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Contra criptomoedas e cauteloso com a IA: Bill Gates não é como outros bilionários da tecnologia

Às vésperas dos 70 anos, ele é um tecno-otimista, mas com limites; quanto mais envelhece, mais se surpreende com o mundo

Internacional|David Streitfeld, do The New York Times


Indian Wells, Califórnia – Quanto mais envelhece, mais Bill Gates se surpreende com o que o mundo apresenta. Tomemos os bilionários como exemplo. Atualmente, boa parte deles pertence à indústria da tecnologia, e muitos têm uma forte tendência política à direita. “Sempre pensei que o Vale do Silício fosse de centro-esquerda. O fato de agora haver um grupo significativo de centro-direita é uma surpresa para mim”, disse Gates.

Ou consideremos a evolução da tecnologia nas décadas desde que ele fundou a Microsoft e a transformou em uma das empresas mais valiosas do mundo. “Houve coisas incríveis por causa do compartilhamento de informações na internet”, comentou Gates. Isso ele previu. Mas, quando empresas de mídia social como o Facebook e o Twitter surgiram, “vemos males que, devo dizer, não previ”. Divisões políticas aceleradas pela tecnologia? “Não previ que isso ocorreria.” A tecnologia sendo usada como uma arma contra os interesses públicos mais amplos? “Não previ isso.”

Gates é um tecno-otimista, mas tem limites, como a criptomoeda. Ela tem alguma utilidade? “Nenhuma. Há pessoas com QI alto que se iludiram nesse aspecto.” Até mesmo a inteligência artificial, da qual Gates tem falado com entusiasmo e na qual a Microsoft investiu fortemente, gera algumas preocupações. “Agora temos de nos preocupar com pessoas mal-intencionadas usando a IA.” (O “The New York Times” processou a Microsoft e sua parceira OpenAI por violação de direitos autorais; ambas negaram as acusações).

Gates, que completa 70 anos este ano, tem refletido muito ultimamente. No dia 4 de fevereiro, publicou Código-Fonte: Como Tudo Começou, no qual examina sua infância. O livro, o primeiro de três volumes de memórias previstos, está em desenvolvimento há pelo menos uma década, mas chega em um momento incomum, quando os bilionários da tecnologia foram libertados. Elon Musk, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg – seu sucesso lhes deu um poder que estão usando de maneira polarizadora, com entusiasmo e até mesmo com alegria.


Há 30 anos, Gates criou o modelo do bilionário audacioso da tecnologia. A Microsoft, nos anos 1990, fornecia o sistema operacional para os computadores pessoais que estavam cada vez mais presentes nas casas e nos escritórios, e a empresa tinha grandes planos para essa coisa nova chamada web – a rede. Gates e sua empresa eram vistos como poderosos, implacáveis e onipresentes. O Vale do Silício se apavorou e até mesmo os reguladores se alarmaram, processando a Microsoft.

O sentimento anti-Microsoft na cultura popular atingiu o auge com o filme Ameaça Virtual, de 2001, sobre um CEO de uma empresa tecnológica que assassina pessoas em sua ambição de dominar o mundo. Os críticos destacaram as alusões a Gates, embora tenham desaprovado amplamente o filme. A ira passou há muito tempo, e Gates não se lembra de Ameaça Virtual. Referindo-se aos bilionários que geram emoções fortes, ele disse com um toque de alívio: “Não estou no topo da lista. Os atuais titãs da tecnologia provocariam uma reação negativa mais potente.”


Nas notícias, ele é um contraponto aos magnatas. “Não temos um clube. Nem temos consenso. Reid Hoffman” – cofundador do LinkedIn, membro do conselho da Microsoft e partidário convicto da ex-vice-presidente Kamala Harris – “é um bilionário. Você pode pedir a opinião dele. Ele vai ficar feliz em criticar.” Hoffman, que, conforme o “Times” informou em novembro, estava considerando deixar o país depois da derrota eleitoral de Harris, não respondeu aos e-mails solicitando sua opinião. Mas muitos outros no Vale do Silício estão observando a transformação dos bilionários em aspirantes a chefes supremos com um fascínio horrorizado. “É um tema constante de conversas deprimentes por aqui. O consenso é que Bill Gates parece um santo em comparação com a terrível situação atual”, disse Paul Saffo, veterano prognosticador tecnológico.

Quando conversamos há algumas semanas, Gates estava sentado do outro lado de uma mesa de escritório em uma suíte alugada em Indian Wells, na Califórnia, ao lado da cidade turística de Palm Springs. Por que estávamos aqui? Estava frio em Seattle, onde ele ainda mora quando não está viajando. Foi motivo suficiente.


