Brasília Carga de coronavírus no esgoto do DF quadruplica em uma semana

Carga de coronavírus no esgoto do DF quadruplica em uma semana

Aumento foi o 2º maior desde o início das análises, em março de 2021. Salto levou Agência Nacional de Águas (ANA) a emitir alerta

  • Brasília | Jéssica Moura, do R7, em Brasília

Estação de tratamento de esgoto no DF

Estação de tratamento de esgoto no DF

Divulgação/Caesb

O esgoto que corre na tubulação do Distrito Federal carrega não só resíduos, mas também fragmentos do novo coronavírus. A análise de amostras desse líquido pode ajudar a contar a história da evolução da pandemia ao longo do tempo e também no espaço. O alerta mais recente da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), que monitora a concentração do Sars-CoV-2 na rede de saneamento, publicado nesta última quinta-feira (27), mostra que os contágios não só tiveram o ritmo acelerado, mas se espalharam pelo território de maneira generalizada.

Diante desse cenário, a agência emitiu o segundo alerta do ano em quinze dias sobre a alta. A capital federal registrou o segundo maior pico na concentração de coronavírus no esgoto desde que as análises começaram, em março de 2021. Entre 16 e 22 de janeiro, a carga de vírus detectada no esgoto do DF quadruplicou de volume, na comparação com a semana anterior. Os pesquisadores identificaram 2.549 bilhões de cópias de RNA viral por dia para uma vazão de água que abastece 10 mil habitantes.

O cenário atual é de amplitude espacial da concentração, está bem generalizado. Pelo fato de a concentração ter aumentado bastante, caberiam medidas mais efetivas para diminuir a circulação do vírus entre as pessoas

Carlos Perdigão, superintendente de planejamento de recursos hídricos da ANA

As estações dos Lagos Sul e Norte, Gama e Taguatinga foram as que acumularam as maiores médias de concentração de fragmentos do Sars-CoV-2 na última semana. Essas áreas também estão entre as cidades que mais registraram novos casos de contaminação pela Covid-19.

Evolução da carga viral no esgoto do DF em relação ao avanço dos casos de Covid-19

Evolução da carga viral no esgoto do DF em relação ao avanço dos casos de Covid-19

Reprodução/ANA

Concentração ascendente

O esgoto acaba revelando o que a subnotificação de diagnósticos de Covid-19 esconde, em razão da testagem limitada da população. Isso porque mesmo os contaminados assintomáticos ou os infectados que não foram testados vão, inevitavelmente, excretar fragmentos do coronavírus nas fezes. Estas, por sua vez, vão parar na rede de esgoto, que terá amostras recolhidas para análise.

“Como a testagem é aquém do que deveria e poderia ser, essa ferramenta de vigilância epidemiológica preenche essa lacuna e pode servir de sistema de alerta precoce ao identificar um aumento na concentração do vírus e antecipar políticas e medidas de prevenção de contágios”, diz Perdigão.

Rede de monitoramento

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Em março do ano passado, a ANA firmou uma parceria com universidades em seis capitais: Brasília, Rio de Janeiro, Fortaleza, Recife, Belo Horizonte e Curitiba. A ação tem como objetivo monitorar a presença do Sars-CoV-2 no esgoto produzido nessas cidades. A motivação veio a partir de uma experiência parecida de mapeamento desenvolvida na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pioneira no país nesses estudos com o novo coronavírus.

A ideia é reunir dados e ampliar as informações disponíveis para combater a crise sanitária atual. Os resultados coletados abastecem um painel dinâmico, que agrega os cálculos em gráficos e tabelas. No DF, as amostras são coletadas em oito estações de tratamento da Companhia de Saneamento Ambiental (Caesb), que atendem 80% da população. Assim se constituiu a Rede Covid Esgotos.

Caesb e UnB

A Universidade de Brasília (UnB) foi umas das instituições convidadas a participar do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Estações Sustentáveis de Tratamento de Esgoto (INCT ETEs Sustentáveis) da UFMG. Nessa condição, a UnB não recebe recursos para pesquisa, mas compartilha os dados em parceria com a Caesb.

