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O México enfrentou uma das campanhas eleitorais mais sangrentas de sua história

Segundo apuração, país registrou 36 assassinatos de candidatos a cargos públicos no país no último ano

Internacional|Emiliano Rodríguez Mega e Simon Romero, do The New York Times

México registrou 36 assassinatos de candidatos a cargos públicos no último ano (Cesar Rodriguez/The New York Times - 08.05.2024)

Quando os tiros começaram, Gisela Gaytán, advogada de 37 anos, tinha acabado de chegar a um evento no primeiro dia de sua campanha eleitoral para a prefeitura no coração industrial do centro do México. Logo depois, seu corpo sem vida jazia em uma poça de sangue. Seu assassinato em plena luz do dia reflete uma tendência macabra das eleições gerais mexicanas deste ano: Gaytán é uma das 36 pessoas assassinadas no último ano que aspiravam a um cargo público, segundo uma análise do “The New York Times”, tornando este um dos ciclos eleitorais recentes mais sangrentos.

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Os assassinatos de candidatos apontam para uma ameaça à democracia do país. Os eleitores votaram no último domingo, dois de junho, em uma eleição acalorada que resultou na vitória de Claudia Sheinbaum, primeira mulher presidente do México, marco histórico no maior país de língua espanhola do mundo.

Mas os analistas e as autoridades de segurança afirmam que os cartéis que se tornaram mais influentes estão espalhando o medo nas disputas locais à medida que ampliam seu alcance para esquemas de extorsão, tráfico de imigrantes e produção de alimentos.

Para aumentar ainda mais o terror, não só os candidatos, mas também seus familiares estão se tornando, cada vez mais, alvo de ataques – pelo menos 14 deles foram assassinados nos últimos meses. Alguns casos foram notoriamente horríveis: neste mês, no estado de Guerrero, foram encontrados os corpos desmembrados de um candidato a vereador e de sua esposa. Grupos armados também estão transformando alguns dos assassinatos em tiroteios em massa. No estado de Chiapas, também neste mês, um grupo de homens armados matou uma candidata à prefeitura e outras sete pessoas, incluindo a irmã dela e uma criança.

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Com mais de 20 mil cargos locais disputados, essa foi a maior eleição de todos os tempos no México (Cesar Rodriguez/The New York Times - 08.05.2024)

Para maximizar seus lucros, os grupos criminosos precisam que as pessoas eleitas sejam flexíveis. Ameaças e subornos podem garantir que o prefeito de uma pequena cidade ou um membro do conselho municipal ignore atividades ilícitas. Mas, segundo os analistas, como o derramamento de sangue em localidades de todo o México deixa dolorosamente claro, os candidatos que se atrevem a se desviar dessa cooperação correm o risco de ser assassinados. Como resultado, muita gente desiste da disputa. Alguns partidos políticos se retiraram de determinados lugares porque não conseguiram encontrar pessoas dispostas a concorrer. Em vez de buscar eleitores em ambientes públicos, algumas campanhas locais migraram principalmente para a internet.

Quase semanalmente, mais candidatos são visados – outros até depois das eleições. Desde a morte de Gaytán, em primeiro de abril, que chocou a cidade de Celaya, pelo menos outros oito candidatos foram assassinados no país inteiro. Os ataques se intensificaram em estados onde os grupos criminosos se fragmentaram em várias gangues, todas competindo ferozmente pelo poder. Outra razão para a magnitude da matança é o tamanho dessas eleições. Com mais de 20 mil cargos locais disputados, foi a maior de todos os tempos no México.

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Sandra Ley, analista de segurança do México Avalia, grupo de políticas públicas, afirmou que os assassinatos mostraram que os grupos do crime organizado estão protegidos por funcionários locais corruptos ou intimidados. De acordo com ela, “os cartéis precisam de acesso a recursos e informações que são fundamentais para eles no dia a dia”.

Apesar dos ataques, o presidente Andrés Manuel López Obrador e outras figuras do Morena, seu partido, têm, em grande parte, minimizado o perigo. Mas o assassinato de Gaytán, que era membro do mesmo partido, chocou o país, e López Obrador falou sobre isso aos jornalistas no dia seguinte, em sua coletiva de imprensa matinal: “Esses acontecimentos são muito lamentáveis porque são pessoas que estão lutando para fazer valer a democracia.” Mas também sugeriu rapidamente que o assassinato estava relacionado aos altos níveis de violência em Guanajuato, estado onde fica Celaya, e não às eleições do México.

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‘Abraços, não balas’

Duas semanas antes do pleito, a Secretaria de Segurança e Proteção Cidadã do país afirmou que estava fornecendo proteção a 487 candidatos.

Segundo especialistas em segurança, parte do aumento da violência dos cartéis tem a ver com a própria estratégia de segurança do presidente mexicano. López Obrador assumiu a presidência em 2018 prometendo reformar a estratégia do país contra o crime, com ênfase em enfrentar a pobreza que leva os jovens a ingressar nas gangues criminosas, em vez de combater agressivamente os cartéis nas ruas.

O plano, ao qual o presidente chamou de “abraços, não balas”, teve certo sucesso. Coincidiu com uma diminuição dos assassinatos em massa que surgiram quando as forças de segurança enfrentavam os grupos armados, embora relatórios recentes sugiram que houve exceções durante seu governo. “Teve, digamos, um efeito não desejado muito prejudicial. Como a maioria dos grupos criminosos foi deixada em paz, eles se fortaleceram e expandiram sua presença para novas áreas”, afirmou Eduardo Guerrero, consultor de segurança que vive no México.

