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‘Foi exaustivo’, desabafa judoca sobre conquistar vaga olímpica em meio às enchentes do RS

Ketleyn Quadros mora em Porto Alegre e teve de se dividir entre treinos, competições e ajudar quem precisava de apoio no estado

Entrevista|João Acrísio, do R7*

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Ketleyn Quadros conquistou o bronze em Pequim-2008 Jonne Roriz/Estadão Conteúdo — 11.08.2008

Aos 45 minutos do segundo tempo, ou melhor, no Golden Score de uma luta de judô, Ketleyn Quadros, conquistou a vaga para disputar a medalha de ouro na categoria de 63 kg no judô das Olimpíadas de Paris-2024. Só um mês antes da competição, ela garantiu sua participação.

“Conquistar essa vaga nesse ciclo curto foi muito desafiador, foi muito cansativo, foi muito exaustivo. Mas digo que vale cada esforcinho”, afirma.

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Em um ano conturbado, devido ao excesso de competições e ao desastre no Rio Grande do Sul, a atleta está de volta às Olimpíadas 16 anos após realizar um feito histórico. Em Pequim-2008, a judoca conquistou bronze e se tornou a primeira medalhista individual da história do Brasil.

Paris será a terceira Olimpíadas de Ketleyn, que esteve em Tóquio-2020 e terminou em sétimo lugar. Mas, para conseguir a vaga deste ano, ela enfrentou um dos maiores desafios fora dos tatames. A judoca é atleta da Sogipa (Sociedade de Ginástica de Porto Alegre), mora em Porto Alegre e estava lá na tragédia.

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A Sogipa chegou a receber mais de 400 desabrigados durante as enchentes no RS Divulgação/Sogipa

Em maio, o Rio Grande do Sul entrou em calamidade devido às enchentes. Em poucos dias, a vida de todos os moradores virou de ponta-cabeça. Manter o ritmo de treino e viajar o mundo para competir, enquanto o estado era devastado, não foi fácil.

“A gente conseguiu ajudar até o final de semana as pessoas ali no clube, mas tivemos que viajar mais uma vez, fazendo uma escolha difícil”, lembra.

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Viver o sonho olímpico aos 36 anos não é para qualquer um. O cansaço de um ciclo apertado somado à catástrofe parecia deixar tudo pior. Mas Ketleyn encontrou uma saída.

“Fazer o que precisa ser feito nunca é fácil, mas conseguir ressignificar e poder ir para uma competição, mostrar a garra do nosso povo e voltar com um pouquinho de alegria para o Brasil já vale a pena”, avisa.

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A judoca conversou com o R7 enquanto a equipe brasileira de judô estava no Brasil e falou dos desafios nas últimas Olimpíadas e da confiança que levou para Paris. Confira a entrevista na íntegra.

R7 — Quais são as expectativas para essas Olimpíadas?

Ketleyn Quadros — A minha expectativa não poderia ser melhor. A gente pensa nos Jogos Olímpicos como se fossem a cada quatro anos, mas, para nós, atletas, que, quando sai da fase de brincadeira, que está se divertindo na modalidade, já sonha com uma possível Olimpíadas. Participar e poder voltar com a medalha olímpica é o melhor cenário possível, por isso a gente se dedica diariamente.

Ketleyn Quadros garantiu a vaga para Paris-2024 um mês antes da competição Reprodução/Instagram @ketleynquadros

R7 — Como foi conquistar essa convocação no limite do prazo em um ciclo de competições tão curto?

Ketleyn Quadros — Fico muito honrada em representar mais uma vez o nosso país. Fico feliz porque realmente ir para as Olimpíadas é uma construção. Ela é conquistada. E conquistar essa vaga nesse ciclo curto foi muito desafiador, foi muito cansativo, foi muito exaustivo. Mas digo que vale cada esforcinho.

É abrir mão de muitas coisas para essa preparação. O nosso corpo é a ferramenta de trabalho. A gente tem que estar atenta com cada detalhe, com cada cuidado e, ao mesmo tempo, fazer um treino que exige o máximo. Você está constantemente entre a lesão e o extremo.

R7— Como é voltar para o cenário olímpico 16 anos após sua primeira participação nos Jogos?

Ketleyn Quadros — Olimpíadas são um mundo à parte. Realmente parece um mundo paralelo, eu não sei explicar. É uma magia de outro mundo. É por isso que a gente fica tão apaixonada, queremos viver esse sonho quantas vezes puder.

Essa é a parte boa de se exigir e dar o seu melhor. É a concretização de um sonho, a primeira etapa dele. Porque chegam os Jogos Olímpicos e conseguir desempenhar toda a sua potência na maior plenitude possível é confiar que a magia olímpica está sempre do seu lado.

R7 — Vimos as enchentes no Rio Grande do Sul e todo o desastre que atingiu Porto Alegre. Como atleta da Sogipa, como foi esse momento?

Ketleyn Quadros — Vim de um ciclo passado por uma pandemia, situações difíceis e, mesmo assim, tive que seguir. Esse ano, quando parecia que tudo estava caminhando muito bem, a gente passou por essa tragédia bem na época de preparação de Campeonato Mundial. Lidar com tudo isso foi como se estivesse ligada no 320 [volts], foi super exaustivo.

Sair para competir num período assim muito difícil... E a gente acaba fazendo isso o tempo todo. Desde quando a gente sai do convívio dos nossos pais e irmãos, avós, com 15/17 anos, a gente está sempre passando por essas adaptações.

R7 — Você conseguiu competir naquele período?

Ketleyn Quadros — Não foi fácil. Era o nosso papel naquele momento, foi nisso que foquei. Fazer o que precisa ser feito nunca é fácil, mas conseguir ressignificar e poder ir para uma competição, mostrar a garra do nosso povo... Voltar com um pouquinho de alegria para o Brasil, já vale a pena.

Ketleyn Quadros teve ano desgastante de competição e treino até conseguir vaga olímpica Reprodução/Instagram @ketleynquadros

R7 — Nas primeiras Olimpíadas que participou, você realizou um feito histórico e agora, 16 anos depois, está de volta. Como sua experiência pode te ajudar em Paris?

Ketleyn Quadros — Acredito muito nos processos que o esporte dá. A cada dia a gente passa por desafios. Quando acaba o dia, eu passo uma régua, o que aprendi de novo, o que eu poderia melhorar. Os desafios são infinitos. Toda vez que você acha que melhorou uma coisa, e já começa a se sentir confortável com aquela nova habilidade, vem alguém que também treinou, assistiu e acha alguma ferramenta que te prejudica.

R7 — Como sua experiência pode ajudar a equipe?

Ketleyn Quadros — É que nem um videogame: você passa, fica craque naquela habilidade. Depois, chega um chefão, outras fases vão sendo construídas. Esse é um dos processos que o judô dá, que o esporte proporciona para todos nós atletas. É extremamente desafiador.

R7 — Em um esporte individual, qual é o sentimento de estar com a equipe brasileira?

Ketleyn Quadros — A gente vê realmente uma equipe dedicada, comprometida. As competições para o Brasil são sempre distantes, a gente pega voos de 30 a 40 horas, pesa no outro dia e já está lutando. Digo que a gente já sai daqui com um shido [punição do judô]. Isso mostra muito a nossa força de vontade.

*Estagiário do R7 sob supervisão de Carla Canteras.

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