Às terças, quando o relógio marca 0h, um amostrador automático passa a recolher as amostras de esgoto não tratado nas principais estações da capital, operação que vai até as 23h59. No dia seguinte, técnicos da companhia levam o material recolhido até o laboratório de Saneamento Ambiental do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental, comandado pela professora Cristina Brandão, na UnB. Lá, duas técnicas e uma doutora em biologia molecular dão início à análise minuciosa do material.

O resultado da concentração de vírus por ml de esgoto avaliado só fica pronto na sexta-feira. Na segunda-feira, os pesquisadores calculam a carga viral no DF. É esse dado que alimenta o painel da ANA, semanalmente.

Aqui, a situação é completamente atípica, maior do que tudo que a gente já viu desde o começo da pesquisa. Está caminhando muito rápido. Já em dezembro começou a subir. Com os dados, a gente sabe que está piorando e onde está pior. Independentemente de testes, a epidemia está avançando. A gente chegou a uma condição de disseminação generalizada

Cristina Brandão

Próximos passos

O laboratório ainda não faz o sequenciamento genético das amostras. "Estamos guardando amostras em um freezer de -80ºC para fazer outros estudos e entender melhor a contaminação", explica a pesquisadora. Outra medida que está em preparação é a elaboração de um modelo matemático em que os dados do monitoramento possam ser aplicados. "Vamos começar a prever o futuro a partir do passado", assegura. "Há duas semanas, o aumento na carga já estava apontando essa repercussão na ocupação de leitos."

Está em negociação ainda a coleta de amostras no esgoto do aeroporto de Brasília. "O equipamento já está lá, mas precisa articular porque é uma questão logística complicada. A esperança é que comece até o fim do mês", estima Cristina.

Ciência para conter crises

Foi com uma estratégia parecida que pesquisadores na Holanda identificaram a circulação do coronavírus naquele país ainda no início da pandemia, em 2020, depois que os primeiros casos começaram a se espalhar na Ásia. Por lá, eles avaliaram amostras coletadas no aeroporto e identificaram cópias de Sars-Cov-2 no esgoto antes da notificação das primeiras infecções na população.

Os resultados geraram um artigo científico, que serviu de inspiração para a professora Cristina, em Brasília, ainda em março de 2020. Impactada pela leitura, ela procurou o colega do Instituto de Química, o professor Fernando Sodré. "Já tinha no laboratório ferramentas de biologia molecular para monitorar microrganismos. Nós já trabalhávamos juntos com micropoluentes na água. Ele tinha experiência com epidemiologia do esgoto aplicada a drogas e eu tinha as ferramentas para fazer a análise."

Cada um deles redigiu um projeto e os submeteu a editais emergenciais para fomento de pesquisas relacionadas à Covid-19. Os documentos foram encaminhados em abril de 2020 para o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e para a FAP-DF (Fundação de Apoio à Pesquisa do DF), e os pesquisadores conquistaram o financiamento para a compra dos reagentes usados nos testes para identificar a presença do vírus nas amostras.

"São análises caras, e a gente também precisava implementar as metodologias. Pensamos: vamos submeter [o projeto], e daqui a pouco sai o dinheiro. Mas não foi o que aconteceu. Só em setembro recebemos os primeiros recursos para os insumos", conta a pesquisadora. Agora, eles refazem as contas para conseguir continuar a pesquisa até o fim do primeiro semestre deste ano.

A continuidade do projeto pode ser comprometida. Não vamos poder manter o monitoramento em oito estações. Talvez tenhamos de diminuir, ou manter as oito com frequência menor. Estamos com escassez de recursos financeiros

Cristina Brandão, pesquisadora da UnB

Legado da pesquisa

Ao contrário de outros vírus que se transmitem pelo contato com o esgoto e água contaminada, o risco de contágio por coronavírus nessas condições é mínimo, assegura a pesquisadora. "O vírus não está vivo, deixou uma impressão digital. Por dois meses a gente fez a análise do esgoto tratado que é lançado no ambiente e a gente não detectou [o vírus], ou, quando detectava, eram pouquíssimos fragmentos em remoções imensas."

O uso do conhecimento acumulado para detectar o coronavírus no esgoto é, aliás, um dos legados para a pesquisa de outras doenças transmitidas por vírus que sobrevivem no esgoto, como hepatite e rotavírus. "Estamos treinando nossas equipes para, quando a pandemia passar, começar a fazer o monitoramento da transmissão hídrica."

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