Em depoimento, Moro relata pressão por troca na PF do Rio

Ex-ministro da Justiça garante que narrou fatos verdadeiros na coletiva concedida para anunciar sua saída do governo

 Depoimento de Sérgio Moro durou mais de  8 horas

Depoimento de Sérgio Moro durou mais de 8 horas

Adriano Machado/Reuters - 13.04.2020

O ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro afirmou em depoimento à PF (Polícia Federal) que foi pressionado pelo presidente Jair Bolsonaro para trocar o comando da Superintendência do órgão no Rio de Janeiro.

A liberação dos relatos de Moro no depoimento de mais de 8 horas acontece um dia após o ex-ministro autorizar a divulgação de suas falas.

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O ex-ministro diz que no começo deste ano recebeu uma mensagem do presidente com os seguintes dizeres: "Moro você tem 27 Superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro”.

Em seu depoimento, Moro cita que apenas concordou com a primeira substituição na Superintendência da PF no Rio de Janeiro porque o então ocupante do cargo, Ricardo Saad, "havia manifestado interesse de sair, por questões familiares, e a sua troca já estava planejada pelo Diretor Geral".

De acordo com o ex-ministro, a solicitação para tirar Saad do comando da PF no Rio de Janeiro ocorreu de forma verbal, no Palácio do Planalto. Ele relata ainda que não recorda se outra pessoa, além dele e do presidente Jair Bolsonaro, tenha presenciado o pedido.

Moro relembra, no entanto, que reportou a cobrança tanto ao ex-diretor da Polícia Federal Maurício Valeixo, quanto ao próprio Saad, dizendo que as motivações para a troca deveriam ser solicitadas ao presidente da República.

"O presidente, após a concordância, declarou publicamente que havia mandado trocar o SR/RJ por motivo de produtividade", relatou Moro.

Veja a íntegra do depoimento de Sérgio Moro na Polícia Federal

O ex-ministro aponta ainda que foi a partir deste momento que Bolsonaro começou a tentar tirar Valeixo do comando da PF. Ele conta, no entanto, que o assunto voltou a ser abordado em janeiro deste ano, quando o presidente manifestou interesse em nomear Alexandre Ramagem para o cargo.

Moro conta que pensou em concordar com a troca "para evitar um conflito desnecessário", mas concluiu que a mudança sem que houvesse uma causa e a proximidade de Ramagem com a família Bolsonaro "afetaria a credibilidade da Polícia Federal".

Questionado, Moro disse que o presidente era quem deveria ser indagado para esclarecer os motivos que levaram o levaram a insistir na troca de comando da PF. Segundo o ex-ministro, Bolsonaro chegou a sugerir os nomes de Fabiano Bordignon e Disney Rosseti para o lugar de Valeixo, mas ele avaliou que a troca "geraria desgaste".

Nas declarações, Moro afirma ainda que garantiu a autonomia da Polícia Federal no período em que esteve presente no governo e garante que narrou fatos verdadeiros na coletiva concedida para anunciar sua saída do cargo.