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Com a crise imigratória em Nova York, crianças estrangeiras vendem bala no metrô

Mais de 180 mil estrangeiros passaram pela triagem das agências locais nos últimos dois anos, e muitos deles precisam urgentemente de meios ganhar dinheiro

Internacional|Andy Newman

Não faz muito tempo, em uma estação no metrô no Bronx, uma menina de jaqueta puffer ia e vinha na plataforma com uma sacola cheia de M&M's, Kit Kat e chiclete Trident presa ao ombro; não parecia ter mais de oito anos. Um passageiro a registrou em um vídeo que postou no X, antigo Twitter, enquanto questionava: "Está sozinha? Cadê os pais?"

De todas as manifestações da miséria humana que os dois anos da crise imigratória instauraram na cidade de Nova York, poucas perturbam tanto a consciência quanto a presença de crianças vendendo bala no metrô – muitas vezes durante o horário de aula, de vez em quando com os pais, outras, sozinhas. Tanto nos trens como nas redes sociais, os nova-iorquinos questionam: mas isso não é trabalho infantil? Não é ilegal? Não deveria haver alguém fazendo algo para ajudar essa garotada?

Crianças com menos de 14 anos não podem exercer praticamente nenhuma atividade profissional
Crianças com menos de 14 anos não podem exercer praticamente nenhuma atividade profissional Crianças com menos de 14 anos não podem exercer praticamente nenhuma atividade profissional (Andrés Kudacki/The New York Times - 08.03.2024)

As crianças entre seis e 17 têm de frequentar a escola. Com menos de 14 anos, não podem exercer praticamente nenhuma atividade profissional. Não é permitido vender nada no sistema de transporte sem licença. Mas de quem é a obrigação de fazer alguma coisa? De acordo com os questionamentos recentes dirigidos a sete secretarias estaduais e municipais, pelo visto o consenso é a tática do empurra-empurra.

Mais de 180 mil estrangeiros passaram pela triagem das agências locais nos últimos dois anos, e 65 mil estão instalados em abrigos para pessoas em situação de rua. Muitos recém-chegados estão desesperados para encontrar meios de subsistência em uma cidade tão cara, mas não podem trabalhar legalmente, de modo que vender comida se tornou uma das principais fontes de renda.

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Uma jovem de 16 anos foi vista recentemente vendendo doces em um dos vagões da Linha 1, em Manhattan, às 10h45 de um dia de semana, e disse que estava ali "porque precisava ajudar os pais". Ela se recusou a se identificar.

O Departamento de Educação tem "inspetores de frequência", que trabalham para garantir que os pais mandem os filhos à escola, mas eles não saem fazendo ronda. "Acho melhor você falar com a polícia municipal sobre isso", escreveu o representante da pasta. Já o Departamento de Polícia afirmou ter emitido pelo menos 1.100 intimações por "venda ilícita e mendicância" nas estações do metrô, mas se recusou a dizer se os oficiais receberam instruções para fazer alguma coisa se virem crianças em idade escolar vendendo doces no horário de aulas.

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O Departamento do Trabalho estadual afirmou ser "difícil determinar" se a prática das crianças vendendo doces no metrô viola a legislação que, grosso modo, "regulamenta as relações do setor (ou seja, entre patrões e empregados)".

A agência do bem-estar social infantil municipal – a Administração para Serviços da Criança (ACS, em inglês) – disse que quem vir um menor em situação de insegurança pode denunciar por telefone, por meio de uma linha especial. Acontece que a Agência Estadual de Serviços da Criança e da Família, que administra o disque-denúncia, afirmou que um pequeno vendendo mercadorias ou pedindo esmola só é considerado caso de maus-tratos ou negligência se houver uma possibilidade específica de risco – "se estiver oferecendo doces em um cruzamento perigoso". (Embora de uns anos para cá o nível de criminalidade venha caindo no metrô, na semana passada o governador colocou membros da Guarda Nacional e da Polícia Estadual em diversas estações para reduzir as preocupações com a segurança.)

