Símbolo da luta contra o preconceito, cantor albino desabafa: “Tive que batalhar muito para ser aceito”

Conhecido como “voz de ouro da África”, Salif Keita foi rejeitado pelo pai na infância

Aos 65 anos, Keita é símbolo da luta dos albinos contra o preconceito
Aos 65 anos, Keita é símbolo da luta dos albinos contra o preconceito Francois Durand/Getty Images

Nem mesmo o sangue azul de Salif Keita, membro de uma família que descende do fundador do Império Mali, foi suficiente para livrá-lo do preconceito devido à cor de sua pele. Assim como muitos outros albinos africanos, Keita foi rejeitado pelo pai quando criança e vítima de preconceito na aldeia onde morava.

Sem nunca se abalar com qualquer forma de discriminação que passasse por seu caminho, Keita quebrou com a tradição familiar ao apostar na carreira de cantor e, hoje, é conhecido como a “voz de ouro da África”. O músico ficou famoso em todo o mundo ao participar da trilha sonora do filme Ali, estrelado por Will Smith, com a canção Tomorrow.

Aos 65 anos, Keita é um dos maiores símbolos da luta contra o preconceito e a perseguição a albinos. Em entrevista ao R7, ele contou um pouco de sua vida e da Fundação Salif Keita, criada em 2005 para ajudar pessoas com albinismo na África.

R7: Como o senhor descobriu sua condição genética?

Salif Keita: Eu descobri que tinha albinismo quando eu tinha uns cinco ou seis anos. Foi muito dramático saber que eu era diferente, já que eu era o único da minha aldeia. Eu tive que batalhar muito para ser aceito.

R7: O senhor teve algum problema dentro da família ou na escola devido ao albinismo?

Keita: A princípio, eu fui negado pelo pai quando nasci, mas depois ele mudou de ideia, me aceito e me criou. Já na escola, eu fui expulso de uma e me disseram que era porque eu havia assustado os outros alunos e o professor.

R7: Como o senhor lidou com a discriminação?

Keita: Acho que sempre tive uma força muito grande para ser discriminado, eu construí um caráter e uma personalidade fortes. Sempre pensei que veriam Salif e não o albino, então, não dou a chance de me discriminarem.

R7: O fato de o senhor pertencer à linhagem real do Mali o ajudou a conseguir aceitação social?

Keita: Uma vez aceito pelo meu pai, toda a família me aceitou também. Eles não entendiam minha diferença, mas sabiam que era a vontade de Deus que eu fosse dessa maneira e sabiam também que eu tinha um grande destino.

R7: E como eles reagiram quando o senhor resolveu ser músico?

Keita: Como minha família é nobre, era proibido tocar música. Eles não queriam que eu rompesse essa tradição e ficaram muito chateados quando eu me tornei um músico. Depois de um tempo, quando eles viram o sucesso que eu tinha ao redor do mundo, começaram a mudar de ideia, mas eu sei que eles ainda gostariam que eu tivesse outro tipo de sucesso.

R7: Além da sua música, como o senhor luta pelo fim do preconceito contra os albinos?

Keita: Com certeza com a minha imagem, eu quero ser um exemplo de como lidar com a sua diferença, aceitar e amar a si mesmo. Assim, os outros vão te amar também.

R7: Por que o senhor criou a Fundação Salif Keita?

Keita: Eu sou albino e é meu dever de ajudar os outros com essa condição.

R7: Qual mensagem o senhor mandaria para os albinos que ainda sofrem preconceito pelo mundo?

Keita: Nunca desista, você é perfeito do jeito que é.

Fundação Salif Keita

Casada com Keita desde 2008 e mãe de dois filhos do cantor, Coumba Makalou é diretora-executiva da Fundação Salif Keita, criada em 2005 para ajudar pessoas com albinismo na África, e também conversou com R7 sobre o trabalho que eles desenvolvem na África.

R7: Como a fundação ajuda essas pessoas?

Coumba: Nós fazemos campanhas para informar as pessoas sobre a condição genética, damos assistência médica gratuita aos que têm problemas de pele ou feridas, nós fornecemos filtros solares gratuitos, chapéus e óculos de sol.

R7: Quantas pessoas já foram ajudadas por vocês?

Coumba: Temos cerca de 3.000 membros registrados albinos no Mali, recebemos entre 10 a 15 novos membros a cada semana e todos estes recebem os benefícios listados acima. Temos também levado pacientes com ferimentos graves para outros países para melhor atendimento e coberto todas as despesas.

R7: No seu contato com vítimas de preconceito, qual história mais te tocou?

Coumba: No ano passado, nós recebemos uma menina albina de 12 anos e a mãe, que era viúva. Quando seu marido morreu, os moradores da aldeia onde elas moravam as expulsaram, dizendo que elas eram amaldiçoadas.  A menina tinha um grande ferimento na cabeça e elas não tinham para onde ir.

A mãe sabia da fundação do meu marido, Salif Keita, e decidiu vir a pé desde a aldeia para tentar encontrá-lo, porque ele iria ajudá-las. Elas não tinham dinheiro, nem lugar para dormir ou comida.

Albinos são cruelmente mutilados e partes do corpo são usadas em "poções mágicas" 

Nossa equipe levou as duas para um hospital, mas ninguém iria tocar a menina albina. Eu fiquei tão chateada que, no dia seguinte, fui para o hospital com jornalistas internacionais para intimidar os funcionários do hospital. E, claro, eles decidiram começar a ajudá-la.

Isso partiu meu coração, saber que sem as câmeras ela seria tratada como nada e deixada sofrendo para morrer.

R7: Em geral, como é a vida dos albinos na África?

Coumba: Muito difícil. Albinos na África têm que lidar com a discriminação devido à ignorância sobre a sua condição. As pessoas são, na sua maioria, analfabetos e não entendem como um bebê branco pode vir de pais negros.

R7: Quais são as maiores dificuldades que eles enfrentam na vida?

Coumba: O sol é o maior inimigo para as pessoas com albinismo, porque elas não têm a melanina, que atua como protetor solar na pele e nos olhos. Muitas pessoas com albinismo morrem antes dos 30 anos por causa de câncer de pele.

R7: Como é a inclusão deles no mercado de trabalho?

Coumba: As oportunidades são limitadas porque muitos albinos não recebem educação seja por serem pobres ou devido a problemas de visão. E mesmo os que conseguem estudar são preteridos, porque a maioria dos empregadores prefere contratar os negros.

R7: Na sua opinião, qual é a melhor forma de combater o preconceito?

Coumba: Por meio da sensibilização para o fato de que o albinismo é uma condição simplesmente genética, que ocorre em todas as raças. É apenas uma falta de produção de melanina que deixa a pele dos albinos branca, independentemente da raça. Portanto, devemos nos concentrar no fornecimento de informações sobre a doença e criar imagens que mostram a beleza de albinismo para que outros possam apreciá-los como seres humanos e não 'fantasmas' ou 'intocáveis'.

R7: Quais os objetivos da fundação para o futuro?

Coumba: Temos planos de arrecadar ainda mais fundos para construir uma escola especializada para albinos, uma clínica médica e expandir nossa produção de protetor solar.

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