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Até a página dois! 

Luto por uma entrevista ou por uma imagem até onde ela pode acrescentar na reportagem, sem desrespeitar ou invadir o espaço de ninguém.

Conversa de Repórter|LUCAS CARVALHO, do R7 e Lucas Carvalho

Tragédia em parque de diversões:
professora morre em brinquedo
Tragédia em parque de diversões: professora morre em brinquedo Tragédia em parque de diversões: professora morre em brinquedo

O jornalismo, às vezes, é um pouco inconveniente. Na segunda-feira, fui até o velório de uma professora, de 42 anos, que morreu em um parque de diversões no interior de São Paulo. Ela e o filho, de sete, saíram da pista na descida de um tobogã e foram arremessados contra a grade de proteção. A mulher não resistiu, mas o menino sobreviveu.

Quando cheguei ao cemitério, alguns colegas jornalistas já estavam no portão do cemitério. Ninguém foi autorizado a entrar pela família. Pouco tempo antes, a irmã da vítima já tinha ido conversar com os repórteres para pedir privacidade e dizer que nenhum parente gravaria entrevista.

Pra mim, não há nada mais constrangedor do que ter que buscar informação num velório. Abordar alguém na hora do luto é estranho. Parece que a gente não tem empatia, respeito, sensibilidade. Mas não é isso. Faz parte do ofício tentar ouvir pessoas ligadas à história que a reportagem precisa contar.

Cada repórter tem sua forma de lidar com esse tipo de situação. Particularmente, não costumo forçar a barra. Devo confessar até que, provavelmente, estando do outro lado eu também evitaria falar com a imprensa. Mas na busca pela notícia e pelos elementos necessários para a construção de uma matéria, procuro ser o mais sincero possível.

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Não chego, chegando. Não chegou com o microfone em punho. Não chego exigindo nada. Aliás, sem o menor problema, eu digo à pessoa que não era ali que eu gostaria de estar. É porque, muitas vezes, parece que jornalista gosta de tragédia, velório, sofrimento, como se isso definisse a profissão. Eu não gosto, não.

Nunca perdi nada por tentar ser respeitoso. Um dos casos mais marcantes, pra mim, e que melhor traduz o que estou dizendo foi a cobertura da morte do menino Kayque, atropelado na calçada da oficina dos pais por um motorista bêbado. Já contei essa história aqui no blog. Mas, resumidamente, preferi assistir de longe ao sofrimento da família ao invés de me aproximar e correr o risco de passar do ponto.

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Já fazia algum tempo que o cinegrafista e eu estávamos distantes, trabalhando, apenas, com as informações oficiais da polícia, quando um parente do garoto atravessou a rua e veio conversar comigo. "Vi que vocês estão aí, no mesmo lugar, desde a madrugada. Não querem entrar na borracharia pra filmar lá dentro?", perguntou.

O homem autorizou nossa aproximação, agradeceu nossa postura e ainda me apresentou ao pai de Kayque, com quem gravei entrevista e mantive contato depois. Ser repórter é saber identificar o momento certo de agir. Às vezes, o melhor é não fazer nada. A situação vai direcionando.

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Faço essa reflexão porque, honestamente, cobrir velório – sobretudo, em situações trágicas, inesperadas – não me agrada em nada. Faço pelo dever e me esforço pra entregar o melhor em nome do ofício, que nunca é fácil. Mas "luto" por uma entrevista ou por uma imagem até onde ela pode acrescentar na reportagem, sem desrespeitar ou invadir o espaço de ninguém.

O jornalismo, vivido na prática, na rua, onde a notícia acontece, não é burocrático. Ele não se justifica por números, audiência, tempo, estratégia. Ele, simplesmente, acontece e para que dê certo é preciso aprender a transitar entre razão e emoção.

Reportagem completa exibida no Balanço Geral

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