'Meu Deus do céu! Essa é a nossa alternativa de poder', diz Barroso sobre PMDB

Ministro afirmou que há 'falta alternativa' na política e alerta que 'não tem para onde correr'

Roberto Barroso criticou as opções do PMDB para governar o País

Roberto Barroso criticou as opções do PMDB para governar o País

Nelson Jr./24.11.2015/STF

Em meio à discussão do processo de impeachment, o ministro Luís Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal), disse em conversa no Tribunal com alunos da Fundação Lemann que o País enfrenta um problema de "falta de alternativa" e comentou em tom crítico a possibilidade de o PMDB assumir o poder. 

— Quando, anteontem, o jornal exibia que o PMDB desembarcou do governo e mostrava as pessoas que erguiam as mãos, eu olhei e pensei: Meu Deus do céu! Essa é a nossa alternativa de poder. Eu não vou fulanizar, mas quem viu a foto sabe do que estou falando.

A foto do momento em que é selado o desembarque do PMDB do governo tem como figuras principais o ex-ministro Eliseu Padilha — um dos peemedebistas mais próximos do vice-presidente Michel Temer —, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e o primeiro vice-presidente do PMDB, senador Romero Jucá (RR).

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Na conversa com alunos, Barroso afirmou que o problema do País é a "falta de alternativa" na política.

— Não tem para onde correr. Isso é um desastre.

O ministro não sabia, ao fazer os comentários, que o encontro estava sendo transmitido pelo sistema interno de TV do Supremo, ao qual todos os gabinetes do Tribunal têm acesso. Após as críticas, Barroso foi informado que a conversa estava sendo exibida e pediu para que os áudios fossem excluídos.

Barroso também fez comentários sobre o sistema político.

— A política morreu, porque nosso sistema político que não tem um mínimo de legitimidade democrática, ele deu uma centralidade imensa ao dinheiro e à necessidade de financiamento e se tornou um espaço de corrupção generalizada. Talvez morreu eu tenha exagerado. Mas ela está claramente enferma. É preciso mudar.

Crítico ao sistema eleitoral do País, por causa do voto proporcional, Barroso disse que há um distanciamento entre eleitores e eleitos. 

— É um sistema em que o eleitor não tem de quem cobrar e o eleito não tem a quem prestar contas, não pode funcionar.

Foro

Mais cedo, em palestra a universitários do Centro Universitário de Brasília (UniCeub), Barroso fez críticas ao chamado "foro privilegiado".

— É um desastre para o País e é um mal para o Supremo. O foro por prerrogativa de função deveria alcançar o Presidente da República, o vice-presidente da República, os presidentes de poder e mais quase ninguém.

Ele defendeu, conforme já fez em momentos anteriores, a criação de uma vara especializada em Brasília para cuidar dos processos criminais de autoridades que hoje possuem foro perante o STF e perante o Superior Tribunal de Justiça.

Atualmente, além dos presidentes de Poder e presidente e vice-presidente da República uma série de outras autoridades possui a prerrogativa de só ser investigado e processado na área penal pelo Supremo, como deputados, senadores e ministros de Estado.

Barroso afirmou ainda que o modelo de foro privilegiado amplo "estimula a fraude à jurisdição", citando por exemplo, de forma genérica, casos em que parlamentares renunciam para escapar do julgamento no STF.

Dentro das próximas semanas, o Supremo terá de julgar a situação do foro do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que, ao ser empossado ministro-chefe da Casa Civil, teria suas investigações remetidas ao STF.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, no entanto, enviou parecer à Corte na qual pede a manutenção da posse de Lula, mas a continuidade das investigações na justiça de primeira instância, para evitar efeitos prejudiciais do que chama de "desvio de finalidade" na nomeação do petista.

O ministro também afirmou que o processo de impeachment é um "momento dramático" para o País, independentemente do resultado final, mas defendeu a tolerância nas discussões.

— As pessoas deveriam debater ideias sem compulsão de desqualificar as opiniões dos outros. Não precisa dizer que quem pensa diferente é mal intencionado. [...] Um choque civilizatório no debate público brasileiro faria muito bem a todos.