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Acordo entre Mercosul e UE vai forçar ‘reorganização’ do mercado, avaliam especialistas

Tratado, que teve negociação concluída nesta sexta, propõe zerar as tarifas para 91% dos produtos exportados pelo Mercosul para a UE

Brasília|Giovana Cardoso, do R7, em Brasília

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Mercosul e União Europeia anunciam conclusão do acordo comercial entre os blocos Ricardo Stuckert / PR

Após 25 anos, líderes do Mercosul e União Europeia concluíram, na sexta-feira (6), as negociações do acordo entre os blocos. O tratado, que envolve a formação da maior área de livre comércio do mundo, busca, principalmente, diversificar as parcerias comerciais do Brasil e promover um maior fluxo de investimentos. A expectativa é que o acordo fomente o comércio, impulsione economias e alinhe padrões regulatórios entre os blocos.

Para especialistas ouvidos pelo R7, o pacto força uma reorganização do mercado, que promoverá, em prazos diferentes, benefícios para todos os países-membros. Segundo o economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena, o tratado não traz vantagens ou desvantagens para um país em si, mas sim para setores econômicos específicos.

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“Historicamente, acordos desse tipo impactam mais negativamente os setores menos produtivos. No caso do Brasil, a indústria de transformação, como a automobilística, de autopeças e de tecnologia, pode enfrentar dificuldades para competir com os produtos importados da Europa. Isso exigirá um avanço significativo na capacidade produtiva desses setores. Por outro lado, o setor agropecuário da União Europeia, menos produtivo, também precisará aumentar sua eficiência”, explicou.

Uma pesquisa divulgada pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em dezembro do ano passado indicou que o acordo poderia gerar ao Brasil um crescimento de 0,46% no PIB entre 2024 e 2040 – o equivalente a US$ 9,3 bilhões a preços constantes de 2023. Entre os países participantes, o Brasil poderia ter ganhos maiores que os da União Europeia e demais nações do Mercosul.

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“O acordo aumentaria os investimentos no Brasil em 1,49%, na comparação com o cenário sem a parceria. Nesse sentido, a exemplo do PIB, o Brasil também teria vantagens substancialmente maiores do que a União Europeia (0,12%) e os demais países do Mercosul (0,41%)”, apontou o instituto.

Apesar disso, o especialista em comércio exterior e diretor-executivo da BMJ Consultores Associados, Wagner Parente, explica que a conclusão das negociações reflete no reconhecimento do equilíbrio nas concessões de abertura de mercado entre os países. Do ponto de vista comercial, enquanto a desgravação de tarifas estiver em curso, Parente aponta que o Mercosul deve ser o maior beneficiado nos primeiros 15 anos.

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“Em contrapartida, a UE projeta uma queda de US$ 3,44 bilhões no mesmo período, compensada em parte por um aumento nos fluxos financeiros”, comentou. O analista disse, ainda, que no Mercosul, incluindo Paraguai, Uruguai e Argentina, os ganhos setoriais expressivos no agronegócio e o aumento das importações podem seguir uma dinâmica semelhante ao Brasil.

“No caso argentino, cabe destacar o ganho nas exportações de minerais, como lítio e outros estratégicos, devido às suas reservas significativas. Por outro lado, as importações também devem crescer em bens de maior valor agregado, como maquinário e automóveis, além de serviços europeus e aumento nas participações em compras públicas”, disse.

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O tratado propõe zerar as tarifas para 91% dos produtos exportados pelo Mercosul para a União Europeia e para 95% das exportações do bloco europeu para os sul-americanos. As mudanças seriam feitas ao longo de um período de transição, de 10 a 15 anos, a depender do setor. Também estão previstas a redução de tarifas alfandegárias e o aumento de exportações, especialmente no setor agrícola, no qual o Mercosul tem vantagens competitivas.

Entraves enfrentados

Por anos, o acordo enfrentou entraves, principalmente no que se diz respeito aos desafios estruturais para tentar harmonizar interesses tão distintos. O especialista em relações internacionais Guilherme Frizzera explica que, antes do consenso entre os países, o Mercosul e União precisaram lidar com condicionantes como impactos no agronegócio e exigências ambientais.

“Enquanto o Mercosul busca ampliar o acesso ao mercado europeu para produtos agrícolas e commodities – áreas onde os países sul-americanos têm vantagens competitivas –, a União Europeia tenta proteger seus setores mais sensíveis, como agricultura, ao mesmo tempo em que busca expandir mercados para sua indústria, especialmente os setores automotivo, farmacêutico e químico”, disse Frizzera.

Relação com a China

Atualmente, a China é o principal parceiro comercial do Brasil. De janeiro a outubro de 2024, a parceria entre os países gerou US$ 136,3 bilhões. As exportações brasileiras alcançaram US$ 83,4 bilhões, e as importações, US$ 52,9 bilhões, um superávit de US$ 30,4 bilhões.

No contexto entre Brasil e China, apesar do acordo negociado fortalecer a parceria com os europeus, especialistas entendem que o tratado não vai interferir na relação com os chineses. “Embora o mercado europeu, com cerca de 500 milhões de habitantes, seja menor que o chinês, que ultrapassa 1 bilhão, a renda média dos europeus é superior, o que abre oportunidades de crescimento” explica Lucena.

Igor diz, ainda, ser “improvável” que a China perca sua posição como maior parceiro comercial do Brasil. “Contudo, o acordo deve aumentar significativamente a presença das exportações brasileiras na União Europeia e ampliar nossa participação no comércio internacional. Essa diversificação é estratégica para o Brasil. Dependência excessiva do mercado chinês pode ser arriscada, especialmente se a China enfrentar uma crise econômica. Expandir exportações para a União Europeia, Estados Unidos ou Sudeste Asiático é essencial para fortalecer a economia brasileira a longo prazo”, disse.

Em concordância, Parente afirma que o acordo pode fortalecer o vínculo com um grande mercado consumidor e reduzir a dependência das exportações agrícolas para o mercado chines. “Como o Acordo é de associação entre os dois blocos, o tratado deve criar um ambiente geopolítico em que a China precise oferecer condições mais atrativas do que a UE, favorecendo a barganha brasileira”, comentou.

Próximos passos

Apesar da conclusão das negociações, o acordo ainda não foi assinado pelos países. Segundo o governo federal, o texto ainda depende do processo de revisão legal e tradução. Após a assinatura, o tratado passará por procedimentos de cada parte para aprovação interna. No caso do Brasil, o tratado será submetido à aprovação pelo poder legislativo.

Com isso, poderá ser ratificado por cada uma das partes, permitindo a entrada em vigor. Os efeitos jurídicos começam a ser produzidos no primeiro dia do mês seguinte à notificação da conclusão dos trâmites internos. “Como o acordo Mercosul-UE estabelece a possibilidade de vigência bilateral, bastaria que a UE e o Brasil – ou qualquer outro país do Mercosul – tenham concluído o processo de ratificação para a sua entrada em vigor bilateralmente entre tais partes”, informou o governo.



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