Apesar de doar muitos bilhões de dólares para a Fundação Gates, seu gigantesco projeto filantrópico, Gates continua sendo a 12ª pessoa mais rica do mundo, com uma fortuna pessoal de mais de US$ 100 bilhões, segundo a “Forbes”. Mas seu físico não é musculoso, ele não é dono de uma frota de foguetes e parece ansioso para apontar que não tem todas as respostas.

Depois de nossa conversa, ele iria ao funeral do ex-presidente Jimmy Carter, que foi uma inspiração e um parceiro; a fundação de Gates se tornou uma grande financiadora do Centro Carter, organização não governamental. Em alguns aspectos, há semelhanças entre eles. Gates e Carter tiveram duas carreiras distintas, ambas cumpridas sob os olhos do público no decorrer dos anos. Depois de deixar a presidência, Carter passou mais de 40 anos se dedicando a boas ações dentro e fora dos Estados Unidos. Esse segundo ato tende a ser avaliado de forma mais favorável do que o primeiro. Foi assim também com Gates, embora seu divórcio de Melinda French Gates, em 2021, tenha representado um revés significativo para sua reputação. Também pesou contra ele sua relação malvista com o financista Jeffrey Epstein, que caiu em desgraça.

“Na Índia, no Japão, na China, exalta-se o sonho americano, do qual sou uma espécie de exemplo. Há quem pense que os bilionários não deveriam existir. Muita gente acha que uso vacinas para matar crianças. Existe uma ampla variedade de opiniões”, afirmou Gates.

Os bilionários deveriam ser proibidos?

Gates é o oposto do bilionário recluso escondido em sua propriedade. Recentemente, lançou sua segunda série, O Futuro de Bill Gates. O quarto dos cinco episódios, Você Pode Ser Muito Rico?, traz pessoas como o senador Bernie Sanders, socialista democrata de Vermont, afirmando com convicção que sim. Foi uma autocrítica leve, mas verdadeira, que poucos bilionários se disporiam a fazer. Mas trabalhar na série não mudou a opinião de Gates. “Os bilionários deveriam ser proibidos? Minha resposta para isso – e você pode dizer que sou tendencioso – é não.”


Por outro lado, ele defende um sistema tributário mais progressivo. Todo ano, faz a conta dos impostos que pagou ao longo da vida. Estima que já desembolsou US$ 14 bilhões, “sem contar os impostos sobre vendas”. Ele calcula que, em um sistema melhor, teria pagado US$ 40 bilhões. Lançado em setembro, Você Pode Ser Muito Rico? já parece pertencer a outra era. A resposta à pergunta de Gates, em um governo composto por bilionários, é não.

Gates tenta se manter distante da política, mas considerou as consequências da eleição de 2024 tão significativas que se envolveu financeiramente pela primeira vez. Doou US$ 50 milhões ao Future Forward, principal grupo externo de arrecadação de fundos que apoiava Kamala Harris, segundo o “Times” relatou em outubro. Ele não falou publicamente a respeito disso na época e não pretende falar agora.

Um desafio para seus pais

Escrever uma autobiografia é mais uma maneira pela qual Gates se diferencia de seus semelhantes, poucos dos quais parecem tão introspectivos. Sua infância, em um bairro da classe alta de Seattle nos anos 1960 e no início dos anos 1970, não foi particularmente dramática. “Muitos contam que tiveram uma infância muito difícil e que isso os tornou mais competitivos. Não é meu caso.”

O que ele teve foi sua mãe, Mary Gates, que foi bem-sucedida de maneira notória numa época em que a sociedade incentivava as mulheres da classe alta a permanecer em casa. Foi a primeira mulher a presidir a United Way do condado de King – organização sem fins lucrativos que atua em diversas regiões, com o objetivo de promover o bem-estar social – e, mais tarde, integrou o conselho da United Way of America, organização nacional que coordena as outras filiais. Em 1983, tornou-se a primeira mulher a liderá-la. “Ela era quase intensa demais para mim”, revelou Gates. Seu pai, advogado, era mais distante, mas acabou tentando impor suas vontades.


Houve um período em que Bill – ainda no sexto ano – era extremamente difícil. “Eu podia passar dias sem falar, saindo do quarto só para comer e ir à escola. Era chamado para o jantar e ignorava. Mandavam que eu pegasse minhas roupas, e nada. Pediam que eu limpasse a mesa – silêncio”, escreveu ele em Código-Fonte: Como Tudo Começou.

