Em mais um dia de tensões entre Brasília e Caracas, o governo de Nicolás Maduro classificou o assessor especial para assuntos internacionais do Brasil, Celso Amorim, como um “mensageiro do imperialismo norte-americano”, em resposta a recentes declarações do brasileiro em relação ao país vizinho. Especialistas ouvidos pelo R7 apontam que as críticas a Amorim são direcionadas para atacar o próprio Lula.Apesar dos episódios recentes, a avaliação é de que não há tensão suficiente, por enquanto, que justifique rompimento de relações diplomáticas entre os dois países. Na visão de cientistas políticos, internacionalistas e constitucionalistas consultados pela reportagem, o maior prejudicado nessa história é Maduro.Para o professor de relações internacionais da UnB (Universidade de Brasília) Roberto Menezes, a reação de Maduro tem origem na situação na cúpula dos Brics. “Maduro tem dirigido toda sua bateria de ataques ao Itamaraty e, quando ataca Celso Amorim, está atacando o presidente Lula. Ele não teve ainda ‘coragem’ de agredir Lula diretamente”, avalia, ao destacar que os comportamentos do chavista são de “natureza grave”.Menezes, especialista em integração regional e relações internacionais da América Latina, compara as ações de Maduro às do ditador Daniel Ortega, da Nicarágua. Em agosto, Ortega expulsou o embaixador brasileiro no país, Breno de Souza Brasil Dias da Costa, depois de uma sequência de episódios que levaram ao esfriamento das relações entre Brasil e Nicarágua.Lula tentou interceder em defesa do bispo católico Rolando Álvarez, preso pela ditadura nicaraguense por críticas ao regime. O movimento em defesa do religioso, segundo o próprio petista, partiu de um pedido do Papa Francisco. Ortega não retornou o contato do brasileiro. Em resposta, Lula orientou que o embaixador não participasse mais de atividades que envolvessem o governo nicaraguense. A ausência teria sido a gota d’água para Ortega.“Maduro está querendo uma espécie de briga de rua, e o Brasil não vai entrar nisso. Vimos o caminho que a Nicarágua tomou, e Maduro toma o mesmo caminho, com a diferença que quem mais trabalhou para tirar a Venezuela do isolamento internacional foi o governo brasileiro. Quem perde é o Maduro, ele sabe que o Brasil trabalhou com afinco desde o ano passado para a Venezuela voltar à cena regional. A Venezuela jogou fora as oportunidades que o Brasil abriu”, acrescenta o professor.Especialista em direito político e constitucional, Antonio Celso Minhoto aponta que não há motivos que justifiquem rompimento das relações diplomáticas entre Brasil e Venezuela.“Há um desgaste entre os dois governos que, num passado relativamente recente, eram parceiros muito próximos. Não há, por ora, tensão suficiente para um rompimento diplomático de fato, algo muito mais grave e profundo. Contudo, esse ambiente inamistoso entre as duas nações pode escalar e se tornar algo mais grave”, avalia.Para Minhoto, o processo de desgaste tem sido contínuo e progressivo. “Lula, até mais que o PT, já não avaliza Maduro como no passado. Inclusive, muito embora não nomeie o governo venezuelano como uma ditadura, diz ser um “regime desagradável”. E Celso Amorim, nesse contexto, só fez ecoar o que Lula — e vários outros países — pensam da atual situação da Venezuela”, acrescenta o especialista.O especialista acha difícil prever eventual piora na situação. “O Brasil tem uma tradição, em ambiente internacional, de diálogo e busca de entendimento frente a eventuais atritos com outros países”, completa.O cientista político João Felipe Marques explica que o episódio expôs a atual situação entre Lula e Maduro, que “aparentam não estar tão alinhados como acreditava parte da classe política nacional. É necessário aguardar para saber se esse fato reverbera politicamente para Lula.”Para ele, a falta de alinhamento demonstra o enfraquecimento da capacidade diplomática da Venezuela, que não conseguiu manter o status de autonomia entre os vizinhos. “A Venezuela tinha o Brasil como uma das poucas democracias que apresentavam simpatia à liderança de Maduro”, continua.Marques ressalta que, desde o governo de Jair Bolsonaro (PL), o Brasil nunca apresentou uma tensão dessa magnitude com a Venezuela. “No que tange à credibilidade de um bloco como os Brics, seria estratégico, por parte do Brasil, impedir a entrada de uma nação tão frequentemente tida como antidemocrática. O custo político de fazer negócios frequentes com a Venezuela pode ter sido o argumento central para a ação”, completa.O professor Roberto Menezes acredita que Lula deve adotar o princípio da reciprocidade nas relações diplomáticas e também convocar a embaixadora brasileira na Venezuela, Glivânia Maria de Oliveira, a Brasília.