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Turismo de favela: até quando vamos aceitar a exploração da pobreza?

Com a pandemia, a miséria só aumentou no país e não deveria, em hipótese alguma, ser tratada como mercadoria

Refletindo Sobre a Notícia por Ana Carolina Cury|Do R7 e Ana Carolina Cury

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Se você já esteve no Rio de Janeiro, com certeza foi impactado pelas belezas naturais da região. A cidade atrai turistas do mundo inteiro. Mas, além dos passeios pelas praias, há um tipo de lazer polêmico e passível de questionamento que vem crescendo nos últimos anos: o turismo pelas favelas cariocas.

O contraste entre os morros repleto de casas de pau a pique, construídas em locais de risco, e os prédios luxuosos chama a atenção de quem passa pelos bairros cariocas. Por isso as comunidades são procuradas por aqueles que querem explorar a vista dos morros, participar de rodas de samba, bailes funk e, sobretudo, observar o dia a dia de quem mora ali.

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Turismo em favelas faz da pobreza uma mercadoria
Turismo em favelas faz da pobreza uma mercadoria

É comum que o turismo vise mostrar todos os elementos históricos e sociais de um local, e nem sempre isso é negativo. Porém o problema acontece na forma como esses passeios são executados, tornando-se muitas vezes um espetáculo da pobreza para os visitantes.

No Rio de Janeiro, por exemplo, antes da pandemia, era comum encontrar pacotes turísticos para conhecer favelas como Santa Marta, Rocinha e Vidigal, entre outras.

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Ver gringos e até brasileiros em cima de jipes e caminhonetes, como se estivessem em um safári, era algo comum.

"Tratar as pessoas que vivem nesses locais como personagens exóticos é um absurdo, é uma exploração da pobreza alheia. Em vez de os governos fazerem algo para melhorar a situação das comunidades, incentivam a miséria por meio desse tipo de turismo." Foi com essas palavras que um carioca que não quis se identificar detalhou como vê esse tipo de "atração".

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Incentivo político

Em 2010, na favela Dona Marta, no Rio de Janeiro, o ex-presidente Lula lançou e incentivou esse tipo de exploração, com o Rio Top Tour. Lula, apesar de dizer que tinha as melhores intenções, só transformou a miséria em atração turística, claramente querendo passar uma imagem aos estrangeiros de que quem vive em condições precárias é feliz. Era como se ele estivesse dizendo "pacifiquei os pobres e os transformei em atração turística". 

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Para o sociólogo Thiago Cortês, não há nada que revele mais progressismo do que a predileção consciente pela pobreza. "O psiquiatra Theodore Darymple resumiu em grandes lições a experiência de décadas atendendo na periferia de Londres e, posteriormente, em países subdesenvolvidos. Uma delas é que os políticos progressistas enxergam miseráveis da mesma maneira que traficantes veem viciados: como um nicho de mercado. Quanto mais viciado, mais dependente do traficante. Quanto mais pobre, mais dependente do Estado."

Para o especialista, não é surpreendente, embora seja revoltante, que políticos tenham inaugurado no Brasil o turismo de favela. "A finalidade é romantizar o estado de pobreza de pessoas submetidas ao regime de terror da violência, da corrupção e das drogas. Lula é um dos personagens principais da narrativa de romantização da pobreza e dos pobres."

Reflexão social

Esse não é um problema restrito ao Rio de Janeiro. Caminhar pelas ruas de Paraisópolis, a maior favela de São Paulo, também pode ser uma experiência turística.

E normalmente são estrangeiros que buscam viver esses momentos. Curiosidade? Desejo de ajudar? Vontade de viver outra realidade? Não dá para saber o que motiva as pessoas a participarem dos passeios. Mas uma coisa é certa: locais que são associados à pobreza e à violência, sobretudo, abrigam muita cultura e trabalhadores honestos, que estão ali lutando por um futuro melhor.

Um levantamento da Fundação Getulio Vargas mostrou que a pobreza no Brasil triplicou durante a pandemia. O número de pobres aumentou de 9,5 milhões em agosto de 2020 para mais de 27 milhões em fevereiro de 2021. Entre os diversos fatores que têm contribuído para isso está a alta no preço nos alimentos. 

Enquanto isso, os turistas vêm e vão, buscando lazer. Hoje estão nos morros tirando fotos, amanhã se cansam e vão procurar entretenimento em outros lugares, como nos zoológicos da África do Sul ou nas pirâmides do Egito. E a realidade das comunidades continua a mesma, repleta de violência e problemas estruturais que clamam por atenção. Há muitas famílias passando fome, sem ter o que comer na mesa. E isso não é bonito, muito menos turístico.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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