“Eu os provocava. Achava que não tinha lógica alguma demonstrar respeito por eles. Minha mãe insistia muito em ‘coma desse jeito’, ‘tenha tais modos’, ‘se for usar o ketchup, ponha numa tigela e a coloque aqui’. Ela me achava muito desleixado. Porque eu era”, contou na entrevista. Claro, não se tratava só do ketchup. “Eu não tinha sentimentos negativos em relação a ela, mas conseguia fingir que não me importava com o que ela dizia de uma forma que, claramente, a irritava. O que eu estava tentando provar?”

Naquela época, os pais não conseguiam monitorar os filhos se eles estivessem determinados a evitar isso. “Minha irmã, Kristi, tinha receio do que poderia dar errado. Eu, por outro lado, pensava: ‘O que pode dar errado?’” Bill passava grande parte do tempo programando, com frequência saindo de casa escondido à noite.

Até que algo deu errado, no fim de seu penúltimo ano do ensino médio. Seu melhor amigo, Kent, sofreu uma queda fatal enquanto escalava uma montanha. “Kent era um pensador independente e testava seus limites. Seus pais se preocupavam com ele, e Kent não tinha muita coordenação. Ainda assim, parecia gostar disso, e ninguém o impediu.” O que Gates aprendeu com a tragédia foi que a vida pode ser injustamente ruim – ou injustamente boa. Ele teve muita sorte; Kent teve muito azar.

Gates disse que, se seu eu adolescente fosse diagnosticado hoje, é provável que recebesse um diagnóstico dentro do espectro do autismo. Talvez sua mãe tenha intuído do que ele precisava. “Eu queria superar suas expectativas. Ela era sempre muito boa em elevar o nível.”

E foi isso mesmo que ele fez constantemente quando, com seu amigo Paul Allen, fundou uma empresa em Albuquerque, no Novo México, em 1975, para desenvolver um software para o Altair 8800, um computador pessoal rudimentar. Gates mal havia saído da adolescência. Logo transferiu a incipiente operação para a região de Seattle para ficar mais perto da mãe.

Stewart Alsop cobriu Gates quando era editor da “InfoWorld”, influente revista de tecnologia da época. “Bill concedia o privilégio de um jantar a sós com ele em Seattle a cada seis meses; o preço era sempre propor algo que ele ainda não tivesse pensado. Isso era fácil, porque ele tinha dificuldade em enxergar o mundo além da própria vida”, afirmou Alsop.

Se Gates está no espectro, agora ele acredita que isso deu uma vantagem à Microsoft. “Eu não acreditava em fins de semana nem em férias”, contou certa vez. Ele sabia o número da placa dos carros de seus funcionários para verificar se tentavam ir para casa. Foi um modelo para milhares de startups de tecnologia que surgiriam depois.

Na descida da curva

Código-Fonte: Como Tudo Começou termina com o início da Microsoft. As planilhas, os bancos de dados e os processadores de texto eram ferramentas primitivas, mas proporcionavam aos usuários uma vantagem em produtividade. O futuro parecia promissor. “De fato, não víamos muitos aspectos negativos.”

Ele manteve seu otimismo durante muito tempo. Em 2017, escreveu uma resenha para o livro “Homo Deus”, do filósofo israelense Yuval Noah Harari. Gates discordou da advertência do autor sobre um futuro potencial em que a elite se aprimoraria por meio da tecnologia, enquanto as massas seriam deixadas para trás. “Esse futuro não está predestinado”, escreveu Gates.

Agora, ele está lendo o livro mais recente de Harari. Nexus: Uma Breve História das Redes de Informação, da Idade da Pedra à Inteligência Artificial é uma análise crítica de nossa dependência da tecnologia. “Cada smartphone tem mais informações do que a antiga Biblioteca de Alexandria e permite que seu dono se conecte instantaneamente a bilhões de outras pessoas no mundo inteiro. Ainda assim, com toda essa informação circulando a velocidades vertiginosas, a humanidade está mais perto do que nunca de se autodestruir”, escreveu Harari. Gates levou Nexus para o lado pessoal. “Harari zomba de pessoas como eu, que viam mais informação como algo sempre positivo. Eu diria basicamente que ele está certo e eu estava errado”, admitiu Gates. (Harari não pôde comentar porque estava participando de um curso de meditação).

Para deixar claro, Gates não está pedindo desculpas. Continua acreditando no poder e na bondade da tecnologia. Mas, embora tenha resistido no início, as lições de sua mãe claramente ainda estão com ele. Tenha bons modos. Tente fazer o bem. E procure não se deixar levar. “Como bilionário, outras pessoas lhe atribuem poderes imensos. Por ser bem-sucedido em uma área, elas acham que você é bom em várias coisas nas quais, na verdade, não é”, disse Gates. Soou quase como um alerta.

c. 2025 The New York Times Company

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