Brasília Em 5 anos, 42 pessoas morreram afogadas no Lago Paranoá

Em 5 anos, 42 pessoas morreram afogadas no Lago Paranoá

Total de ocorrências entre 2017 e 2021 foi de 88. Acidentes recentes acendem sinal de alerta para segurança no curso d'água

  • Brasília | Jéssica Moura, do R7, em Brasília

Lago Paranoá, no Distrito Federal

Lago Paranoá, no Distrito Federal

Arquivo Público do Distrito Federal

Cartão-postal de Brasília, o Lago Paranoá é uma das boas opções de lazer dos moradores da capital federal. No entanto, nos últimos anos, acidentes envolvendo banhistas e embarcações chamam a atenção para os perigos e cuidados no uso do curso d'água. Na semana passada, a morte de Deysivânia Costa do Rego de Paula, 36 anos, atingida pelas hélices de uma lancha depois de resgatar o filho que caiu na água, comoveu a cidade. Um dia depois, no domingo (30), um jovem de 17 anos se afogou. 

Segundo os agentes de fiscalização, geralmente o abuso de bebidas alcoólicas, imprudência, embarcações superlotadas, com documentação vencida, falta de material de salvamento e as próprias características do Lago favorecem que acidentes aconteçam. Entre as ocorrências mais comuns estão afogamentos, incêndios em embarcações e colisões de barcos.

De acordo com balanço do Corpo de Bombeiros, nos últimos cinco anos, em 88 ocorrências, 42 pessoas morreram afogadas no Paranoá, o que corresponde a uma letalidade de 47,7%. 

Fiscalização

Capitania Fluvial de Brasília

Capitania Fluvial de Brasília

Divulgação/Marinha

A fiscalização da área é compartilhada entre militares da Marinha, da Polícia Militar do DF e do Corpo de Bombeiros. A Capitania Fluvial de Brasília é a instância responsável por fiscalizar as embarcações que transitam no local, que não são poucas. O Distrito Federal tem a 4ª maior frota do país: 55.022 embarcações licenciadas, das quais cerca de 2 mil transitam no espelho d’água .

Entre 2020 e 2022, as ações de fiscalização da Marinha resultaram na abertura de 21 inquéritos administrativos para apurar ocorrências no Lago Paranoá. Essas ações ocorrem em dias úteis aleatórios e aos finais de semana, quando a demanda aumenta.

“Verificam-se os documentos, tanto do condutor quanto da embarcação. Nesta etapa, detectamos se o cidadão está habilitado. Em um segundo momento, é verificado se a embarcação possui todos os equipamentos de salvatagem preconizados, ou seja, coletes, boias e luzes de navegação, e se está de acordo com a lotação máxima estipulada em documento”, explica o capitão de Fragata, Gúbio de Oliveira.

É uma baita responsabilidade. Um acidente em uma área turística é complicado, mas aqui não para porque é o lazer de Brasília, qualidade de vida. Só que há erros que são totalmente evitáveis com mais treinamento

Luciana Vezaro, proprietária da escola náutica Quality

Corpo de Bombeiros

Bombeiros do Grupo de Salvamento de Brasília

Bombeiros do Grupo de Salvamento de Brasília

Renato Araújo/Agência Brasilia

O Corpo de Bombeiros do DF tem 5 postos de guarda-vidas com três militares distribuídos em pontos fixos do Lago, onde há maior concentração de banhistas e maiores índices de acidentes: Ponte JK, piscinão do Lago Norte, Ponte do Bragueto, Ermida Dom Bosco e Prainha dos Orixás. Além disso, há dois quartéis de salvamento instalados na beira do Lago.

O tenente Ramon Andrade explica que, com a frota reduzida de embarcações, os bombeiros não fazem ronda no Lago. "Nesses dois quartéis ficam de quatro a seis mergulhadores de prontidão, o tempo todo, todos os dias. Somos formados para atuar nesse tipo de resgate. A partir de 8 a 10 metros não conseguimos enxergar mais nada. Dependo do lugar, tem resto de construção, vergalhões. Tem risco", explica.

