Brasília 80% das crianças brasileiras comem ultraprocessados; veja alternativas

80% das crianças brasileiras comem ultraprocessados; veja alternativas

Entenda o que são alimentos ultraprocessados e confira cinco possibilidades de substituição caseiras, práticas e baratas

  • Brasília | Emerson Fonseca Fraga, do R7, em Brasília

Hambúrguer e batata frita estão entre os alimentos ultraprocessados mais consumidos

Hambúrguer e batata frita estão entre os alimentos ultraprocessados mais consumidos

Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Pelo menos 80% das crianças brasileiras entre 6 meses e 2 anos consomem ou já consumiram alimentos ultraprocessados. É o que revelou o inédito Enani-2019 (Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil), divulgado neste mês pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

O alto índice de ingestão de ultraprocessados é agravado pelo baixo consumo de frutas e hortaliças. “No dia anterior à realização da entrevista com as famílias, 22,2% dos bebês de 6 meses a 2 anos e 27,4% das crianças de 2 a 5 anos não haviam consumido nem frutas nem hortaliças. A situação é mais preocupante na Região Norte, onde, na véspera da entrevista, um terço (29,4%) dos bebês de até 2 anos não havia comido nem frutas nem hortaliças e a maioria deles (84,5%) tinha consumido ultraprocessados”, alerta Giberto Kac, pesquisador responsável pelo estudo.

Entre os alimentos da lista dos chamados ultraprocessados estão biscoitos industrializados, farinhas instantâneas, refrigerantes e sucos açucarados. A nutricionista Julia Carricondo propõe cinco opções para que as famílias substituam esse tipo de produto na alimentação infantil. 

O que são alimentos ultraprocessados

Os alimentos ultraprocessados mais famosos são os biscoitos, as farinhas instantâneas (para preparar mingau para crianças) e os iogurtes industrializados.

Os ultraprocessados são alimentos que passaram por diversos processos de industrialização, geralmente com a adição de diversos ingredientes à mistura, como sal, açúcar, óleo, gordura, extratos e substâncias sintetizadas em laboratórios, como corantes e aromatizantes. “Esse termo veio de uma classificação brasileira do professor Carlos Augusto Monteiro. Esses alimentos sofreram um alto grau de industrialização. Por exemplo, em vez de leite, têm soro de leite. Em vez de carne, têm extrato de carne”, explica a nutricionista Elisa Lacerda, professora do Instituto de Nutrição Josué de Castro, da UFRJ.

"O néctar de fruta, que são aqueles sucos de caixinha, também são alimentos ultraprocessados. Eles contêm um pouco de fruta e diversos aditivos para deixar a bebida com gosto da fruta, com aroma da fruta e com cor da fruta, além de vários conservantes. Os ultraprocessados são considerados, inclusive, formulações industriais, e não alimentos propriamente ditos”, afirma.

Malefícios dos ultraprocessados

Segundo a nutricionista Elisa Lacerda, são vários os malefícios do consumo de ultraprocessados, em especial por crianças e adolescentes. “Centenas de estudos mostram que esses alimentos causam obesidade, hipertensão, doenças cardiovasculares, doenças gastrointestinais, entre outras. Para crianças, os estudos estão aumentando agora, mas alguns já mostram que elas têm maior risco de dislipidemias — alterações no colesterol, aumento nos triglicerídeos, por exemplo. Isso tem a ver com o desenvolvimento de doenças cardiovasculares futuramente”, destaca.

Além disso, componentes desses alimentos podem fazer mal ao sistema digestivo dos menores. Os alimentos ultraprocessados contêm aditivos de vários tipos, como corantes, aromatizantes e conservantes. “Até o material das embalagens pode passar para os alimentos e, portanto, a criança acaba consumindo esse material”, diz a nutricionista.

Quem consome esses alimentos desde a infância, portanto, tem mais risco de desenvolver doenças digestivas e cardiovasculares. “Também cabe destacar que esses alimentos têm  qualidade pior do que os alimentos não processados. Comparados com os alimentos in natura, eles têm menos nutrientes, vitaminas e minerais e mais calorias, gordura saturada — que tem relação direta com doenças cardiovasculares —, açúcar e sódio. Todos esses produtos estão relacionados a doenças vasculares e à hipertensão”, ressalta.

Por que as crianças consomem?

Os produtos ultraprocessados, atualmente, são mais acessíveis do que os alimentos naturais. Eles podem ser encontrados em qualquer mercado. Além disso, duram mais tempo estocados – ao contrário de frutas, verduras e legumes, que precisam de melhor acondicionamento porque se estragam mais rápido. Mas a desinformação dos responsáveis pelas crianças também é um dos fatores que impulsionam o consumo desses alimentos.

“Uma das mais importantes razões para o consumo de ultraprocessados é a desinformação das famílias. Às vezes, elas não sabem que eles fazem mal. Dependendo do produto, até profissionais indicam. A indústria lançou, por exemplo, o composto lácteo para concorrer com o leite. O marketing das indústrias, principalmente nas redes sociais, é muito forte e se concentra nas indicações do que os pais devem dar aos filhos.”

Outro fator é o custo. Os ultraprocessados são geralmente mais baratos que os alimentos naturais. “Às vezes é mais barato comprar um pacote de biscoitos do que um legume”, afirma a nutricionista Elisa Lacerda.

A pesquisa

Para a realização do Enani-2019, foram entrevistados pais, mães ou responsáveis por mais de 14.500 crianças. A pesquisa visitou 123 municípios dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal.

“O dado que a gente tem é que, principalmente entre 6 meses e 2 anos de idade, há uma prevalência de 86% do consumo de ultraprocessados. Isso significa que a criança comeu pelo menos um tipo de ultraprocessado no dia anterior ao da realização da pesquisa. Essa prevalência foi maior na Região Norte. Por enquanto não sabemos o motivo, mas isso significa que a alimentação é mais deficiente, já que as crianças que comem ultraprocessados acabam ingerindo menos nutrientes”, conta a nutricionista.

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