Economia Preço alto das passagens aéreas não impede consumidor de viajar

Preço alto das passagens aéreas não impede consumidor de viajar

Compra antecipada, adaptações nos roteiros e hospedagem mais barata são estratégias para "matar as saudades" de voar

Agência Estado

Resumindo a Notícia

  • Com as passagens de avião mais caras, consumidores adaptam os planos, mas não desistem de viajar
  • Público que está "com saudade de viajar" garante a recuperação da demanda do setor aéreo
  • Preços de voos para a Patagônia, por exemplo, podem variar entre R$ 3.800 e R$ 7 mil
  • Valor médio da passagem para voos domésticos no Brasil está no patamar mais alto desde 2009
Com saudades de viajar, famílias se planejam e antecipam compras de passagens

Com saudades de viajar, famílias se planejam e antecipam compras de passagens

Pixabay/Bilal EL-Daou

Os brasileiros estão se adaptando como podem para garantir as viagens de férias, e ficar de olho no calendário se tornou uma das estratégias para driblar os altos preços das passagens de avião. Luciana Miranda, que costuma viajar ao menos duas vezes por ano, esperava pagar algo em torno de R$ 2.500 pelo voo para a Patagônia argentina, mas, apesar de ter comprado os bilhetes com três meses de antecedência, pagou R$ 3.800.

Na quinta-feira (7), quando Luciana embarcou para as férias, a irmã dela, Ana Lúcia Miranda de Moura, seguiu no mesmo voo com a família, composta por uma criança e um bebê. Para ir a dois destinos do Sul da Argentina, ela pagou mais de R$ 10 mil, e conta que uma colega, que comprou as passagens três dias depois, teve de desembolsar R$ 14 mil para viajar com a filha.

Ainda que os preços estivessem nas alturas, elas não cogitaram mudar os planos das férias. "Achei bem caro, mas estava morrendo de saudade de ir para lugares diferentes. Queríamos levar as crianças para ver a neve", diz Ana Lúcia.

Com a ideia fixa de levar os filhos para a neve, porém, elas desistiram de ir a Ushuaia, que fica no extremo sul da América do Sul, lugar para onde a passagem era ainda mais cara, e também optaram por ficar em hotel mais barato. Ainda reduziram o orçamento para passeios e restaurantes. "Coisas que pagaríamos à vista, parcelamos. Mas não pensamos em desistir", conta Luciana.

Paisagem de Torres del Paine, na Patagônia, na divisa entre o Chile e a Argentina

Paisagem de Torres del Paine, na Patagônia, na divisa entre o Chile e a Argentina

Pixabay/TravelCoffeeBook

São pessoas como Ana Lúcia e Luciana que estão garantindo a recuperação da demanda do setor aéreo. Após dois anos de pandemia e fronteiras fechadas, os consumidores estão encarando os valores altos, mas boa parte, em todo o mundo, não abre mão de viajar.

No Brasil, o valor médio da passagem para voos domésticos está no patamar mais alto desde 2009 e, mesmo assim, a demanda em abril atingiu 90% da registrada no mesmo período de 2019. Naquela época, o preço médio pago pelo consumidor era 13% mais baixo que o atual. O mercado internacional, porém, ainda está em 66% do fluxo que tinha antes da covid.

Dados da Iata (Associação Internacional de Transportes Aéreos) apontam que a América Latina é hoje a segunda região com melhor recuperação da demanda, atrás apenas da América do Norte - a entidade não revela dados por país. A projeção é que a América Latina encerre o ano com 94,2% da demanda de 2019. A América do Norte deve atingir 95%, e a Europa deve ficar com 82,7%.

"A indústria tem sido mais sustentável e robusta do que muitas pessoas esperariam. Na América Latina, principalmente, o panorama é bastante positivo, porque a recuperação foi muito forte", avalia o presidente da Iata, Willie Walsh.

Arturo Barreira, presidente da Airbus para América Latina e Caribe, também diz estar otimista com a região. "O que está claro é que, conforme caíram as restrições, o tráfego aéreo voltou mais rápido do que se previa. Esperávamos que a demanda voltasse aos níveis pré-pandêmicos na região em 2024 ou até 2025, dependendo do cenário. Mas agora já se fala que deve ser no próximo ano."

Demanda

Apesar de a retomada da demanda por viagens aéreas ter sido mais rápida que o esperado, isso não significa que as empresas do setor estejam em situação confortável. Com o preço do combustível de aviação subindo de forma acelerada, deve ser difícil a recuperação financeira acompanhar o ritmo da demanda.

O presidente da Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas), Eduardo Sanovicz, reconhece que a procura por voos tem avançado bem, mas lembra que os dados atuais incluem passageiros que compraram bilhetes aéreos antes da pandemia, tiveram de remarcar as viagens e só estão embarcando agora. Para ele, essa retomada indica que parte dos consumidores é capaz de arcar com preços superiores, mas a classe C deixou de viajar. Questionado sobre a possibilidade de haver um "teto" para a demanda, que não tem contado com a classe C, ele diz não ter como fazer essa previsão.

O executivo destacou que, embora a ocupação esteja em um patamar positivo, o setor vive um momento "duro", devido ao preço do combustível. No país, o querosene de aviação subiu 92% em 2021, e 71% no acumulado deste ano.

Preocupação

Walsh, da Iata, afirma que a cotação do combustível é, hoje, uma das principais preocupações do setor, que deverá gastar US$ 192 bilhões com querosene em 2022. "Não tem como as companhias aéreas absorverem isso", diz.

A associação prevê que o lucro retorne à América Latina e ao mundo, em 2023. Mas, no Brasil, antes mesmo da pandemia, as empresas já não tinham ganhos financeiros. A última vez em que houve bons resultados foi em 2017, quando as companhias, juntas, lucraram R$ 413,7 milhões.

Nos anos seguintes, os prejuízos foram de R$ 1,9 bilhão e R$ 3,3 bilhões. Mas as contas explodiram mesmo em 2020, com a chegada da Covid-19, e de perdas que alcançaram R$ 20,3 bilhões naquele ano.

Para Walsh, ainda não é possível afirmar se as empresas vão registrar lucro no Brasil em 2023. "Se você considerar a região toda, 2023 é algo realístico. Em alguns países específicos, pode não ser. No Brasil, ainda está havendo reestruturações, e não posso falar país por país. Mas a recuperação (da demanda) tem sido rápida."

Neste ano, a única região que deverá ter lucro é a América do Norte, com US$ 8,8 bilhões. Segundo o presidente da Iata, a diferença entre a região e a América Latina é que o governo dos Estados Unidos subsidiou o setor e concedeu às empresas empréstimos a juros baixos. Isso fez com que as companhias mantivessem um maior número de funcionários, e pudessem adicionar capacidade de forma mais ágil quando a demanda voltou. Também colaborou para a América do Norte o tamanho robusto do mercado doméstico.

"A posição (financeira) relativa da América Latina é mais fraca porque não houve socorro (do governo), e o mercado de carga não ajudou tanto (na Ásia principalmente, o segmento tem sido uma alavanca importante), mas o panorama ainda é bastante positivo para a região", diz o executivo.

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