Para os banhistas, não há restrições legais para o uso, mas os bombeiros costumam orientar a população a não se aproximar das áreas impróprias para banho perto das estações de tratamento e da Barragem do Paranoá, onde a profundidade chega a 40 metros.

Polícia Militar

Já a PMDF, com cinco militares por escala, faz rondas em todo o perímetro do Lago, seja por terra ou no espelho d´água. O grupamento atua sobretudo no resgate de pessoas que caem na água, no reboque de embarcações, combate de crimes ambientais, como pesca ilegal, e segurança de autoridades, como diplomatas e o governador Ibaneis Rocha, que moram nas proximidades. "Um dia desse um elemento estava usando uma canoa para transportar produtos furtados. Até uma televisão", conta o major Adelino José, do Batalhão Ambiental.

"É uma área bastante extensa, mas nossos policiais têm curso de salvamento aquático. Se for necessário, fazem o atendimento. A água do Lago é muito 'pesada' para uma pessoa que não tem condicionamento físico ir muito para dentro. É muito turva, tem muito lodo, as pessoas podem ficar presas. A profundidade também varia muito, pode enganar", alerta o militar.

Lago tem regras

No Paranoá, as embarcações precisam seguir regras de navegação. A documentação dos barcos e dos pilotos é toda emitida pela Marinha. Para ser proprietário do barco, seja para fins de lazer ou atividade comercial, é preciso ser maior de 18 anos e fazer o curso para motonauta, arrais amador ou aquaviário.

As duas primeiras formações podem ser feitas em uma escola náutica e habilitam o piloto para dirigir jet-skis e lanchas de até 78 pés (24 metros de comprimento). O maior iate do Lago Paranoá tem 60 pés. A capacitação em pilotagem é de 7 horas, feita em um só dia, e custa de R$ 700 a R$ 1,2 mil.

Depois disso, a escola encaminha o aluno para a Marinha, que aplica uma prova teórica. Se for aprovado, o candidato recebe a habilitação válida por 10 anos. Se a ambição foi se tornar aquaviário para pilotar embarcações comerciais, o curso é oferecido pela própria Marinha. A formação é de uma semana. Com a habilitação em mãos, basta dar a entrada na documentação na Marinha para ser dono da embarcação. O documento é válido por 5 anos.

Navegação

Para colocar a embarcação na água, é preciso cumprir alguns requisitos, como portar a habilitação. Assim como para dirigir automóveis, é proibido navegar embriagado. Além disso, os barcos só podem navegar, e os jet-skis fazer manobras de velocidade, a 200 metros da orla.  Perto da área de banhistas, como na altura da Ermida Dom Bosco, a velocidade tem que ser reduzida a 3 nós.

Para caiaques e stand-up paddle, o uso de coletes é obrigatório. A prática é voltada para maiores de idade. Os menores, só com autorização dos pais. Os praticantes só podem se distanciar até um ponto em que ainda possam ser vistos da área de apoio. Os botes infláveis, puxados por motos aquáticas estão proibidos para os menores de 12 anos.

Represa artificial

O Lago Paranoá é uma das maiores represas artificiais do mundo, e foi imaginado muito antes da construção da nova capital. Em 1894, o engenheiro, botânico e paisagista francês Auguste François Marie Glaziou, integrante da Comissão Cruls, que explorava o Planalto Central, definiu como seria a construção do lago de Brasília.

O edital do concurso que iria eleger o projeto da cidade incluía a exigência do lago. A solução técnica sugerida por Glaziou naquela época foi adotada nos anos 1960, e previa a inundação do chapadão entre o Gama e o Paranoá, que seria fechado em 1959 com a edificação da Barragem. A água, oriunda dos Rio Paranoá, Ribeirão do Torto e Riacho Fundo subiria até a cota mil.

Quando a água começou a subir, inundou também a Vila Amaury, acampamento que servia de abrigo para 16 mil trabalhadores que atuavam nas obras de Brasília, e precisaram ser retirados às pressas pela Novacap, deixando tudo para trás. Os barracos, bares, restaurantes, lojas, comércio, e até um mini-parque de diversões foram submersos pelas águas, e restaram as ruínas no fundo do Lago.

Ficha técnica

Capacidade: 500 milhões de litros de água
Profundidade: até 48 metros
Área: 40 km²

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