Educação Professora usa sucata e tecnologia para mudar a vida de alunos em SP

Professora usa sucata e tecnologia para mudar a vida de alunos em SP

Débora Garofalo concorre ao Nobel da Educação e mostra com a robótica pode impactar de forma criativa a vida de estudantes e da sociedade

Professora usa tecnologia e impacta a vida de estudantes da periferia. Saiba quais os benefícios da robótica na escola

Débora Garofalo: reconhecimento internacional

Débora Garofalo: reconhecimento internacional

Arquivo Pessoal

Débora Garofalo é professora da rede pública de São Paulo há 14 anos. Em 2015, embora formada em Letras e pedagogia resolveu apresentar um projeto na área de tecnologia e passou a atuar com programação e robótica junto aos alunos da escola municipal Almirante Ary Parreiras. Débora foi protagonista de uma verdadeira revolução na escola e na comunidade da Alba, na periferia da zona de sul, e o reconhecimento veio nesta semana com o anúncio dos dez finalistas do Global Teacher Prize, da Varkey Foundation, o prêmio Nobel da Educação.

“Apresentei o projeto para o conselho da escola porque vi na tecnologia uma forma de transformar a vida das crianças, que vivem na comunidade próxima a escola e estavam acostumadas com a violência, com enchentes e doenças”, conta Débora.

Ao observar o entorno do colégio, a pedagoga percebeu que havia uma quantidade muito grande de lixo jogado pelas ruas. Então, por que não usar essa sucata nas aulas de tecnologia? “A primeira fase foi levar os alunos para fotografar o bairro, observar o problema do lixo e conversar com os moradores”. Uma proposta relativamente simples, mas que gerou resistência. “Ir para a rua tudo bem, mas pegar lixo não, em um primeiro momento eles não se empolgaram”.

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Depois de muita conversa, os alunos aceitaram o desafio. Foram para a rua, observaram a realidade, entenderam o que precisava ser mudado e colocam a mão na massa. Na escola, o primeiro projeto desenvolvido foi um carrinho movido a balão de ar. “Algo relativamente simples, mas despertou a criatividade e a satisfação ao perceber que poderiam fazer algo que funciona”. O carrinho virou febre na escola e as aulas passaram a ser públicas, para conscientizar a comunidade sobre a reciclagem.

Em três anos de trabalho, já foram retirados das ruas uma tonelada de material reciclável. “Com o aprendizado mão na massa, os alunos perceberam que podem intervir na sociedade, mas o mais importante foi o resgate da autoestima, eles perceberam que são capazes, que podem fazer e ver o resultado, essas crianças voltaram a sonhar”.

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Nesse processo mão na massa, alunos e professora aprenderam juntos. “Eu também não sabia muitas coisas e quebramos a cabeça, também erramos juntos muitas vezes, o professor é um mediador de conhecimento, cabe aos alunos desenvolver o processo de observação, descobertas, eles aprendem a resolver problemas, trabalhar em grupo e vivenciar o conteúdo”, avalia Débora.
“Uma alegria ver os alunos buscando soluções para serem usadas em casa, como um circuito de energia limpa”, diz.
Os estudantes apresentaram os trabalhos desenvolvidos não apenas na comunidade, mas também na USP (Universidade de São Paulo) no FIC (Festival de Invenção Criativa) e também na Febrace (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia). Este ano o grupo não poderá participar, Débora estará em Dubai para a premiação do Global Teacher Prize.

Mão na massa

A autonomia dos alunos é um dos principais ganhos do uso da tecnologia dentro da escola. Para Nathan Rabinovitch, fundador da Beta Kit, empresa de educação maker, “as escolas têm desenvolvido um currículo mais tecnológico seja nas aulas curriculares ou extras, o que tem trazido ganhos para os estudantes, que usam a criatividade para produzir conhecimento”.

Para Rabinovitch, o aprendizado maker ou mão na massa, dá autonomia aos alunos. “Eles são protagonistas do conhecimento, trabalham com objetos diferentes, precisam pesquisar materiais, desenvolvem uma hipótese, trabalham em grupo e o erro não é visto como um problema, mas uma oportunidade de rever o processo, de investigar, testar e entender como chegou naquele resultado”.

Essas habilidades tiram as crianças do campo do consumo e da simples reprodução de tecnologia. “Elas aprendem a pensar, tem liberdade para produzir e criar”, explica. “Temos uma geração muito mais ágil e as salas de aula não representam esse universo, o celular pode ser mais usado na escola, no dia a dia, no desenvolvimento de um aplicativo próprio, por exemplo”.

A robótica, como surge nos cursos de muitas escolas, vai além da construção de robôs, pode ser usada no desenvolvimento de aplicativos, programação. O Colégio Marista Arquidiocesano, em São Paulo, trabalha com a tecnologia com foco no desenvolvimento de competências para as profissões do futuro. “Desenvolvemos ferramentas para a geração de 2030”, explica Cleusa Diniz, coordenadora de tecnologia do colégio.

O conteúdo apresentado na sala de aula é ampliado com o uso da tecnologia. “As crianças do fundamental 1 aprenderam o movimento de rotação da Terra, com sucata fizeram os planetas e construíram um motor para reproduzir a rotação”. Já os alunos do 7º ano partiram da história e elaboraram um projeto com base na Idade Média, comparando a tecnologia mecânica da época com o que temos hoje.

“Temos muitos desafios, como a formação dos professores e ter mais espaço no currículo porque ao mesmo tempo que temos de preparar essa futura geração, temos de atender a todo o conteúdo exigido para o vestibular”.