Motins, facções e milícias: mortes mais que dobram em um ano no CE

Greve de policiais chega ao 12º dia e crise de segurança se agrava com disputa de organizações criminosas, ausência da polícia e formação de milícias

Militares do Exército patrulham ruas de Fortaleza em meio a greve de PMs

Militares do Exército patrulham ruas de Fortaleza em meio a greve de PMs

João Dijorge / Estadão Conteúdo / 28.02.2020

O número de mortes no estado do Ceará, em meio aos protestos de policiais militares por reajustes salariais, chegou a 386 na quarta-feira (26), de acordo com as últimas informações divulgadas pela Secretaria de Segurança e Defesa Social do Ceará. A pasta informou, na quinta-feira (27), que não divulgará mais boletins diários sobre o número de homicídios decorrentes dos motins, como vinha fazendo em função do "acúmulo de trabalho no setor de estatística."

De acordo com o órgão, o número de homicídios registrado em fevereiro do ano passado era de 164. Neste ano, o último dado divulgado referente ao mesmo mês é de 386. Com isso, houve um crescimento de 135,4% no número de mortes do estado comparando os primeiros 26 dias do mês. Isso significa que os assassinatos mais do que dobraram no período de um ano.

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Por trás dos homicídios, há uma conjunção de forças que explicam o aumento. "Estamos vendo um crescer de paralisação por parte da polícia militar, uma nova disputa entre facções e a maior presença e atuação de grupos de extermínio no estado", afirma César Barreira, sociólogo e professor do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará. "Os assassinatos devem provocar um aumento no número de mortes nas estatísticas nacionais de homicídio", prevê o especialista.

O motim de policiais militares, que é ilegal de acordo com Constituição, começou na terça-feira (18), quando homens encapuzados que se identificam como agentes de segurança do Ceará invadiram quarteis. Uma parte dos policiais militares não concordou com o aumento salarial proposto pelo governo e iniciaram os protestos.

Barreira explica que, no espaço deixado pela falta de policiais, há uma disputa territorial entre a facção GDE (Guardiões do Estado) e o Comando Vermelho que vem ganhando força. "Essas mortes ocorrem por conta do crescimento do GDE fora das prisões."

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Segundo o sociólogo, grupos de extermínio e milícias também devem ampliar a presença no estado diante da crise de segurança pública instalada. "Existe uma tendência de aumento de resoluções de conflitos interpessoais e esses três aspectos ajudam a explicar o elevado número de mortes", diz ele.

O cenário, explica Barreira, é diferente da onda de violência que marcou o Ceará no ano passado. Nos primeiros meses do ano passado, ataques de organizações criminosas se iniciaram após a nomeação de Luís Mauro Albuquerque como secretário de Administração Penitenciária e do anúncio de medidas, como a não separação de presos por facção em presídios. "Havia uma onda de terror, não mortes de pessoas. Assim, observou-se uma queda significativa nos homicídios."

Neste ano, as ruas estão esvaziadas de agentes de segurança e as mortes, segundo ele, ocorrem no vácuo de forças de segurança pública. "Os delitos também crescem em meio aos motins", diz.

Barreira avalia a positivamente a presença do Exército em cidades cearenses, mas aponta gargalos. "Ocupa-se o espaço deixado pela Polícia Militar", diz. "Mas, as Forças Nacionais não possui contingente e não estão preparadas para esse tipo de atividade. Isso demonstra fragilidade.”

Ele afirma ainda que a população vê com apreensão a crise de segurança no estado. "A sensação de medo e tensão é muito elevada. A violência é difusa, todas as pessoas são atingidas, embora existam os grupos preferenciais e vulneráveis."