Internacional Estudo aponta que mais crianças morreram por tiros durante a pandemia de Covid-19 nos EUA

Estudo aponta que mais crianças morreram por tiros durante a pandemia de Covid-19 nos EUA

Pesquisadores atribuem o aumento de mortes de jovens por arma de fogo à maior permanência em casa devido à doença

Agência EFE
Casos de jovens mortos por arma de fogo aumento durante a pandemia de Covid-19 nos EUA

Casos de jovens mortos por arma de fogo aumento durante a pandemia de Covid-19 nos EUA

Pixabay

Nos Estados Unidos, onde os tiroteios são uma das principais causas de morte de menores de idade, falar sobre crianças e armas de fogo não é novidade. Mas pouco se sabe sobre o impacto que a pandemia de Covid-19, com seus bloqueios e fechamentos de escolas, teve sobre essa tendência. Até agora.

Em um estudo publicado nesta quinta-feira (4) na prestigiosa revista médica Jama, os pesquisadores Pablo Peña, professor de economia da Universidade de Chicago, e Anupam Jena, professor de política de saúde na Harvard Medical School, revelam que, desde março de 2020, foi registrado todos os dias uma morte a mais de criança do que a média diária desses casos.

Um aumento concentrado principalmente entre adolescentes - isto é, nos menores de 12 a 17 anos -, mas generalizado.

Embora os dados por si só não mostrem que haja uma relação direta entre a pandemia e o aumento de mortes de menores em tiroteios, eles dão "uma indicação geral muito convincente" de que é assim, explica Peña, autor principal do estudo, à Agência Efe.

Entenda o que está por trás

Peña explica que a analisa deste tipo de padrões não é um retrato completo da violência com armas de fogo nos EUA, mas pode ajudar a entender o que está por trás disso.

O pesquisador se interessou pela relação entre os tiroteios e a pandemia após uma piada do comediante Dave Chappelle no programa "Saturday Night Live" sobre como os tiroteios em massa haviam sido reduzidos no país, já que havia menos "assassinos brancos" nas ruas. O professor confessa ser um grande fã de Chappelle e que resolveu investigar se esse era realmente o caso.

Juntamente com Anupam Jena, ele descobriu que os tiroteios em massa - aqueles envolvendo quatro ou mais pessoas, além do agressor - aumentaram a partir de maio de 2020.

Suas descobertas foram publicadas na revista Jama em setembro do ano passado.

Mais de 733 crianças mortas

Utilizando um método semelhante, que mede o excesso de mortes por armas de fogo entre menores a partir de maio de 2020 – em comparação com a tendência desde 2014 – os pesquisadores descobriram que desde a pandemia, morreram 733 crianças por tiros a mais do que teriam morrido em circunstâncias normais.

É praticamente o mesmo número de crianças que morreram de Covid-19 nos Estados Unidos - 752 -, o que leva os pesquisadores a equiparar os danos causados ​​às crianças pela doença com os danos causados ​​pelos esforços para combatê-la.

Peña espera, de fato, que sua pequena contribuição ajude a focar o debate sobre o retorno dos menores de idade às salas de aula de uma maneira diferente, enquanto as infecções por Covid continuam sendo registradas em todo o mundo.

"Se a casa e o bairro fossem mais seguros do que as escolas e a rua, seria de esperar que o número diminuísse", lamenta.

O aumento claro das mortes de menores por tiros a partir de março de 2020 também faz com que ambos os pesquisadores teorizem sobre as possíveis causas do fenômeno.

Mais tempo em casa, mais acidentes

“Um possível resultado indireto de saúde (da pandemia) é a morte por armas de fogo devido ao aumento das dificuldades psicológicas nas famílias, juntamente com o fechamento das escolas, o que levou as crianças a passar mais tempo em casa, onde as armas são normalmente guardadas”, escrevem os pesquisadores.

Um fato que parece confirmar este último ponto é que a grande maioria dessas mortes - quase 80% - foi do sexo masculino.

"Isso pode ser devido a acidentes", explica Peña. "Existe uma ideia de que as armas de fogo são mais atrativas para as crianças, que são mais propensas a brincar com elas. Por isso não nos surpreendemos" com os dados, diz ele, pois vai ao encontro de pesquisas que mostram que os rapazes são mais propensos a morrer em idades mais jovens do que as mulheres.

Os pesquisadores também descobriram que, embora o número médio de mortes por tiros de crianças tenha aumentado durante a pandemia, esse aumento ocorreu apenas em áreas de baixa renda, enquanto as áreas de alta renda registraram dados ligeiramente abaixo da tendência.

Peña aponta para estas descobertas que, devido às limitações do estudo, não foram capazes de explorar com tanto detalhe quanto gostariam. Mas ele diz que continuarão a se concentrar no assunto, já que, infelizmente, os tiroteios continuarão sendo um problema no país por muitos anos.

Últimas