O sumiço dos estadistas

Osvaldo Aranha não viveu para ver o verdadeiro deserto de homens e ideias

  • Augusto Nunes | Do R7

José Cruz/16.04.2016/Agência Brasil

Prefeito de Alegrete com pouco mais de 30 anos, o gaúcho Osvaldo Aranha ingressou numa escola em que ensinavam e aprendiam a arte da política figuras como Borges de Medeiros, Assis Brasil, João Neves da Fontoura, Batista Lusardo e Flores da Cunha. Um dos líderes da Revolução de 1930, Aranha somou ao círculo de gaúchos gente originária de outras paragens — por exemplo, o sergipano Siqueira Campos, o cearense Juarez Távora ou o paulista Armando Salles de Oliveira. Adversários ou aliados, eram homens públicos de raro talento. E ninguém conviveu tão intimamente com Getúlio Vargas quanto o filho da fronteira do Rio Grande do Sul que presidiu a assembleia da ONU que oficializou a criação de Israel.

Se qualificou o Brasil em que vivia de “um deserto de homens e ideias”, o que diria Oswaldo Aranha do país em que vivemos? Como reagiria, por exemplo, se tivesse visto na Presidência da República um analfabeto funcional que acabaria na cadeia por ladroagem? E o que pensaria de Dilma Rousseff, uma cabeça desprovida de neurônios e infestada de ideias imbecis, que desgovernou o Brasil por cinco anos e meio? A geração de Oswaldo Aranha parecia um criadouro de possíveis presidentes da República. No limiar da terceira década do século 21, a paisagem política induz à suspeita de que Brasília é uma usina de nulidades prontas  para assaltar até o cofrinho do neto.

A geração de Aranha lidou com o primitivismo da República Velha, a gripe espanhola, eleições fraudulentas, golpes de Estado, insurreições militares, uma guerra mundial, a ditadura do Estado Novo, a industrialização do país rural, a expansão comunista, o início da Guerra Fria, o suicídio de um presidente da República e outras complicações de bom tamanho. Neste estranhíssimo 2020, um bando de poderosos patifes não sabe sequer lidar com um vírus chinês.


O sumiço de governantes competentes e carismáticos é um fenômeno mundial, mas o Brasil anda exagerando. Nestes trêfegos trópicos, a galeria de retratos presidenciais é um cortejo de demagogos, oportunistas exóticos, napoleões de hospício e larápios ineptos, interrompido de vez em quando por figuras ali infiltradas para lembrar que o gabinete do chefe de governo não abrigou apenas esquisitices. O Congresso já foi menos lastimável. Onde houve um Ulysses Guimarães agora há Rodrigo Maia. Os acordos que o senador Tancredo Neves costurava se apoiavam em princípios. Cargos e verbas bastam para os acertos com Davi Alcolumbre. Com a extinção dos cardeais, o baixo clero está no comando.

Nelson Rodrigues constatou há 50 anos que os idiotas haviam perdido o pudor e estavam por toda parte. Não poderiam ficar fora do Supremo Tribunal Federal. A toga, como atestam os votos e palavrórios de Gilmar Mendes, transforma qualquer bacharel em Direito num semideus de botequim, pronto para deliberar sobre tudo, em especial sobre assuntos que desconhece profundamente. Meses atrás, o time das 11 Excelências resolveu uma pendência futebolística que se arrastava desde o século passado: o título de campeão brasileiro de 1987 pertence mesmo ao Flamengo, não ao pernambucano Sport. Na semana passada, cinco ministros tentaram declarar inconstitucional um artigo da Constituição.


No início da pandemia de coronavirus, o Pretório Excelso proibiu o presidente da República de coordenar o combate ao pesadelo sanitário de dimensões nacionais. O comando da guerra foi entregue a governadores e prefeitos, mas nenhum tiro pode ser disparado sem a aprovação da Justiça. A ressalva malandra subordinou os métodos de combate concebidos pelas administrações estaduais e municipais aos humores do Ministério Público e à vontade dos juízes de distintas instâncias.

Se vivesse para ver o que anda acontecendo, Oswaldo Aranha saberia que seu deserto de homens e ideias era muito menos perigoso que um ajuntamento de tiranetes municipais e monarcas estaduais amparados por juízes sem juízo. A maluquice da vez é o toque de recolher, que suspende durante longas horas o direito de ir e vir. A Constituição estabelece que essa medida extrema só pode ser decretada pelo presidente da República e se estiver em vigor o estado de sítio.   Assustado com a pandemia, o governador Reinaldo Azambuja decidiu que Mato Grosso do Sul estará submetido ao toque de recolher a partir desta segunda-feira. Essa turma ainda vai fazer o vírus chinês morrer de rir.

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