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Três em cada quatro pilotos de aéreas europeias admitem cochilar em serviço

No Brasil, especialista em efeitos da fadiga sobre tripulantes diz que país poderia ter avançado na legislação a respeito do tema, que em muitas vezes foi responsável por incidentes e acidentes na aviação mundial

Luiz Fara Monteiro|Luiz Fara Monteiro e Luiz Fará Monteiro

Piloto faz imagem de 'cochilo a bordo'
Piloto faz imagem de 'cochilo a bordo' Piloto faz imagem de 'cochilo a bordo'

Esta foto foi postada pelo piloto Bjorn da companhia aérea escandinava SAS há cerca de três anos. Na imagem, o aviador aparece deitado com cobertor e travesseiro na cabine de um moderno Airbus A350. O cochilo, no caso, é proposital e controlado, com seu companheiro de cabine monitorando a soneca do colega. O problema de um piloto dormir na cabine é quando o sono atrapalha ou compromete sua atenção às operações em voo.

Cerca de 75% dos pilotos europeus cochilaram enquanto operavam uma aeronave no mês passado, de acordo com uma nova pesquisa.

Dos quase 7.000 pilotos entrevistados pela consultoria de segurança da aviação Baines Simmons, em nome da European Cockpit Association, pouco menos da metade relatou ter de um a quatro “microssonos”, enquanto 17% tiveram de cinco a nove microssonos. Apenas 24% dos entrevistados disseram que nunca tiveram um microssono.

Microssono é basicamente quando você adormece por vários segundos sem ser capaz de controlá-lo e, muitas vezes, você pode nem perceber que adormeceu. Pode parecer que você ainda está acordado durante um microssono, mas seu cérebro não está processando informações, de acordo com a National Sleep Foundation.

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Entre os insights do relatório: apenas 22,4% dos pilotos europeus acreditam que o risco de fadiga é “na sua maioria bem gerido” ou “muito bem gerido” pelas suas companhias aéreas, em comparação com 53,2% que dizem o contrário. Cerca de 73% dos entrevistados disseram que “sempre”, “geralmente” ou “às vezes” tiveram descanso insuficiente para se recuperar da fadiga entre as tarefas.

Apenas 8,7% disseram que “nunca” tiveram tempo insuficiente para se recuperar.

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Baines Simmons escreveu que as companhias aéreas deveriam fazer mais para combater a fadiga intensa, como tornar os relatórios de fadiga mais acessíveis e melhorar as acomodações para os pilotos cansados.

O risco de fadiga não é de forma alguma apenas uma questão europeia.

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Em agosto de 2022 o blog noticiou que dois pilotos da Ethiopian Airlines dormiram durante um voo e passaram sobre aeroporto onde deveriam pousar.

No Brasil, em outubro de 2022 a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) emitiu uma Instrução Suplementar com orientações para a implementação de um Sistema de Gerenciamento de Risco da Fadiga (SGRF). O RBAC (Regulamentos Brasileiros da Aviação Civil) 117, emitido em março de 2019 e com exigibilidade em 29 de fevereiro de 2020, versa sobre o tema, mas pouco tem se avançado. A própria Anac não seguiu as recomendações da Organização de Aviação Civil Internacional (OACI) da qual o Brasil é signatário.

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"A nova lei do aeronauta trouxe avanços importantes, por exemplo, ao limitar ao máximo de duas madrugadas seguidas de voos. Mas os limites das jornadas não foram experimentados. A Anac não seguiu as recomendações, como resultado, temos limites máximos de jornadas e mínimos de descanso sem ao menos terem sido testados", afirma o comandante Paulo Licati, especialista em estudos sobre os efeitos da fadiga em tripulantes.

A fadiga de aeronautas no Brasil chegou a ser investigada pelo Ministério Público do Trabalho – MPT. A questão por comprovadas vezes causou vários incidentes e acidentes ou atuou como fator contribuinte para eles na aviação mundial.

A Southwest Airlines Pilots Association enviou uma carta ao CEO da companhia aérea, Robert Jordan, e a outros executivos em abril de 2022, com alegações de que “a fadiga, tanto aguda quanto cumulativa, se tornou a ameaça número um à segurança da Southwest Airlines”, de acordo com a Associated Press. O sindicato acrescentou que a frequência de pilotos que pedem dispensa do trabalho com alegação de cansaço aumentou 330% em março de 2022, em comparação com o mesmo mês nos anos anteriores à pandemia.

Na época, uma porta-voz da Southwest disse à AP que a companhia aérea viu um “declínio significativo e constante” do número de pilotos que ligavam cansados ​​“depois que a companhia aérea fez alterações de horário meses antes.

Embora a Administração Federal de Aviação mantenha uma lista de recomendações para reduzir a fadiga dos pilotos, elas abordam sugestões de estilo de vida, e não as operações da empresa.

Por exemplo, a FAA diz: “Ao viajar, selecione hotéis que proporcionem um ambiente confortável”. No entanto, os pilotos há muito se queixam de que as companhias aéreas oferecem acomodações que os impedem de dormir adequadamente ou de não fornecerem acomodações.

Em 2021, a Associação de Comissários de Bordo Profissionais Americanos e a Associação de Pilotos Aliados apresentaram queixas à American Airlines sobre transporte e moradia inadequados, de acordo com a CNBC.

“Temos comissários de bordo que dormem em aeroportos e fora da área de retirada de bagagem, porque a empresa não forneceu acomodações em hotéis em tempo hábil”, disse a presidente nacional da APFA, Julie Hedrick, em um comunicado na época. “O descanso da tripulação está sendo afetado, e quartos limpos, confortáveis ​​e silenciosos não estão sendo fornecidos para o descanso necessário.”

Ainda sobre o Brasil, o comandante Paulo Licati acrescenta:

"Uma das mais basilares e importantes prescrições da Icao, aplicável ao Brasil, uma vez que

é signatário da Convenção Sobre Aviação Civil Internacional (Convenção de Chicago de 1944),

não foi respeitada, qual seja a obrigatoriedade de que tanto uma abordagem prescritiva

quanto uma abordagem baseada no desempenho para a implementação de limites,

programas e controles de gerenciamento da fadiga humana na aviação devem basear-se em

princípios técnico-científicos, conhecimento e experiência operacional."

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