“O Brasil vai procurar administrar a relação, não vai tomar a iniciativa de fazer algum gesto mais brusco. O governo brasileiro deve aplicar a reciprocidade, é o que é esperado. Talvez o governo brasileiro tome a opção de não romper relações, mas também não envie a embaixadora de volta”, prevê.Para Menezes, o governo brasileiro vai manter a posição de não reconhecer nem endossar a suposta reeleição de Maduro, num processo eleitoral permeado de polêmicas. “O Brasil teme a imprevisibilidade de Maduro. O Brasil teme que a Venezuela seja um fator de instabilidade política na região. O que o Brasil mais teme é uma aventura militar da Venezuela na Guiana”, conclui o professor.Amorim foi à Câmara dos Deputados nessa terça (29), para audiência na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional. “Há um mal-estar hoje. Torço para que desapareça, mas vai depender de algumas ações”, afirmou o assessor, que evitou chamar o governo de Maduro de ditadura.Ele também destacou que, “formalmente, não houve veto”, porque não ocorreu uma votação em Kazan. “As decisões são tomadas por consenso, e o Brasil achou que neste momento a Venezuela não contribui para o melhor funcionamento dos Brics”, acrescentou, ao reiterar que a decisão é momentânea.Nessa terça (29), o assessor de Lula também afirmou que o Brasil não concordou com a expansão desenfreada dos Brics e pontuou que os países convidados — foram 13 selecionados na semana passada — devem ser representativos nas suas regiões econômica e politicamente.Em resposta, nessa quarta (30), em nota, o Ministério das Relações Exteriores da Venezuela disse que as falas do assessor de Lula são “intrometidas e grosseiras”. Maduro decidiu, ainda, convocar o embaixador venezuelano em Brasília, Manuel Vadell, para “consultas imediatas”.O governo da Venezuela informou que as manifestações de repúdio às falas de Amorim foram apresentadas ao Encarregado de Negócios do Brasil no país. Procurado pelo R7, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro não respondeu aos questionamentos.O texto (leia a nota completa abaixo) também critica o veto brasileiro à entrada da Venezuela nos Brics, grupo que, inicialmente, reunia Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Desde o início deste ano, Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos fazem parte do bloco. Na 16ª Cúpula dos Brics, na semana passada, em Kazan, na Rússia, a Venezuela ficou de fora da lista dos países candidatos ao status de parceiros do grupo econômico, após articulação do Brasil.O Ministério do Poder Popular para as Relações Exteriores da República Bolivariana da Venezuela convocou hoje o Encarregado de Negócios da República Federativa do Brasil, a fim de manifestar seu mais firme repúdio às recorrentes declarações intrometidas e grosseiras de porta-vozes autorizados pelo Governo Brasileiro, em particular os oferecidos pelo Assessor Especial para Relações Exteriores, Celso Amorim, que, comportando-se mais como um mensageiro do imperialismo norte-americano, tem se dedicado impertinentemente a emitir juízos de valor sobre processos que só lhe correspondem aos venezuelanos e suas instituições democráticas, o que constitui uma agressão constante que mina as relações políticas e diplomáticas entre os Estados, ameaçando os laços que unem os dois países.Da mesma forma, expressou-se o total repúdio à atitude antilatino-americana, contra os princípios fundamentais da integração regional, expressos na Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), bem como na longa história de unidade em nossa região, consumada no veto aplicado pelo Brasil na Cúpula do BRICS em Kazan, com o qual a Venezuela foi excluída da lista de convidados a membros associados da referida organização.Da mesma forma, denunciamos o comportamento irracional dos diplomatas brasileiros, que, contrariando a aprovação dos demais membros do BRICS, assumiram uma política de bloqueio, semelhante à política de Medidas Coercitivas Unilaterais e punição coletiva de todo o povo venezuelano.Foi-lhe dito que a Venezuela reserva, no âmbito da sua política externa, as ações necessárias em resposta a esta atitude, que compromete a colaboração e o trabalho conjunto que até agora foram desenvolvidos em todos os espaços multilaterais.Por fim, informa-se a comunidade nacional e internacional que, seguindo instruções do Presidente Nicolás Maduro Moros, foi decidido convocar imediatamente o Embaixador Manuel Vadell, que nos representa em Brasília, para consultas.