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Há também obstáculos logísticos referentes à questão: até alguém ligar para fazer a denúncia e o caso ser avaliado e enviado para a ACS, a criança já mudou de lugar. A polícia tem condições de agir mais depressa, mas geralmente é acionada só em casos de emergência. A Autoridade Metropolitana de Transporte, responsável pelo metrô, mencionou sua regra contra as atividades comerciais não autorizadas, que rendem uma multa de US$ 50, e recomendou que obtivéssemos mais informações com a polícia e a Prefeitura.

Crianças vendem bala em metrôs durante crise migratória em Nova York
Crianças vendem bala em metrôs durante crise migratória em Nova York Crianças vendem bala em metrôs durante crise migratória em Nova York (Andrés Kudacki/The New York Times - 08.03.2024)

Segundo os defensores dos imigrantes, a maioria dos menores que vendem bala é do Equador, e as fotos dos pequenos vendendo doces nos EUA geraram preocupações naquele país. Quando Eric Adams passou por lá, em outubro passado, em uma turnê relâmpago pela América Latina para desencorajar as viagens para Nova York, teve de enfrentar questionamentos durante a coletiva. "O que vai acontecer com nossas crianças, que foram vistas vendendo balas em Times Square?", perguntou uma repórter. O prefeito saiu pela tangente. "Notei que a prática é comum em todos os países por que passei. Em Nova York, não permitimos que nossos pequenos se arrisquem em ambientes perigosos."

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Os estrangeiros evitam falar sobre a atividade ou onde compram os doces, mas, segundo a reportagem que a "New York Magazine" fez no ano passado, muitos apelam para os atacadistas ou as lojas mais baratas.

Segundo levantamento, maioria das crianças que vendem no metrô é do Equador
Segundo levantamento, maioria das crianças que vendem no metrô é do Equador Segundo levantamento, maioria das crianças que vendem no metrô é do Equador (Andrés Kudacki/The New York Times - 08.03.2024)

A equatoriana Monica Sibri, que atua como defensora dos imigrantes em Nova York, mencionou as várias justificativas que ouviu dos recém-chegados para a presença dos filhos com eles na atividade: "Alguns acham (erroneamente) que os filhos podem perder um semestre de aulas e recuperar depois rapidinho; outros enfrentam atrasos na matrícula por causa de burocracia, como falta de certificado de vacinação; e tem também os que já praticavam a atividade no Equador e simplesmente continuaram aqui, temporariamente. Os pais não estão se negando a pôr as crianças na escola; apenas alegam que vêm enfrentando dificuldades com a papelada exigida, e há quem não confie no sistema."

Sibri e outros voluntários estarão promovendo reuniões entre março e abril com as famílias de imigrantes que vendem doces nas ruas na tentativa de oferecer recursos para que invistam em educação e "vivam dignamente".

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Na tarde de uma sexta-feira recente, uma mulher, uma menina e um garotinho menor ainda estavam oferecendo Snickers e Welch's Fruit Snacks aos passageiros na plataforma de Columbus Circle, em Manhattan. Kristina Voronaia, cazaque de 32 anos que trabalha em um bufê, estava sentada perto deles, deu uma olhada e comentou: "Muito melhor se as crianças estivessem na escola."

Quando a garota se afastou à procura de clientes, Josefina Vazquez, cuidadora de 50 anos, lhe perguntou onde estava sua mãe. "Aqui perto", foi a resposta. "Que horror usar os filhos assim", foi a tréplica. Em espanhol, a pequena explicou que tinha nove anos e não estava na escola porque ainda não tinha sido vacinada. Mais adiante, ela se aproximou de Sandra Acosta com ar de súplica, e a outra acabou comprando um saquinho de M&M's. "Ela devia estar na escola. Aqui é muito perigoso; tem muita gente doida", comentou a cuidadora de 55 anos. Pensando melhor, acabou sentindo pena da mãe da menina. "Talvez a mulher não tenha ninguém com quem a deixar. É preciso ver a situação dos dois lados."

(Liset Cruz e Annie Correal colaboraram na reportagem.)

c. 2024 The New York Times Company

Caravana com 7.000 imigrantes ruma em direção à fronteira do México com os Estados Unidos

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