma época — entre o 9º ano do Ensino Fundamental e o 1º ano do Ensino Médio —, Micaele teve uma trajetória um pouco diferente da colega de grupo. Nascida em uma pequena cidade no interior de Pernambuco, "Mica", como é chamada pelos amigos, se mudou para São Paulo em 2017 para tentar carreira como atriz e ajudar a família financeiramente.

"Quando vim para São Paulo, meus pais me matricularam em uma escola municipal de ótima qualidade, onde tive a oportunidade de ter um contato mais profundo com os estudos. Foi lá também que conheci a OBA (Olímpiadas de Astronomia e Astronáutica), da qual participei e acabei me consagrando campeã", diz.

"Então, ao mesmo tempo em que estava estudando teatro, estava também colocando ali o pé na ciência, descobrindo como se fazia ciência no Brasil e as oportunidades que eu poderia ter na minha vida por meio dela", completa.

Até aquele momento, Micaele não tinha pensado em seguir uma carreira como cientista. Ela cresceu ouvindo de seus pais sobre a importância de trabalhar, não de estudar para cursar uma graduação e construir uma carreira na profissão escolhida.

"O foco da minha família sempre foi trabalhar, e tudo bem, eu não os culpo. Eles não tiveram muitas oportunidades. Lembro que quando eu era criança, meu sonho era fazer 14 anos logo para poder trabalhar como jovem aprendiz e ajudar a minha mãe. Nunca imaginei que pudesse chegar tão longe", afirma. "Hoje em dia, tenho muitos sonhos. Quero cursar uma graduação em Engenharia Aeroespacial ou Astrofísica, estudar fora, fazer mestrado e doutorado e seguir na pesquisa."

Atualmente, Micaele já participa de um projeto de pesquisa da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) na área de astrobiologia. O objetivo do estudo é descobrir a probabilidade de vida no espaço e o impacto do transporte interplanetário em ambientes extraterrestres.

Desde julho do ano passado, a adolescente também dá aulas de astronomia, como parte de um projeto que visa preparar meninas para a as olimpíadas científicas nas áreas de Ciências e Biológicas.

Laura, por sua vez, está dividida entre duas opções bastante distintas: Astronomia e Filosofia. De um jeito ou de outro, é fato que a jovem cientista gosta de pensar fora da caixa e enxergar para além do que nossos olhos conseguem ver.

*Estagiária do R7 sob supervisão de Pablo Marques

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