Brasília Drone cai durante show e corta supercílio de mulher no Distrito Federal

Drone cai durante show e corta supercílio de mulher no Distrito Federal

Empresa responsável pelo evento e a banda que contratou o equipamento apresentam contradições quanto à permissão do uso

  • Brasília | Paloma Castro*, do R7, em Brasília

Médica veterinária Natália Guidi foi atingida no supercílio direito no último sábado (23)

Médica veterinária Natália Guidi foi atingida no supercílio direito no último sábado (23)

Natália Nina Guidi/Arquivo Pessoal

Uma mulher sofreu um ferimento no supercílio direito após ser atingida por um drone durante um show no Festival Na Praia, no Distrito Federal, no último sábado (23). A médica veterinária Natália Nina Guidi, 31 anos, afirmou que havia percebido movimentos incorretos no equipamento, como baixa altitude, e que o aparelho sobrevoava próximo à cabeça do público, chegando a atingir o cabelo dela.

Segundo a vítima, antes de ser atingida, ela trocou de local três vezes, mas a tentativa de se proteger não surtiu efeito. Num determinado momento, o drone atingiu um coqueiro e caiu sobre ela, causando o ferimento. "Por milímetros, não pegou meu olho em cheio. Por sorte, eu consegui me proteger".

"Quando tudo aconteceu eu não conseguia enxergar, achei por um instante que tinha ficado cega", continuou. O susto fez com que o marido da vítima tirasse sua própria camisa durante o evento para estancar o sangue até a chegada dos brigadistas.

Ferimentos sofridos por Natália Guidi, e os pontos feitos após o atendimento no hospital

Ferimentos sofridos por Natália Guidi, e os pontos feitos após o atendimento no hospital

Natália Nina Guidi/Arquivo Pessoal

Naquela mesma noite, a vítima foi atendida num hospital particular e recebeu alta. A médica veterinária entrou com um processo extrajudicial contra o Grupo R2, responsável pelo evento.

De acordo com a nota veiculada pela R2 (confira a íntegra abaixo), a empresa disse ter se solidarizado com a vítima e prestado socorro imediato, levando-a de ambulância para o hospital e prestado a assistência necessária, mesmo diante do fato de o equipamento não ser de responsabilidade da empresa.

Especialista explica condições para pilotar um drone

De acordo com o fotógrafo e cinegrafista aéreo Daniel de Paula Hartl, dono de uma empresa em Brasília que produz filmagens aéreas, o equipamento não pode sobrevoar a uma distância menor que 30 metros em locais que contenha multidão.

Esta norma está prevista na regulamentação do espaço aéreo, na Legislação do Ministério da Defesa, em "Aeronaves não tripuladas e o acesso ao espaço aéreo brasileiro".

Drone sobrevoando durante filmagem

Drone sobrevoando durante filmagem

Divulgação/ShutterStock

"As pessoas que estão no evento precisam ter o consentimento de que estão sendo gravadas pelo drone. Essa condição precisa estar pelo menos atrás do ingresso ou em algum outro informativo", esclareceu o especialista.

Segundo ele, um piloto de drone precisa saber operar o equipamento conforme o regulamento do espaço aéreo, possuir o Seguro Reta para terceiros em caso de acidentes, ter o equipamento homologado pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e solicitar o pedido de voo para o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), responsável por autorizar a permissão do voo no local.

"Isso é o básico que um piloto precisa fazer para realizar um voo dentro da legislação", afirma Daniel Hartz. Ele explica que o drone é um aparelho conectado a um sistema de rádio e conexão via satélite e que quando se encontra em grandes estruturas metálicas e caixas de som pode descalibrar. "A interferência eletromagnética pode afetar esse sistema de GPS e de rádio", explica, acrescentando que na maioria dos drones está presente uma luz vermelha na parte dianteira e uma luz verde na parte traseira, o que indica bom funcionamento.

Caso o aparelho comece a piscar na cor amarela na parte de trás, quer dizer que apresenta má funcionamento de transmissão do rádio de controle e deve ser parado imediatamente, justamente para que não atinja as pessoas, conforme explicação do especialista.

A versão da banda

Se o aparelho operando durante o show pela empresa – que não quis se manifestar – já estivesse com defeitos, ele não poderia ter sido executado pelo piloto. De acordo com a banda Mingana, que contratou o serviço, ele parecia operar bem até os primeiros momentos do show.

O músico e assessor da banda, Leandro Borges da Silveira, disse que conseguia ver do palco o drone operando bem, mas que minutos depois chegou a ver o aparelho batendo em algumas superfícies. "Lá de cima eu pude ver os bombeiros socorrendo a moça, mas não sabia que tinha sido o nosso drone o causador do acidente. Fui saber disso só depois", contou.

Leandro afirmou que o advogado da banda, juntamente com os advogados do Grupo R2 e da vítima, estão dialogando para poder reparar os danos e custear quaisquer despesas e anseios de Natália. 

Contradições

O Grupo R2 informou que não autoriza que as atrações contratadas levem seus próprios drones e que não tinha conhecimento de que a banda Mingana estava com um equipamento aéreo de filmagem.

Entretanto, Leandro declarou o contrário. "A gente não sabia da informação de que não era permitido, tanto que avisamos a R2 que levaríamos uma equipe de filmagem e de drone para o evento e constatamos isso durante o credenciamento com os nomes de todas as pessoas envolvidas, inclusive, o 'piloto de drone'", afirmou.

Confira a íntegra da nota do Grupo R2:

"Sobre o acidente no último sábado, 23 de julho, o Grupo R2, responsável pelo Na Praia Festival, lamenta o ocorrido e informa que o drone não era operado pelos organizadores do evento e sim por uma empresa terceirizada contratada por um grupo musical que se apresentava no local sem que tenha havido autorização da produção para a utilização do mesmo, já que não há permissão para as atrações se utilizarem do equipamento para captação de imagens durante a apresentação.

O Grupo R2 se solidariza com a vítima e informa que tão logo foi comunicado do ocorrido no evento prestou socorro, levando-a de ambulância para o Hospital DF Star e prestando toda a assistência necessária, mesmo o equipamento não sendo de responsabilidade da empresa.

Atenciosamente,
Grupo R2"

Seguro RETA

O Seguro RETA é obrigatório e regulamentado pela Anac, sendo uma exigência para todos os tipos de aeronaves, independente da sua função, o que engloba atividades privadas, transporte de carga e de passageiros, equipamentos de pulverização e, inclusive, drones.

Veja abaixo as Regras Sobre Drones da Anac:

Divulgação/ANAC

A empresa responsável pelo drone não quis se manifestar até a última atualização desta reportagem.

*Estagiária sob supervisão de Fausto Carneiro.

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