Educação Adolescente cria projeto para empoderar jovens negros

Adolescente cria projeto para empoderar jovens negros

Isabelle Christina criou um jeito para preparar, elevar a autoestima e dar oportunidades iguais para meninas e meninos da periferia 

  • Educação | Karla Dunder, do R7

Regiane Santos e a filha Isabelle Christina, as criadoras do projeto Meninas Negras

Regiane Santos e a filha Isabelle Christina, as criadoras do projeto Meninas Negras

Edu Garcia/R7 - 24.07.19

“Cansei de ser um grão de feijão na panela de arroz, preciso mudar essa realidade”, disse Isabelle Christina para a mãe ao voltar de um intercâmbio aos Estados Unidos e perceber que era a única menina negra no grupo. Essa foi a semente do projeto Meninas Negras, que tem como objetivo auxiliar meninas negras da periferia a sonharem alto.

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Isabelle criou o Meninas Negras aos 14 anos. Com boas notas, ela conquistou uma bolsa para estudar em uma escola de elite de São Paulo.  “Minha mãe me incentivou muito e também foi muito rigorosa com relação à minha formação”, conta. “Ela sabia que a única maneira de eu não me privar das oportunidades por questões raciais e econômicas seria por meio da educação.”

"Cansei de ser um grão de feijão em uma panela de arroz branco, quero muito que todas as pessoas tenham as mesmas oportunidades"

Isabelle Christina

Regiane Santos, a mãe de Isabelle, começou a alfabetizar a filha quando ela ainda tinha 2 anos de idade. Boneca? Nem pensar. O presente preferido da mãe para a menina eram os livros. “Minha mãe sempre me diz que eu tenho de escolher onde quero estudar e onde vou trabalhar, sempre sonhamos grande”.

Mesmo trabalhando em São Paulo e morando em Mogi das Cruzes, Regiane tinha tempo de acompanhar o desenvolvimento da filha e quando via algo errado na lição de casa, não pensava duas vezes, “ela apagava tudo na hora e eu tinha de refazer”.

Jovens integrantes do projeto Meninas Negras

Jovens integrantes do projeto Meninas Negras

Edu Garcia/R7 - 30.05.19

Mas Isabelle reconhece que todo esse rigor fez a diferença.  “Minha mãe foi o alicerce de tudo, conforme fui crescendo, tive a oportunidade de estudar em bons colégios em São Paulo, mas a partir do momento que comecei a me desenvolver e a frequentar esses lugares, percebi que eu era a única menina negra do ambiente, senão uma das poucas. E isso começou a me causar uma indignação muito forte.”

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Aos 15 anos, após o intercâmbio realizado por meio de uma bolsa de estudos, Isabelle decidiu mudar essa realidade. “A ideia inicial seria criar um blog para o empoderamento de meninas negras, mas não era exatamente o que a gente procurava”, diz. “Queria colocar a mão na massa, fazer algo factível, fomos amadurecendo essa ideia e em 2014 surgiu o projeto Meninas Negras”.

"Sonhar grande ou pequeno dá o mesmo trabalho, então, vamos sonhar grande"

A ideia era inserir, a princípio, meninas negras nos padrões acadêmicos, profissionais e culturais. 

Projeto resgata a autoestima dos jovens

Projeto resgata a autoestima dos jovens

Edu Garcia/R7 - 24.07.19

O primeiro passo do projeto é trabalhar a autoestima das meninas, mostrar que elas têm potencial e são capazes. “No início, a ideia era trabalhar só com as meninas, mas percebemos que não era justo, que a carência é grande, embora as meninas negras estão na base da pirâmide social”.

A ideia é atender e mudar a realidade de meninas de 12 a 24 anos. Como os perfis são muito diferentes, o primeiro passo é mapear a idade e focar nos possíveis próximos passos: ensino médio, faculdade ou mercado de trabalho. A partir daí são montadas estratégias e planos de ação para auxiliar no desenvolvimento de cada um.

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Criatividade, liderança e estratégias de como criar um projeto, por exemplo, são habilidades do dia a dia trabalhadas no projeto. “São aspectos importantes para desenvolver um profissional do futuro, mas as escolas não têm isso no currículo, também oferecemos reforço escolar e aulas de idioma para que essas meninas e meninos possam ir atrás e conquistar uma oportunidade”, diz Isabelle.

"Se não fosse o projeto, eu estaria em algum baile funk neste momento"

Manuela Santos

Todos que passam pelo projeto Meninas Negras também contam com apoio e acompanhamento. “Damos suporte e mentoria para que eles não desistam e tratamos de questões que podem parecer mínimas, mas não são: como se vestir para uma entrevista? Não tem roupa? A gente ajuda”, explica.

Manuela Santos Bernadino, de 19 anos, é um exemplo de que referências e oportunidades fazem a diferença na vida dessas meninas. “Sinceramente? Se não fosse o projeto eu estaria, neste exato momento, em algum baile funk ou fazendo coisas que minha mãe não aprovaria”, desabafa Manuela.

Projeto resgata a autoestima dos jovens e desenvolve habilidades

Projeto resgata a autoestima dos jovens e desenvolve habilidades

Edu Garcia/R7 - 24.07.19

Hoje a adolescente estuda e integra os quadros da IBM.  “Antes de conhecer o projeto, eu estava muito preocupada porque o ensino médio ia acabar e eu precisava de um emprego”, conta. Para conquistar a vaga na multinacional, foram seis meses de preparo para a entrevista. “Eu fiquei muito emocionada, porque nunca imaginei que conseguiria entrar em uma empresa desse porte, nunca achei que fosse um lugar para pessoas como eu.”

“Eu mudei e me orgulho de ter participado do projeto Meninas Negras, fui criada pelos meus avós, sei o que é passar fome, sou uma menina periférica, que acorda todo dia às 4h30 para ir trabalhar, não tinha roupa para a entrevista e luto muito, diariamente, para conseguir o meu espaço, não é fácil, mas não perco meu foco”.

Manuela inspirou os irmãos Daniela e Marcio a seguirem pelo mesmo caminho, num ciclo virtuoso que se constrói aos poucos, com muita persistência e determinação. “Eu sou o mais velho e me inspiro nas meninas para conquistar os meus sonhos, quero seguir na área de tecnologia”, diz Marcio.

Daniela conta que chegou a parar de estudar por conta de briga na escola e não se interessava por nada, até encontrar o desafio de desenvolver um aplicativo para resolver um problema na sociedade. “Comecei a abrir meus olhos, fui atrás de cursos, e via minha irmã se desenvolver no mercado de trabalho, levo isso como inspiração para a minha vida”.

Isabelle e Regiane fazem acompanhamento e mentoria dos jovens

Isabelle e Regiane fazem acompanhamento e mentoria dos jovens

Edu Garcia/R7 - 24.07.19

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