Caso Kayque: do factual à empatia

Testemunhar histórias de dor, dói na gente também. Não é só pegar o microfone e sair falando. É saber o que falar, como falar, como agir. É saber se distanciar e o momento certo de se aproximar.

Kaique estava na calçada em frente à borracharia do pai quando foi atropelado

Kaique estava na calçada em frente à borracharia do pai quando foi atropelado

Reprodução/Record TV

Quase um ano e meio depois e os gritos da mãe ainda ecoam nos meus ouvidos. "Não vou conseguir perder meu filho". O desespero do pai, diante daquela tragédia, me causou arrepios. "Ele era a coisa mais linda do mundo". Kayque morreu atropelado enquanto brincava na calçada da borracharia do pai, na zona sul de São Paulo. Ele tinha só quatro anos. Morreu sem ter a chance de, ao menos, tentar se salvar. Morreu antes mesmo do socorro.

Era madrugada de segunda-feira. A família de Kayque estava em uma festa organizada dentro da oficina. De repente, o motorista de um carro desgovernado invadiu o local e atropelou três pessoas. Entre elas, o menino, que foi prensado contra a parede.

O homem que dirigia o veículo fugiu sem prestar socorro às vítimas. Mas algumas testemunhas conseguiram identificá-lo. O motorista já havia passado por um cruzamento com o carro fora de controle. Naquele momento, os ânimos estavam à flor da pele. Era uma mistura de sentimentos. Ao mesmo tempo em que a família, incrédula, buscava forças pra encarar aquele desfecho, havia um desejo latente por justiça.

Polícia Militar preservando o local do acidente

Polícia Militar preservando o local do acidente

Reprodução/Record TV

Chegamos ao local pouco tempo depois do acidente. Comigo, estavam o repórter cinematográfico Ronaldo Gouveia e o operador de sistemas Marcelo Polen. Descemos do carro faltando poucos minutos para o início do Balanço Geral Manhã. Evidentemente, aquela seria uma das principais histórias do dia. De longe, ouvimos o choro desesperado da mãe. Era um clima pesadíssimo. Decidimos não avançar. Ficamos posicionados num ponto em que conseguíamos mostrar o cenário, mas sem invadir a privacidade dos familiares. Alguns colegas jornalistas não fizeram o mesmo.

Só que nós, definitivamente, não nos sentíamos à vontade, sequer, pra procurar os parentes e tentar alguma palavra. Não tínhamos coragem de procurá-los nem pra oferecer nossos sentimentos. Estávamos ali porque nosso trabalho exigia que estivéssemos. A gente não queria – nem poderia – se aproximar dos pais que ainda gritavam, desesperados, diante do corpo do filho dentro da oficina.

"Eu, o tempo todo, preferi me manter distante"; entrada, ao vivo, no Balanço Geral Manhã

"Eu, o tempo todo, preferi me manter distante"; entrada, ao vivo, no Balanço Geral Manhã

Reprodução/Record TV

Entramos no ar com as informações que tínhamos. Tivemos o máximo de cuidado e respeito. Esse tipo de cobertura exige uma postura sensível da equipe. Não é, apenas, a notícia que importa. Importam os sentimentos das pessoas envolvidas. Fizemos diversas entradas ao vivo ao longo do jornal. Eu, o tempo todo, preferi me manter distante. Fiquei acompanhando tudo do outro lado da calçada.

Já fazia algum tempo que estávamos ali quando um parente atravessou a rua e veio conversar comigo. "Vi que vocês estão aí, no mesmo lugar, desde a madrugada. Não querem entrar na borracharia pra filmar lá dentro?", perguntou. Fiquei surpreso com aquela atitude. "Claro, se não tiver problema, queremos sim. A gente só quer respeitar o espaço da família", respondi. O homem autorizou nossa aproximação, agradeceu nossa postura e ainda me apresentou ao pai do Kayque, com quem gravei entrevista. Lá dentro, o cenário era desolador. A mãe, num canto, desolada, e um bolo, em cima da mesa, que nem chegou a ser cortado.

Testemunhar histórias de dor, dói na gente também. Não é só pegar o microfone e sair falando. É saber o que falar, como falar, como agir. É ter respeito pelo outro. É saber se distanciar e o momento certo de se aproximar. Naquele momento, ganhei a confiança da família. Peguei o contato deles e, praticamente, todos os dias trocávamos mensagens. Quis acompanhar, de perto, a investigação. Ficamos no caso até a prisão do jovem, de 23 anos, que só aconteceu quase dez dias depois. Esse caso é emblemático pra mim. Primeiro, pela história, em si. Depois, por ter conseguido informações importantes sem ter avançado o sinal vermelho. Posso ter 50 anos de profissão. Jamais serei calejado o suficiente ao ponto de não me colocar no lugar do outro. Se for pra ser assim, não sirvo. Não, mesmo.

Veja um trecho da cobertura no Balanço Geral Manhã:

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