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Infecções fúngicas no cérebro não são apenas coisas de filmes – a África enfrenta epidemia mortal

Surgimento de doenças causadas por fungos na região é impulsionado principalmente pela alta prevalência de HIV

Saúde|The Conversation


Fotomicrografia mostra o fungo Cryptococcus neoformans
Fotomicrografia mostra o fungo Cryptococcus neoformans

No drama pós-apocalíptico de televisão americano de 2023, intitulado The Last of Us, os seres humanos são levados à extinção devido a uma infecção fúngica que transforma a maioria das espécies em zumbis cerebrais. Embora possa parecer algo distante, os fungos têm a capacidade de infectar o cérebro humano.

Fungos estão presentes em todos os lugares do ambiente humano, desde o ar até o solo, material vegetal em decomposição, pele e até mesmo no trato gastrointestinal como parte da flora natural.

Fungos microscópicos causadores de doenças podem invadir várias partes do corpo humano, levando a uma variedade de sintomas e problemas de saúde. As infecções fúngicas contribuem para uma quantidade considerável de doenças a cada ano.

Existem especialistas que estudam infecções fúngicas do cérebro, como o neurobióloga Rachael Dangarembizi, que tem se dedicado a esse campo por uma década.

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Ela fez parte de uma equipe que recentemente publicou uma revisão discutindo o surgimento e ressurgimento de infecções fúngicas na África, especialmente na África subsaariana.

Concluiu-se que a África está enfrentando uma epidemia silenciosa, porém custosa, de infecções fúngicas.

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Verificou-se que o surgimento de infecções fúngicas graves na região é impulsionado principalmente pela alta prevalência de infecções por HIV, falta de acesso a cuidados de saúde de qualidade e indisponibilidade de medicamentos antifúngicos eficazes.

Quando o sistema imunológico está enfraquecido, as pessoas estão em maior risco de desenvolver doenças fúngicas graves ou potencialmente fatais.

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A África é responsável por 67% da carga global de HIV, o que contribui para o aumento das doenças fúngicas oportunistas na região.

Um exemplo dessas doenças oportunistas é a meningite criptocócica, que surgiu com a pandemia de HIV no final da década de 1980.

Atualmente, a África subsaariana é responsável por cerca de 73% de todos os casos e óbitos globais relacionados a essa doença.

A meningite criptocócica é causada pelo fungo Cryptococcus neoformans, que é encontrado no solo e nas fezes de pássaros. A infecção ocorre quando alguém inala os esporos fúngicos, o que resulta em uma infecção pulmonar e, posteriormente, uma infecção cerebral fatal. A meningite criptocócica é uma das principais causas de meningite em adultos na África subsaariana e está associada a quase 20% de todas as mortes relacionadas à Aids.

Os tratamentos eficazes para a meningite criptocócica são inacessíveis para a maioria das pessoas afetadas. Os custos variam entre US$ 1.400 e US$ 2.500 (R$ 6.700 e R$ 11.970) por paciente para um curso completo de tratamento antifúngico de duas semanas.

O desenvolvimento de medicamentos mais acessíveis tem sido dificultado pela compreensão limitada de como o fungo causa danos tão graves no cérebro.

Outro exemplo de uma doença fúngica oportunistas relacionada ao HIV é a pneumonia por Pneumocystis jirovecii. Ela é causada por um fungo onipresente no ar, chamado Pneumocystis jirovecii, que é transmitido de pessoa para pessoa.

O Pneumocystis raramente causa problemas em pessoas com sistemas imunológicos saudáveis, mas atua como um reservatório, transmitindo a infecção para aqueles com sistemas imunológicos enfraquecidos, que podem desenvolver sintomas graves, como febre, tosse seca e dificuldade para respirar.

A pneumonia por Pneumocystis jirovecii ocorre em 15% a 20% dos pacientes com HIV que apresentam problemas respiratórios.

O diagnóstico da pneumonia por Pneumocystis jirovecii é caro e requer um laboratório bem equipado. Isso representa um desafio nas instalações de saúde urbanas e rurais pobres da África.

Além disso, o fungo P. jirovecii é extremamente difícil de ser cultivado, o que limita o diagnóstico e a pesquisa.

Aumento da carga

Na revisão conduzida por Rachael Dangarembizi e seus colegas, foram identificados diversos fatores que impulsionam o surgimento e ressurgimento das ameaças fúngicas.

Eles incluem as mudanças climáticas, a disseminação de doenças imunossupressoras, avanços médicos como transplantes de órgãos (onde o sistema imunológico é suprimido para minimizar a rejeição), o uso de imunossupressores para tratar doenças inflamatórias e o uso de antibióticos.

Embora esses fatores não sejam exclusivos da África, a carga de doenças fúngicas e o número de pessoas que sucumbem a elas são muito maiores.

A pandemia de Covid-19 parece ter agravado o fardo global das infecções fúngicas. Por exemplo, estudos recentes têm mostrado que pessoas que foram infectadas pelo coronavírus e se recuperaram são vulneráveis à infecção por um fungo chamado mucormicose, também conhecido como fungo negro.

Danos pulmonares causados pela Covid-19, níveis elevados de açúcar no sangue e o uso de esteroides frequentemente usados para o tratamento são todos fatores predisponentes para a infecção pelo fungo negro.

Com capacidade reduzida de eliminar esporos fúngicos e uma resposta imunológica enfraquecida devido aos esteroides, o fungo pode entrar e infectar os seios nasais, ossos faciais e, eventualmente, o cérebro.

Mas nós não temos medicamentos antifúngicos?

A maioria da população afetada por infecções fúngicas vive em áreas rurais ou em assentamentos urbanos pobres.

Com sistemas de saúde mal financiados e sobrecarregados, muitos países africanos não estão preparados para lidar com infecções fúngicas.

Além disso, alguns dos medicamentos antifúngicos recomendados pela OMS (Organização Mundial da Saúde), como a flucitosina, não estão disponíveis na maioria dos países africanos. Em vez disso, são utilizados medicamentos ineficazes e até mesmo tóxicos.

O surgimento de cepas fúngicas resistentes a medicamentos também representa uma ameaça crescente. De grande preocupação é o aumento de espécies de Candida resistentes a múltiplos medicamentos, espécies de Aspergillus resistentes a azóis e Cryptococcus clinicamente resistente.

Estratégias de manejo

As ameaças fúngicas estão sobrecarregando sistemas de saúde já sobrecarregados, que possuem um arsenal limitado de opções de tratamento.

Profissionais de saúde, pesquisadores científicos, formuladores de políticas e governos devem abordar as lacunas no diagnóstico e tratamento de infecções fúngicas. Isso ajudará a melhorar a capacidade de lidar com essas infecções.

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