Educação Estudantes com deficiência se tornaram 'invisíveis' na pandemia

Estudantes com deficiência se tornaram 'invisíveis' na pandemia

Crianças têm dificuldade em receber material adaptado às suas necessidades, mas aplicativo desenvolvido com a Apae auxilia na alfabetização

Ana Clara: aplicativo de realidade aumentada

Ana Clara: aplicativo de realidade aumentada

Arquivo Pessoal

A autônoma Núbia Cristina da Silva Almeida é mãe de duas meninas, Ana Clara de 12 anos e Beatriz de 6 anos. Ana é deficiente intelectual e a mãe precisa se desdobrar nesse período de isolamento social para dar conta do aprendizado das filhas.

"É um momento muito difícil, preciso ser professora e fico preocupada se realmente estou auxiliando minha filha no aprendizado, costumo dizer que voltei a estudar", conta Núbia.

A mãe conta com o apoio da professora, que ajuda a tirar dúvidas por vídeochamada e também com o auxílio da Apae. "Minha filha está no sexto ano, mas as atividades são adaptadas para ela, que por conta da deficiência intelectual, está na fase de alfabetização."

No processo de aprendizagem, Ana conta com figuras, jogos e o uso de aplicativos. "Como toca criança, ela gosta muito de usar o celular e os aplicativos tem ajudado tanto nesse processo de alfabetização como da fala."

Um dos aplicativos utilizados é o Educ 360º, que é gratuito e tem como proposta a inclusão de todas as crianças, principalmente com autismo ou Síndrome de Down. "As crianças deficientes estão quase invisíveis principalmente neste período de pandemia, nossa proposta é que todos tenham acesso à educação", explica Fábio Educ, diretor da Educ360º. 

O aplicativo foi desenvolvido com orientações dos profissionais da Apae de Cotia. "As crianças austistas e com Síndrome de Down têm dificuldade em manter a atenção por muito tempo, criamos uma plataforma de realidade aumentada, que permite a interatividade, além de trabalhar a lógica e estimular a fala."

Um game também foi desenvolvido para ensinar as letras e auxiliar no processo de formação de palavras. E o aplicativo já é utilizado por 600 famílias. No entanto, o caminho a ser percorrido é longo.

Ana Clara e Núbia: aprendizado

Ana Clara e Núbia: aprendizado

Arquivo Pessoal

Para Carolina Quedas, especialista em desenvolvimento motor de pessoas com TEA (Transtorno do Espectro Autista) e professora da Universidade Anhanguera, "muitas famílias hoje estão sem saber o que fazer com as crianças em casa, boa parte do material enviado não é adaptado, as atividades são padronizadas não respeitam o plano de ensino invidualizado que essas crianças precisam."

Uma das características das crianças autistas é a necessidade de rotina e da previsibiliade das situações. "Como eles não gostam de mudanças é preciso que a família use um quadro de rotina, explique de forma concreta e com imagens o que está acontecendo."

O período do retorno presencial também exigirá uma nova adaptação e cuidados especiais.

Para o professor de Direito e pós-doutor Marcelo Válio "o poder público, em nenhuma instância, deu a atenção devida às pessoas deficientes, houve infração e negligência à lei de inclusão."

"As famílias não tiveram os seus direitos garantidos e o retorno às aulas presenciais segue sem observar as especificidades e necessidade de cada um, para as crianças deficientes, o risco de contágio é ainda maior."

O professor sugere para as famílias que se sentiram lesadas façam um boletim de ocorrência e denúncia junto ao Ministério Público.

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