A violência eleitoral se alastrou por estados nos quais esse tipo de ataque não existia nas eleições anteriores, sobretudo em Chiapas, estado mais pobre do México. Nos últimos tempos, tem havido um banho de sangue na região, à medida que dois cartéis notórios e várias facções lutam pelo controle da fronteira do país com a Guatemala, ao sul. Pelo menos seis pessoas que concorriam a algum cargo público foram assassinadas no estado desde dezembro, de acordo com um levantamento do “Times”.

Esse tipo de homicídio está dilacerando a estrutura democrática do México. “Quem vai querer ir a um comício no qual existe o risco de uma bomba ser lançada por um drone?”, perguntou Guillermo Valencia, líder do Partido Revolucionário Institucional (PRI), do estado de Michoacán, onde, em fevereiro, homens armados assassinaram dois pré-candidatos de partidos rivais à prefeitura da cidade de Maravatío, no mesmo dia. Antonio Carreño, coordenador estadual do partido Movimento Cidadão, do mesmo estado, disse que pelo menos sete candidatos de seu partido abandonaram a disputa. Ele duvida que o México possa se orgulhar de ter eleições livres e estado de direito: “A questão é clara: onde está a democracia?”

O estado no qual Gaytán foi assassinada, Guanajuato, onde uma economia vibrante coexiste com desafios de segurança latentes, deixa claros os riscos enfrentados pelas pessoas que se candidatam a algum cargo público.

Acompanhada por uma guarda-costas particular, Gaytán tinha acabado de iniciar sua campanha, e estava plenamente consciente do perigo que enfrentava. Poucas horas antes de seu assassinato, em um comício local, ela havia anunciado alguns de seus planos para tornar a cidade de Celaya mais segura: prometeu deter as atividades dos oficiais corruptos, melhorar os salários e as condições de trabalho dos policiais e instalar botões de pânico e câmeras de vigilância na cidade inteira.

Antes de ser assassinada, o partido Morena havia solicitado proteção para ela e outros oito candidatos a prefeito do estado de Guanajuato, informou Jesús Ramírez Garibay, secretário-geral do comitê estadual do partido. Mas a solicitação, acrescentou, ficou em um limbo burocrático durante semanas, passando por autoridades federais e estaduais sem ser aprovada: “Esses candidatos ficaram desprotegidos porque não houve uma intervenção rápida do instituto eleitoral do estado e do governo estadual. Começaram a campanha por conta própria, só com a bênção de Deus.”

Não só os candidatos, mas também seus familiares estão se tornando, cada vez mais, alvo de ataques (Cesar Rodriguez/The New York Times - 08.05.2024)

Em entrevista, Alvar Cabeza de Vaca, secretário de Segurança Pública do estado, afirmou que seu escritório nunca recebeu uma solicitação de proteção para Gaytán, e alegou que, segundo uma análise de risco feita por Guanajuato em dezembro, que estudou a vulnerabilidade de cada candidato, ela não teria precisado disso: “Ela estava em um nível de risco baixo. Mas isso não é tão relevante. O importante para mim foi que não recebi uma solicitação. Independentemente de nossa análise interna, quem solicita proteção a recebe.”

Ameaças e mortes

Alma Alcaraz, candidata do Morena ao governo do estado de Guanajuato, disse depois da morte de Gaytán que começou a receber ameaças: “As mensagens começaram a aparecer, dizendo: ‘Você é a próxima; saia da disputa; desista.’”

Cabeza de Vaca informou que, até pouco tempo antes das eleições, os policiais estaduais e municipais de Guanajuato protegeram 255 candidatos locais. Mas as condições que transformaram o estado – sobretudo Celaya – em um caldeirão de violência persistiram.

Guanajuato abriga uma variedade de fábricas, parte de um boom de “nearshoring”, no qual empresas transferiram indústrias da China para o México. Mas também é um lugar onde dois cartéis, Santa Rosa de Lima e Jalisco Nova Geração, estão envolvidos em um conflito prolongado sobre operações de extorsão e por território para a venda de metanfetamina. Um lucrativo comércio de combustível roubado, uma força policial enfraquecida e guerras territoriais criminosas transformaram Guanajuato em um campo de batalha. Os homicídios diminuíram em relação aos níveis da era da pandemia, mas os dados do governo mostram que continuam excepcionalmente altos, com pelo menos 2581 assassinatos registrados em 2023, mais do que em qualquer outro estado do país.

A Procuradoria-Geral do estado de Guanajuato declarou neste mês que as autoridades haviam prendido sete suspeitos de uma “célula criminosa” não identificada por seu envolvimento no assassinato, e que ainda mais pessoas poderiam estar envolvidas. À medida que aumentam as tensões políticas pelo assassinato de Gaytán, outros candidatos locais estão analisando o significado de continuar envolvido na política.

Juan Miguel Ramírez, professor universitário que substituiu Gaytán na cédula eleitoral, disse que a campanha se transformou em um exercício surreal no qual ele foi escoltado por uma dúzia de soldados uniformizados, mesmo para dar aulas. Em um dia sufocante de maio, ele até chegou a demonstrar grande confiança em suas chances, mas admitiu que o clima de medo em Celaya e o destino de sua antecessora o fizeram suavizar seu discurso eleitoral. Evitou se concentrar nos desafios de segurança da cidade, como ela fez. “Existem muitos grupos criminosos em Celaya, e alguns deles não gostaram dessa proposta. Com base nisso, optei por fazer propostas mais gerais.”

c. 2024 The New York Times Company

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